<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250</id><updated>2012-01-20T09:21:31.635-08:00</updated><category term='nostalgia'/><category term='Tratado de Lisboa'/><category term='micro-política'/><category term='democracia'/><category term='fragmentação'/><category term='desempenho'/><category term='avaliação'/><category term='custo-benefício'/><category term='défice externo'/><category term='teoria económica'/><category term='investimento público'/><category term='tecnologia'/><category term='caos'/><category term='geografia'/><category term='poder'/><category term='gestor-herói'/><category term='modos de vida'/><category term='liderança'/><category term='desenvolvimento'/><category term='concentração'/><category term='convergência'/><category term='gestão'/><category term='incentivos'/><category term='jovens'/><category term='subprime'/><category term='regulação'/><category term='complexidade'/><category term='criação de valor'/><category term='Adam Smith'/><category term='sociedade anónima'/><category term='sistema dinâmico'/><category term='moralismo'/><category term='classes'/><category term='Milton Friedman'/><category term='espaço público'/><category term='tribos urbanas'/><category term='professores'/><category term='Mintzberg'/><category term='pertença'/><category term='mercantilização'/><category term='estrutura produtiva'/><category term='auto-regulação'/><category term='União Europeia'/><category term='utopia'/><category term='Darien Scheme'/><title type='text'>O Provador de Venenos</title><subtitle type='html'>"Provador de venenos, sua prioridade é o risco" (Tom Jobim)</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>50</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1234396846972322464</id><published>2012-01-20T09:21:00.000-08:00</published><updated>2012-01-20T09:21:31.650-08:00</updated><title type='text'>Os dois capitalismos e a cafrealização dos costumes</title><content type='html'>A mudança para a Holanda do domicílio fiscal da sociedade familiar que controla a Jerónimo Martins foi muito criticada por sugerir uma quebra de solidariedade com o país num momento de crise em que se apela à partilha do sofrimento entre todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em resposta, houve quem louvasse a sua racionalidade e oportunidade tendo em conta a responsabilidade que qualquer empresa tem de assegurar a sua sobrevivência e crescimento. Sem lucros não há postos de trabalho nem investimento, disse-se; logo, os empresários têm não só o direito como o dever de buscar, se necessário no estrangeiro, as condições fiscais mais favoráveis para os seus accionistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez impressão que, no contexto de um debate acalorado mas razoável, o patriarca da família viesse a público dizer coisas como: "tenho o direito de defender o meu património"; "o português não gosta da iniciativa privada"; "não aceito ataques pessoais"; e "no parlamento continua a insultar-se a iniciativa privada". Mas o que verdadeiramente nos interessa é esta sua afirmação: "a minha responsabilidade é gerir o dinheiro dos accionistas". Só?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os manuais de microeconomia pretendem que o propósito de uma empresa é a maximização do lucro e Milton Friedman inferiu daí que nenhuma outra responsabilidade social deve ser exigida ao empresário. Ambas as teses são erradas. Nenhum gestor sabe o que, em termos práticos, poderá significar a exigência da maximização do lucro, muito menos como alcançá-la. Além disso, Jim Collins demonstrou em "Built to Last" que, paradoxalmente, as empresas verdadeiramente excecionais atribuem uma baixa prioridade à rentabilidade, a qual se revela, na prática, um resultado colateral de uma série de coisas que podemos sinteticamente designar como paixão pela excelência estribada numa sólida visão de negócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peter Drucker, o fundador da disciplina da gestão, para quem o lucro não era "a explicação, a causa ou a justificação das decisões de negócios, mas o teste da sua validade", não teria ficado surpreendido com essa conclusão. É isto, diga-se de passagem, que se ensina nas grandes "business schools" cujos rankings excitam tanta gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente, nem todas as empresas seguem a via indicada. Há um capitalismo que assenta a sua prosperidade na conceção de bens e serviços inovadores ou na invenção de processos mais eficientes (logo, mais económicos) de produção e distribuição, dedicando-se à destruição criadora de que falava Schumpeter. Mas também há outro que trata apenas de explorar o poder negocial resultante de barreiras à entrada, do acesso preferencial a matérias-primas, da protecção política ou da fortuna do paizinho, beneficiando de rendas de situação que lhe permitem cobrar alguma espécie de portagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebe-se que o segundo modelo fixe preferencialmente as suas atenções no lucro, porque, em empresas que exigem menos competências distintivas, fazer dinheiro será porventura a actividade mais desafiadora. Já quem gere uma empresa inovadora terá muito mais coisas interessantes com que se entreter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o público, o capitalismo obcecado com o lucro é por vezes inevitável; mas só aquele que contribui para a melhoria do bem-estar colectivo é desejável. O primeiro será um mal menor; o segundo, um bem maior. O primeiro é um problema dos seus acionistas; o segundo, um ativo para todos nós. Com o primeiro mantemos uma relação interesseira; com o segundo, uma relação interessada. Entendemos que o progresso do país depende de reduzirmos o poder de influência de empresas do primeiro tipo e de conseguirmos ter mais do segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doutrina que concede toda a prioridade ao lucro não é uma teoria empiricamente sustentada, apenas uma prescrição que visa justificar a total subordinação da gestão empresarial aos interesses dos acionistas em detrimento de todas as restantes partes envolvidas, incluindo trabalhadores, clientes, parceiros, fornecedores, comunidade local e comunidade nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os empresários e gestores que se acham no direito de usar sem entraves o poder de que desfrutam estão a contribuir para a cafrealização dos costumes. "Se tens poder, usa-o": é este o conselho que nos dão. Ora a civilização consiste na contenção do poder, incluindo, como elemento essencial, a auto-contenção. Inversamente, quem entende que o poder sobreleva quaisquer outras considerações coloca-se "ipso facto" do lado da força bruta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheira-me que não agradará muito àqueles que hoje tudo podem o que um dia poderão vir a poder aqueles que, de momento, nada podem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Publicado no Jornal de Negócios em 17.1.12&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1234396846972322464?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1234396846972322464/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1234396846972322464' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1234396846972322464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1234396846972322464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2012/01/os-dois-capitalismos-e-cafrealizacao.html' title='Os dois capitalismos e a cafrealização dos costumes'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8786867283752855024</id><published>2012-01-09T07:16:00.000-08:00</published><updated>2012-01-09T07:16:18.351-08:00</updated><title type='text'>Uma pesada herança</title><content type='html'>Quando nasci, a travessia do Tejo mais próxima de Lisboa era em Santarém. Pouco tempo depois, foi inaugurada a de Vila Franca. A única auto-estrada do país ligava Lisboa ao estádio do Jamor. Em 1962, construiu-se, a muito custo, um troço de Lisboa a Vila Franca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravessar o país de norte a sul demorava quase 24 horas, quando agora um terço desse tempo bastará. Foi preciso esperar pelo século XXI para ser possível ir de comboio directamente de Faro a Braga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O aeroporto do Funchal foi inaugurado em 1964, o de Faro em 1965, o de Ponta Delgada em 1969. A construção dessas infra-estruturas, aliada à expansão do aeroporto de Lisboa, possibilitou o rápido crescimento do turismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1970, só havia água canalizada em 47% das habitações, instalações sanitárias em 58% delas, electricidade em 64% e saneamento básico em 60%. Todas essas amenidades são hoje consideradas triviais. Foram erradicadas as barracas, onde ainda em 1981 viviam 75 mil pessoas. Entre 1995 e 2008 passou de 32% para 64% a proporção de novos fogos com três ou mais quartos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A taxa de mortalidade infantil é umas 24 vezes inferior à de 1960. A esperança de vida cresceu 15 anos desde a mesma data. Há 5,5 vezes mais médicos e 6 vezes mais enfermeiros. Os portugueses são agora 2,5% mais altos do que há uma geração atrás, resultado que traduz a melhoria geral das condições de saúde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um em cada três portugueses era analfabeto em 1970. Havia pouco mais alunos universitários do que hoje há professores. Porém, neste meio século, cresceu 41 vezes o número de crianças que frequentam o pré-escolar. Na última década do século XX duplicou o número de licenciados pelas universidades portuguesas, o que voltou a acontecer na década seguinte. Em cinquenta anos, a proporção de portugueses com curso superior passou de 1% para 12% da população com mais de vinte anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há 11 vezes mais bibliotecas com 9 vezes mais utilizadores e 3 vezes mais museus com 11 vezes mais visitantes que há cinquenta anos. A I&amp;D quintuplicou em proporção do PIB em vinte e cinco anos, enquanto foi multiplicado por 10 o número de investigadores. No período compreendido entre 1995 e 2008 cresceu 10 vezes o número de empresas com actividades de I&amp;D. A exportação de serviços tecnológicos cresceu 8 vezes no mesmo período.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve-se hoje muitas queixas sobre a herança que vamos deixar às novas gerações. Porém, mesmo sem falar do progresso dos costumes e das liberdades individuais e colectivas, ela é bem mais invejável que aquela que a minha recebeu. Em vez de herança pesada, deveríamos antes falar de herança de peso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixemos aos historiadores a tarefa de esclarecer que proporção do investimento realizado deve ser considerada desperdício. O desafio pragmático que hoje se nos coloca é o de tirar o máximo partido dos recursos materiais e humanos entretanto acumulados sob a forma de infra-estruturas, equipamentos públicos e privados, capacidade de trabalho, conhecimento genérico e know-how específico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A um avanço impetuoso, muitas vezes governado por uma crença ingénua nas virtualidades do investimento independentemente da sua qualidade, deve agora suceder uma fase de consolidação – não de abandono ou de destruição por incúria – do património existente. Precisa-se, pois, de uma estratégia mais orientada para a valorização do que temos, que nos permita passar do crescimento extensivo das últimas décadas para um crescimento intensivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamos alguns exemplos. A existência de excelentes vias de comunicação possibilita a concentração de equipamentos de saúde e educação com ganhos de economia e qualidade, que podem e devem estender-se à reorganização administrativa do território. Os resultados extraordinários já alcançados com o Alqueva devem ser completados com obras de pormenor que permitirão tirar pleno partido do grande investimento realizado. O alargamento do canal do Panamá deve ser aproveitado para, explorando o que foi feito no porto de Sines, atrair investimento do Extremo Oriente que promova a montagem de produtos industriais dirigidos ao mercado europeu. Por último, é necessário assegurar, articulando a acção do estado com as empresas e os centros de investigação, que o país aproveite convenientemente o grande aumento do número de doutorados e investigadores tendo em vista a melhoria da competitividade das suas empresas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Herdeiros diligentes esforçam-se por dar bom uso ao legado que recebem; beneficiários incompetentes e mal-agradecidos perdem-se em recriminações enquanto deixam ao abandono o invejável património que lhes caiu em sorte. É esse o verdadeiro dilema que nos coloca a herança de peso dos consideráveis investimentos orientados para a requalificação do país que realizámos ao longo do último meio século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 3.1.12)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8786867283752855024?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8786867283752855024/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8786867283752855024' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8786867283752855024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8786867283752855024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2012/01/uma-pesada-heranca.html' title='Uma pesada herança'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1018237780150978662</id><published>2011-12-29T04:41:00.000-08:00</published><updated>2011-12-29T04:41:54.651-08:00</updated><title type='text'>Vamos experimentar enfiar o gato no micro-ondas para ver o que acontece</title><content type='html'>Diz-se ter Lord Palmerston afirmado a propósito de um diferendo territorial que durante décadas opôs a Dinamarca à Confederação Germânica: “A questão do Schleswig-Holstein é tão complicada que só três pessoas na Europa chegaram a compreendê-la. O primeiro era o Príncipe Alberto, que morreu. O segundo era um Professor alemão, que enlouqueceu. O terceiro era eu, e esqueci-me.” Substitua-se o Príncipe Alberto por Miterrand, o professor alemão por Jurgen Stark e Palmerston por Delors, e, em vez do Schleswig-Holstein, estaremos a falar da zona euro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O euro é o ornitorrinco do mundo financeiro, uma ave mamífera rastejante que se imagina capaz de altos voos. Mas não se pense que foi concebido assim por engano: as primeiras versões do projecto da moeda única europeia, traçadas nos anos 70, incluíam quase tudo o que agora se reconhece faltar-lhe: união fiscal, união política, flexibilidade numa fase de transição, euro-obrigações e um emprestador de última instância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi preciso muito trabalho de sapa, liderado pela casta sacerdotal do Bundesbank, para dar à luz o fastidioso monstro que agora temos. Não por acaso, a arquitectura do euro ignora olimpicamente toda a experiência acumulada de gestão monetária internacional no último século e meio, incluindo a indispensabilidade de um emprestador de última instância para enfrentar situações de pânico bancário e a instabilidade inerente aos sistemas de câmbios fixos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos por isso a comandar os destinos do euro um banco cujos estatutos, violando a norma dos países desenvolvidos, não incluem a responsabilidade de fomentar o crescimento e o emprego, levam a independência ao ponto de não ter que prestar contas a ninguém e o proíbem, mesmo numa situação de emergência limite, de financiar directamente a dívida pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A justificação oficial para este arranjo é o trauma alemão com a híper-inflação de 1923, ocultando que não foi ela, mas a deflação e o pico do desemprego em 1931, provocados por políticas semelhantes às de hoje, que abriram caminho a Hitler. Porém, como a experiência demonstrou, a principal utilidade desta orientação foi a criação do enquadramento institucional mais favorável aos desígnios do mercantilismo alemão, uma modalidade de parasitismo que ameaça arrasar a economia europeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos quiseram acreditar que, com o tempo, alguém de bom senso procederia à cirurgia reconstrutiva do aleijado. Mas é típico dos dogmáticos não se deixarem desencorajar pelo choque com a realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cura proposta por Ângela Merkel para consertar a zona euro assenta numa falsidade – que a crise actual foi criada pela indisciplina fiscal de alguns – e numa crença irracional – que a austeridade punitiva e a ortodoxia monetária salvarão a Europa. As pessoas sensatas tendem a acreditar que, no último momento (por exemplo, quando um grande banco europeu colapsar), o dogma será abandonado e o BCE e a União Europeia farão o que tem que ser feito. Mas a alternativa é tão dramática que, mesmo que pouco provável, não pode ser inteiramente descartada. Assim se explica a fuga de capitais da zona euro que no final de Novembro obrigou a uma intervenção concertada de emergência de vários bancos centrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para salvar o euro, evitar a estagnação duradoura e proteger o emprego é urgente uma intervenção simultânea em três frentes: a) intervenção decidida do BCE para apoiar os bancos em dificuldades e comprar dívida soberana; b) políticas expansionistas nos países com superávites crónicos, a começar pela Alemanha; c) emissão de euro-obrigações dentro de limites a definir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ponto de colapso iminente do euro a que chegámos, ninguém (nem sequer a Alemanha) tem algo a ganhar com o prolongamento da situação, mas nunca devemos subestimar o temível poder da estupidez. Recorde-se que, embora uma multiplicidade de factores tenha preparado o terreno para a 1ª Guerra Mundial, em última análise foi a estupidez que a desencadeou; que Salazar empenhou estupidamente o país numa via sem saída quando declarou as colónias parte integrante do território nacional; ou ainda que, confrontado com uma guerra sem quartel em três frentes simultâneas, Hitler tomou a estúpida decisão de desviar recursos em larga escala para exterminar milhões de judeus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão aparentemente esgotados todos os truques que permitiriam salvar a face aos fautores da confusão: alavancagem do FEEF; pedido de ajuda à China; encaminhamento do socorro do BCE através do FMI. Caminhamos agora na borda do precipício, mas Merkel, de dedinho no ar, insiste em ordenar ao euro: “Levanta-te e anda!” e em decretar contra os pecadores ameaças de terríveis punições até à sétima geração que deixariam incomodado o Deus do Antigo Testamento. Esta linha de atuação é infantil, caprichosa, irrelevante, irresponsável e perigosa. &lt;i&gt;Bart Simpson rules&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Publicado no Jornal de Negócios em 7.12.11&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1018237780150978662?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1018237780150978662/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1018237780150978662' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1018237780150978662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1018237780150978662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/12/vamos-experimentar-enfiar-o-gato-no.html' title='Vamos experimentar enfiar o gato no micro-ondas para ver o que acontece'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-418695098626427515</id><published>2011-11-09T03:50:00.000-08:00</published><updated>2011-11-15T03:52:19.272-08:00</updated><title type='text'>Quando todos devem a todos e ninguém consegue pagar</title><content type='html'>Um jovem continua desempregado três anos depois de concluir os seus estudos e começa a desconfiar que jamais ganhará o que esperava. Um casal que comprara uma casa nova para aí criar os seus dois filhos sofre um choque quando a mulher perde o seu posto de trabalho. Uma empresa que duplicara a sua capacidade de produção vê-se confrontada com uma queda abrupta da procura externa. Um país que, fiado no sucesso passado, investiu na melhoria do seu sistema de educação, constata que as receitas fiscais regridem de forma duradoura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, como é usual, esse estudante, essa família, essa empresa e esse estado tiverem contraído empréstimos para financiar os seus projectos, todos poderão ter problemas de solvência. As pessoas e as empresas planeiam o seu futuro em função de expectativas de melhoria ou, ao menos, estabilidade da sua situação. Se algo de inesperado sucede, a sua capacidade de pagar será posta em causa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que há de comum a todas essas situações é um erro de avaliação de risco. Mas o crédito implica também uma atitude optimista do emprestador. Se o devedor não consegue pagar, isso significa que também o credor avaliou mal o risco. Por que deverá o erro do primeiro ser mais penalizado do que o do segundo? O perdão do devedor premeia a sua imprevidência? A garantia do credor também. Porquê, então, a assimetria no tratamento de um e de outro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aflição em que hoje vivemos, convém lembrá-lo, teve a sua origem no negócio fraudulento do subprime que, por via da difusão de produtos tóxicos, contaminou o sistema financeiro mundial. Para evitar o colapso, a dívida incobrável, que passara primeiro das famílias para os bancos, foi depois, por múltiplas formas, transferida para os estados. O seu ónus regressou agora aos bancos e, sob a forma de falências, desemprego e carga fiscal agravada, às famílias e às empresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As políticas de resposta à crise têm-se limitado até agora a fazer circular a dívida de mão em mão, sem se decidirem a atacar o fundo do problema, que é este: não há nenhuma forma de voltarmos a ter crescimento económico duradouro enquanto se persistir em exigir que a colossal dívida acumulada a nível mundial seja integralmente paga, especialmente quando, não sendo questionadas as políticas mercantilistas da China e da Alemanha que se encontram na sua origem, ela não pára de crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na antiga Lei de Moisés, a cada meio século era decretado um Jubileu de reconciliação entre os homens, remissão dos pecados e perdão universal: os escravos e os prisioneiros eram libertados e as dívidas eram anuladas. Mas o perdão das dívidas, mesmo que parcial, é hoje estigmatizado como blasfemo por ofender o poder do Dinheiro, deus verdadeiro do mundo contemporâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Note-se que a anulação total ou parcial das dívidas, cancelando simultaneamente ativos e passivos, não afecta a riqueza existente, mas altera a sua distribuição. Porém, ao transferir recursos para aqueles que tem maior propensão a despendê-los, contribui para desbloquear a retoma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que os obstáculos políticos a uma tal operação fossem superados, a renegociação caso a caso das dívidas à escala mundial envolveria uma tal complexidade e tomaria tanto tempo que teremos que reconhecer a sua inviabilidade. A solução prática para a desvalorização rápida, progressiva, generalizada e implacável das dívidas é conhecida desde tempos imemoriais e chama-se inflação. Isso consegue-se monetarizando as dívidas dos estados, coisa que, na actual crise, os EUA e o Reino Unido têm vindo a fazer com bons resultados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resta, no caso da Europa, uma pequena dificuldade: uma superstição bárbara e irracional proíbe o BCE de comprar directamente títulos da dívida pública nos mercados primários, o que o impossibilita de funcionar como emprestador de última instância – uma singularidade nada invejável do sistema monetário a que estamos amarrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se no tempo de Moisés já houvesse banco central, é provável que a Bíblia lhe recomendasse que agisse como emprestador de última instância em caso de crise financeira adequada. Como os textos sagrados nada dizem a este respeito, resta-nos esperar que, antes da queda no abismo, Mario Draghi se atreva a interpretar de forma ousada o mandato que a União lhe atribuiu, enfrentando, se necessário, a ira dos Nibelungos. Hoje em dia nem é preciso pôr a máquina de fazer notas a funcionar – basta carregar num botão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 9.11.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-418695098626427515?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/418695098626427515/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=418695098626427515' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/418695098626427515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/418695098626427515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/11/quando-todos-devem-todos-e-ninguem.html' title='Quando todos devem a todos e ninguém consegue pagar'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-4274752599481625416</id><published>2011-10-11T03:48:00.000-07:00</published><updated>2011-11-15T03:49:54.728-08:00</updated><title type='text'>Há um túnel ao fundo do túnel</title><content type='html'>Qual a probabilidade de o país sair airosamente do aperto financeiro em que se encontra? Com as economias do Atlântico Norte estagnadas ou talvez mesmo em recessão, a quebra da procura externa somar-se-á à da interna, contraindo a base tributária e colocando pressão adicional sobre as contas públicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hipótese mais favorável, a União Europeia, perante a catástrofe iminente, inverteria radicalmente a sua política reforçando o FEEF, flexibilizando o acesso aos seus fundos e eventualmente dando luz verde à emissão de euro-obrigações. Mas a contrapartida não deixaria de ser o controlo direto da União sobre as finanças públicas dos países membros, o que liquidaria de vez qualquer resquício de política económica autónoma em Portugal. O impropriamente chamado federalismo fiscal revelar-se-ia afinal uma tirania pan-europeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não vale a pena imaginar-se que é neste momento viável o federalismo genuíno, com um Governo Europeu supranacional responsável perante o Parlamento Europeu, porque o Tribunal Constitucional Alemão já afastou liminarmente essa possibilidade. Nestas circunstâncias, por muito que penemos, não sairemos tão cedo do gueto financeiro no qual a União Europeia nos internou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginemos, porém, que uma parte substancial da nossa dívida - digamos, metade - se evaporava no ar por via de um perdão. Ficariam os nossos problemas resolvidos? Provavelmente não, visto que, permanecendo inalterado o enquadramento institucional da zona euro, não se alteraria a orientação geral que no passado tanto penalizou o nosso desempenho económico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Zona Euro manteve até 2007 taxas de juro demasiado baixas para Portugal, que potenciaram o crescimento descontrolado do nosso endividamento privado e público. Fê-lo, porque isso era do interesse da Alemanha, a braços com um complexo processo de reunificação e uma taxa de desemprego elevada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde 2007, em contrapartida, a Zona Euro impõe-nos taxas de juro demasiado elevadas, que agravam a recessão e o desemprego em Portugal. Fá-lo, porque esse é agora o interesse da Alemanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mentes mais optimistas dirão que isso é passado: por um lado, a crise encarregou-se de forçar a diferenciação das taxas de juro de país para país, pelo que não voltará a haver um incentivo tão poderoso ao endividamento; por outro, a recomposição da estrutura das exportações portuguesas e o seu bom comportamento na última meia dúzia de anos sugerem que os nossos maiores problemas de competitividade poderão estar em vias de ser superados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser. Mas poderemos correr o risco de esperar passivamente mais alguns anos para verificarmos se a hipótese se confirma? Impressiona a mansidão abúlica com que o país se deixa conduzir para o abate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas décadas decorridas desde o lançamento do Sistema Monetário Europeu sugerem claramente que, nestes moldes, a pertença à Zona Euro não tem para nós qualquer vantagem e tem todos os inconvenientes. O país deixou de ter política monetária e cambial própria, perdeu controlo sobre a sua política fiscal e ficou muito condicionado nas restantes vertentes das suas políticas económicas. Numa palavra, prescindiu da sua soberania entregando poder de decisão a quem não acautela minimamente os nossos interesses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto é hoje óbvio, tal como é óbvio que, descontando a eventualidade de uma improvável reforma da governação económica, financeira e monetária da UE, o futuro imitará o passado. Claramente, está na hora de pensarmos seriamente em alternativas, tanto mais que os custos acumulados de redução do crescimento ao longo de uma dúzia de anos são neste momento já bem elevados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos sabemos que não só a saída do euro terá enormes custos como nem sequer está prevista nos tratados. Mas poderá chegar o momento em que sejamos lançados fora ou em que os elevados custos de ficarmos se revelem indubitavelmente superiores aos elevados custos de sairmos. Que fazer nessa eventualidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mínimo, faz sentido que, na antecipação das difíceis negociações que vêm aí, tratemos desde já de esclarecer a que condições deveria obedecer o rearranjo institucional da zona euro para que ele nos convenha, verificar se será possível construir dentro da UE as alianças necessárias para que essa visão se torne realidade e, em alternativa, entender em que circunstâncias poderá a saída do euro vir a tornar-se a única solução aceitável. A primeira condição para qualquer negociação ter êxito é que comecemos por definir que resultado queremos obter e com que apoios poderemos contar para atingi-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem antevermos o que poderá vir a acontecer-nos e sem nos prepararmos para o pior, o mais provável é que, em vez de uma luz, nos espere um outro túnel ao fim deste túnel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 12.10.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-4274752599481625416?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/4274752599481625416/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=4274752599481625416' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4274752599481625416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4274752599481625416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/10/ha-um-tunel-ao-fundo-do-tunel.html' title='Há um túnel ao fundo do túnel'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-5575655955637529698</id><published>2011-09-08T04:30:00.000-07:00</published><updated>2011-09-08T04:30:01.161-07:00</updated><title type='text'>Um dique contra a estupidez</title><content type='html'>Há quem ache boa ideia inscrever na Constituição uma interdição genérica  dos défices orçamentais tendo em vista impedir desvarios governativos. E  que tal aprovar uma lei que obrigue os automobilistas a conduzirem  algemados para prevenir manobras perigosas? Muito estúpido, certo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Taxar  algo ou alguém de estúpido é tido como desagradável, um non sequitur  que bloqueia o debate e desencadeia uma escalada de insultos. As boas  maneiras instituem assim um pudor de nomear a estupidez de que ela se  aproveita para andar por aí à solta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A leitura do debate que, a  propósito da utilidade de se construírem estradas, opõe n' "A Morgadinha  dos Canaviais" o Sr. Joãozinho, o Brasileiro e o Pertunhas sugere-nos  que é muito mais difícil desmontar um argumento estúpido do que  enfrentar um inteligente; logo, a estupidez tenderá a crescer mais  rapidamente do que a nossa capacidade para contê-la. Da primeira vez que  me apercebi disso entrei em pânico. Depois, consolei-me pensando que  não é preciso perder demasiado tempo a discutir argumentos estúpidos  porque as pessoas são intuitivamente capazes de recusá-los. Mas serão  mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema da estupidez tem sido insuficientemente estudado  nas suas causas e consequências. Platão discorreu sabiamente sobre a  Verdade, o Belo, o Bem ou a Razão, mas omitiu a investigação do Estúpido  (os diálogos com Alcibíades, em que o tema é aflorado, são considerado  apócrifos), falha que desde então a filosofia ainda não corrigiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora  tenhamos uma variedade de palavras para designar o estúpido - tolo,  palerma, idiota, imbecil, parvo, pateta, simplório, medíocre, básico -  damos pouca atenção às nuances de significado que implicam. Por exemplo,  palermice é estupidez alardeada como coisa esplendorosa, com  consistência e orgulho; mediocridade é estupidez grave, majestosa, quase  respeitável; já a idiotice implica uma obsessão, uma intenção  estratégica, e, frequentemente, um método. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como Sophia de &lt;a class="enlace_noticia" href="http://topicos.jornaldenegocios.pt/Mello"&gt;Mello&lt;/a&gt;  Breyner observou, a própria inteligência pode ser colocada ao serviço  da estupidez. Pode-se, por isso, fazer dela um modo de vida. Errou pois  Carlo Cipolla na formulação da sua Terceira Lei da Estupidez: a  florescente indústria da estupidez comprova que um estúpido não é  forçosamente alguém que prejudica os outros sem ganhar nada com isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É  útil a distinção que Musil introduziu entre a estupidez honrada ou  genuína e a desonesta ou superior. A estupidez honrada resulta da  limitada capacidade intelectual de quem a produz, e não tem remédio.  Pelo contrário, a estupidez superior comporta uma cegueira interessada e  interesseira. Alardeia saber tudo sobre todas as coisas importantes da  vida, quando de facto as ignora. Não há domínio em que não se infiltre,  nem ideal, por muito nobre, de que não consiga aproveitar-se. Pode  ocasionalmente envergar as vestes da verdade. É uma doença espiritual  que opera com total desrespeito pelos demais, uma pretensão de  superioridade destituída de qualquer fundamento no conhecimento efectivo  daquilo de que se fala. É filha da soberba, um pecado capital hoje  muito tolerado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As grandes tragédias humanas não resultam da  ignorância, da cobiça ou da malvadez, mas da pura e simples estupidez.  Não porque a maioria das pessoas seja estúpida, mas porque em situações  de complexidade extrema nos tornamos vulneráveis à estupidez. Há poucas  coisas mais poderosas que a estupidez que está na moda. A difusão da  estupidez encontra-se aliás tão facilitada pelos meios de comunicação  contemporâneos que ela dá a volta ao mundo enquanto a lucidez acaba de  calçar as botas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flaubert, um persistente estudioso da estupidez  humana, concluíu ao cabo de anos de aturada investigação: "Estupidez,  egoísmo e boa saúde são as três condições da felicidade; se bem que,  faltando a estupidez, tudo estará perdido." Agrada-lhe esse projeto de  vida? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria estúpido buscar uma solução simples, rápida e eficaz  para a estupidez, mas todos podemos exercitar a nossa capacidade de  resistir ao seu contágio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evite dar ouvidos a monomaníacos,  gente de uma só causa e uma só ideia. Mas não desconfie menos daqueles  que estão sempre prontos a discorrer a todo o momento sobre qualquer  assunto, sobretudo se forem vivos de espírito. Duvide de afirmações  taxativas, unilaterais, lapidares. Procure conhecer as opiniões  contrárias, principalmente aquelas de que à partida discorda. Lembre-se  de que, se toda gente concorda com algo, provavelmente tratar-se-á de um  erro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faça de conta que o mundo existe fora das suas opiniões.  Pratique a ironia em relação às suas certezas pessoais. Ensaie  pensamentos desconfortáveis. Duvide. Esqueça. Aprenda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cepticismo,  outrora luxo de filósofos, é agora necessidade que todo o cidadão  precisa de cultivar, sob pena de a estupidez tomar conta do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 7.9.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-5575655955637529698?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/5575655955637529698/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=5575655955637529698' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/5575655955637529698'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/5575655955637529698'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/09/um-dique-contra-estupidez.html' title='Um dique contra a estupidez'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8991728264088255213</id><published>2011-08-13T06:46:00.000-07:00</published><updated>2011-08-13T06:49:50.341-07:00</updated><title type='text'>Bodes expiatórios, óleo de fígado de bacalhau e outras receitas para salvar o País e o mundo</title><content type='html'>&lt;div class="com_shownews_text"&gt;Com  o surgimento das primeiras sociedades agrícolas, os homens passaram a  estar sujeitos aos efeitos de intempéries e pragas que, destruindo as  colheitas, regularmente condenavam muitos à fome e, no limite, à morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém,  cujo nome não ficou registado nos anais, intuiu a dada altura que a  causa de tais desgraças só poderia ser a ira dos deuses, indispostos por  comportamentos impróprios dos mortais. Nada melhor para aplacar-lhes a  má disposição, deduziu, que rituais coletivos de arrependimento  reforçados por sacrifícios atestadores da determinação de não  reincidirem na via do mal. Curiosamente, a maioria das vezes o  expediente até funcionava, visto que, mais tarde ou mais cedo, a  calamidade desaparecia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sacrifícios humanos eram ainda  correntes entre os Maias quando os espanhóis chegaram à América, mas os  arqueólogos descobriram entretanto provas de que arrancar corações a  cativos, degolar heréticos ou enterrar donzelas vivas foram remédios  correntes contra a penúria numa dada fase da história em partes do mundo  tão distantes entre si como a China e a Mesopotâmia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amenizando-se  os costumes, o sacrifício de seres humanos foi progressivamente  substituído, primeiro, pelo de animais, mais tarde, pelo de efígies, por  último, por rituais atenuados de penitência, incluindo peregrinações e  jejuns. O bode expiatório deu lugar a manifestações menos bárbaras,  permanecendo todavia a ideia de que as desgraças são castigo divino e a  culpa deve ser expiada pelo sacrifício de algo valioso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes do  triunfo da medicina científica, a presunção de que só o sofrimento pode  curar dominava também as práticas médicas, desde as sangrias ao óleo de  fígado de bacalhau, inspiradas pelo princípio de que só o que nos faz  sentir mal pode realmente fazer-nos bem. Da saúde do corpo para a do  espírito, a mesma estratégia se impôs até recentemente na educação:  contrariar, submeter, estiolar, esmagar, humilhar, se necessário  agredir, eis os fundamentos que se acreditava deverem orientar a  formação cívica e intelectual do indivíduo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deixa de  impressionar que ainda hoje se fale descontraidamente de "sacrifícios"  para designar os sofrimentos impostos por políticas supostamente  concebidas para combater a crise económico-financeira, numa alusão nada  discreta à origem bárbara de práticas supersticiosas que atribuem  virtudes salvíficas à penitência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Europa e nos EUA tem até  agora prevalecido a opinião de que a presente crise será superada com  austeridade. O fascínio que uma tal ideia exerce sobre os espíritos  (vítimas incluídas) provém, não nos enganemos, do implacável instinto  que nos leva a buscar a causa dos nossos males em pecados ou, pelo  menos, graves falhas éticas individuais ou coletivas que desse modo  recebem justa punição. Segundo tal crença, sendo o consumo o mal e a  poupança o bem, só poderemos transcender a presente situação vivendo  pior, para assim resgatarmos os pecados passados e conquistarmos, pela  sua redenção, o direito a um futuro mais feliz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem crê que a  austeridade pode combater a recessão pensa que a contração dos gastos  públicos será interpretada pelos cidadãos como uma futura redução de  impostos, o que, equivalendo a um aumento do rendimento disponível,  impulsionará a procura e encorajará os investidores. É essa, aliás, a  teoria oficial do &lt;a class="enlace_noticia" href="http://topicos.jornaldenegocios.pt/Banco_Central_Europeu"&gt;Banco Central Europeu&lt;/a&gt;.  Parece lógica. Será verdadeira? Ou seja, confirmará a evidência de que  dispomos a suposta bondade das políticas de austeridade? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucede que o &lt;a class="enlace_noticia" href="http://topicos.jornaldenegocios.pt/FMI"&gt;FMI&lt;/a&gt;  analisou 173 casos de austeridade fiscal ocorridos entre 1978 e 2009 no  seu World Economic Outlook de 2010 e não vislumbrou sombra desse  efeito. Bem pelo contrário, concluiu que o corte de 1% do défice  orçamental em proporção do PIB reduz o produto em dois terços de um  ponto percentual e aumenta o desemprego em um terço de um ponto  percentual. Por outro lado, após estudar vários exemplos de alegada  "austeridade expansionista", Ricardo Perotti sustenta que essa política  só pode ter sucesso em circunstâncias muito distintas das atuais,  designadamente quando não é prosseguida por muitos países ao mesmo  tempo, quando é acompanhada de uma forte desvalorização da moeda e  quando conduz a uma drástica queda da taxa de juro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como temos  podido constatar, o prolongamento da recessão reduz ainda mais a  capacidade de os credores pagarem as suas dívidas, pelo que a  austeridade não só não diminui o desemprego como tampouco contribui para  baixar o endividamento. No plano económico, a obsessão com a redução  dos défices a todo o custo condena-nos à estagnação prolongada; no plano  político, fomenta a busca de bodes expiatórios - sejam eles os  preguiçosos do Sul, os imperialistas alemães, os banqueiros gananciosos,  os bárbaros imigrantes ou os invasores chineses - e favorece o  ressentimento e as correntes de opinião extremistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dramático  agravamento da situação mundial nos últimos dias parece confirmar que  corremos o risco de nos transformarmos em danos colaterais de um culto  primitivo cujo fundamento irracional é disfarçado com muitos cálculos  matemáticos. Decididamente, os deuses não estão do nosso lado. &lt;/div&gt;&lt;div class="com_shownews_text"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="com_shownews_text"&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 10.8.11)&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8991728264088255213?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8991728264088255213/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8991728264088255213' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8991728264088255213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8991728264088255213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/08/bodes-expiatorios-oleo-de-figado-de.html' title='Bodes expiatórios, óleo de fígado de bacalhau e outras receitas para salvar o País e o mundo'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-4553897735298117499</id><published>2011-07-14T09:21:00.001-07:00</published><updated>2011-07-14T09:22:43.747-07:00</updated><title type='text'>Notas do subterrâneo</title><content type='html'>&lt;div class="com_shownews_lead paddingBottom20px"&gt;Quanto vale um euro? Depende de onde esse euro se encontra. Não acreditam? Leiam o resto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;1. Quando, em 2002, as notas de euro  começaram a sair dos nossos ATM, eu não ignorava que a nova moeda era  uma concretização deficiente de uma boa intenção. Confesso, porém, que  não achava o euro uma ideia muito má - apenas um bocadinho má -,  convicto como estava de que, com o tempo, as malformações seriam  corrigidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Também os mercados financeiros acreditaram que,  embora a arquitectura do euro não comportasse mecanismos de apoio às  economias em dificuldades, chegada a hora eles apareceriam por vontade  dos estados membros. Só isso explica, note-se, que a dívida portuguesa  pagasse um juro quase idêntico ao da alemã. A expressão "moeda  fiduciária" significa que a sua aceitação assenta na confiança de que  ela desfruta. Enquanto persistisse a fé no euro, tudo correria  normalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. À chegada da recessão, no final de 2008, a  Alemanha pediu solidariedade no combate à crise. Não estaria certo que  alguns países se furtassem ao esforço colectivo beneficiando do  sacrifício financeiro dos outros. Logo aqui, porém, a Alemanha  pressionou todos os estados membros a introduzirem um subsídio  temporário à aquisição de carros novos. Depois, violou as normas  comunitárias ao conceder apoios directos à sua indústria automóvel.  Finalmente, fez batota ao condicionar essas ajudas à garantia de que os  fabricantes eliminariam postos de trabalho na &lt;a class="enlace_noticia" href="http://topicos.jornaldenegocios.pt/B%C3%A9lgica"&gt;Bélgica&lt;/a&gt;, em &lt;a class="enlace_noticia" href="http://topicos.jornaldenegocios.pt/Inglaterra"&gt;Inglaterra&lt;/a&gt; e em Espanha, mas não na própria Alemanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. A grande viragem veio no princípio de 2010, quando, convicta de que,  para ela, o pior já passara, a Alemanha proclamou o princípio "cada um  por si" e declarou que cada estado deveria tratar de reequilibrar  rapidamente as suas contas públicas sem contar com a ajuda dos  restantes. A solidariedade implícita entre os países da Zona Euro fora  definitivamente revogada e os mercados entenderam o que isso  significava. Os juros das dívidas soberanas dos países mais fragilizados  começaram de imediato a divergir dos da alemã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Considerada  no seu conjunto, a Zona Euro tem uma situação financeira equilibrada,  tanto interna como externamente. Mas isso torna-se irrelevante para os  credores se a coesão deixa de preocupar as autoridades políticas e  monetárias europeias, como é vontade assumida do Partido Popular Europeu  que por agora comanda os destinos do Continente. Foram, pois, Merkel e o  PPE os responsáveis pela quebra da confiança dos mercados financeiros  na unidade da Zona Euro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Esta política é, além do mais, tacanha. Na presente semana, cinco países da Zona Euro, incluindo a Espanha e a &lt;a class="enlace_noticia" href="http://topicos.jornaldenegocios.pt/It%C3%A1lia"&gt;Itália&lt;/a&gt;,  integravam o "top ten" dos países com maior probabilidade de entrarem  em incumprimento, evidenciando o completo fracasso da tentativa de  isolar os países "periféricos" numa leprosaria longe da vista e do  coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. É hoje evidente que o tratamento dispensado aos  pacientes agrava o seu estado de saúde, empurrando-os para a  insolvência. Os sacrifícios que os países assistidos pela UE e pelo &lt;a class="enlace_noticia" href="http://topicos.jornaldenegocios.pt/FMI"&gt;FMI&lt;/a&gt;  são obrigados a infligir aos seus povos não contribuem um iota para  resolver o problema. Esta desoladora circunstância recorda  irresistivelmente o desespero do homem do subterrâneo de Dostoievski: "O  fim dos fins, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a  inércia consciente! Pois bem, viva o subterrâneo! Embora eu tenha dito  realmente que invejo o homem normal até à derradeira gota da minha  bílis, não quero ser ele, nas condições em que o vejo (embora não cesse  de invejá-lo. Não, não, em todo caso, o subterrâneo é mais vantajoso!)  Ali, pelo menos, pode-se... mas estou agora também a mentir. Minto  porque eu próprio sei, como dois e dois, que o melhor não é o  subterrâneo, mas algo diverso, absolutamente diverso, pelo qual anseio,  mas que de modo nenhum hei de encontrar! Para o diabo o subterrâneo!" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. Querem toda a verdade? Cá vai ela, mas não se queixem se doer. É  certo que os países sob ataque não podem permanecer no euro nem podem  sair dele. Aí reside a esperança germânica de que a Zona Euro não se  desmoronará. Mas não é preciso que eles saiam do euro, basta que o euro  saia deles. Um dia, todos entenderão que um euro depositado em Portugal,  em Espanha ou na Itália não vale o mesmo que um euro depositado na  Alemanha ou na Holanda. As multinacionais que ainda não o fizeram, todas  as grandes empresas e os cidadãos titulares de um património  significativo carregarão num botão e, de um dia para o outro, secarão as  tesourarias dos bancos locais. Nesse momento, vários países estarão na  verdade fora da Zona Euro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. Cá no subterrâneo ainda temos  Internet, através da qual ultimamente nos chegaram motivos de regozijo. O  processo de desintegração chegou agora à Itália e à Espanha. Na  ausência de meios financeiros bastantes para socorrê-las, chegámos ao  fim da linha. Ninguém pode pagar tudo o que deve: nem a Grécia, nem nós,  nem ninguém. Resta o plano alternativo há muito congelado pelo receio  de correntes de opinião chauvinistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10. Com atraso  considerável, Merkel reconhecerá por fim que, seja qual for o nome que  queiramos dar-lhes, as euro-obrigações são as melhores amigas do euro e  da Alemanha. Depois, quando se reformar, poderá intitular as suas  memórias: "Frau Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love  the Eurobond".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios &lt;/b&gt;&lt;b&gt;em 13.7.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-4553897735298117499?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/4553897735298117499/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=4553897735298117499' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4553897735298117499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4553897735298117499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/07/notas-do-subterraneo.html' title='Notas do subterrâneo'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8474306049306493108</id><published>2011-06-17T02:24:00.000-07:00</published><updated>2011-07-04T10:17:47.303-07:00</updated><title type='text'>Por que é que os economistas aparentam saber tão pouco sobre a economia?</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tive o choque da minha vida quando, após realizar testes de orientação profissional, me recomendaram que cursasse Economia. Nunca antes me passara pela cabeça estudar o tema porque, muito simplesmente, ignorava o que faziam os economistas. Passados tantos anos, a dúvida sobre o que fazem e para que servem os economistas continua a afligir muita gente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Os Nóbeis atribuídos nos últimos anos comprovam que os economistas investigam assuntos de grande relevância para o entendimento do funcionamento dos mercados, como sejam a psicologia dos consumidores, a informação assimétrica, as falhas de coordenação, os obstáculos à cooperação dentro das empresas ou as condições que favorecem o alargamento das desigualdades.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Todavia, a síntese dessa investigação que é servida aos estudantes e à opinião pública ignora sistematicamente as limitações da racionalidade humana e as falhas dos sistemas económicos que delas decorrem, em favor de uma visão cor-de-rosa do funcionamento dos mercados desregulados. Assim, embora o estudo do comportamento dos agentes económicos  demonstre que os pressupostos da microeconomia estão errados, ela continua a ser ensinada como se nada fosse. A microeconomia – disciplina rainha da síntese neoclássica – adotou, aliás, uma metodologia oposta à da ciência experimental: partindo de um certo número de axiomas, vai por aí fora deduzindo teoremas em catadupa ao jeito de um manual de geometria. Tanto os axiomas como os teoremas são falsos, mas isso não incomoda os guardiões da teoria económica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Na sua ânsia de imitarem a física, não só os economistas académicos procuram uma teoria geral unificada, como, ao invés dela, julgam tê-la descoberto. E é isso que ensinam a gerações de jovens desprevenidos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Os alunos aprendem logo no primeiro ano que a instituição de um salário mínimo  cria desemprego. Mais tarde, ao nível pós-graduado, será confidenciado aos poucos que lá chegarem que, à luz da evidência disponível, essa proposição é tudo menos certa. Nessa fase do processo de doutrinação, porém, eles já estarão pouco disponíveis para questionar os dogmas da profissão. Quanto aos que não atingiram esse patamar, virão cá para fora de boa-fé papaguear a pseudo-ciência que lhes foi ministrada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Os economistas empregam-se sobretudo no estado, nos bancos, na universidade e na televisão. As duas últimas ocupações devem ser consideradas normais, pois alguém deve explicar aos mortais que, por muito mal que as coisas corram, vivemos no melhor dos mundos, apenas perturbado pela inoportuna intervenção de políticos condicionados pelo voto popular. O fascínio dos economistas pelos bancos também não causa estranheza: afinal, como lapidarmente proclamou o assaltante Willie Sutton, “é lá que está o dinheiro”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Já é mais difícil entender-se o que fazem tantos economistas – de facto, a larga maioria deles – a trabalhar no estado, tendo em conta a sua paixão pelo mercado e pelo setor privado e a aversão instintiva que lhes desperta o setor público. Os economistas amam loucamente o mercado livre, a concorrência sem freios, o empreendedorismo audaz e a globalização absoluta – mas só de longe. Dir-se-ia que temem repetir o desapontamento dos Hebreus antigos quando, depois de vaguearem décadas pelo deserto em busca da Terra Prometida, acabaram por descobrir que, afinal, lá não brotavam das pedras o leite e o maná.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Todos estranhariamos que a física e a química se revelasse inútil para os engenheiros ou a biologia para os médicos. Todavia, o presente ensino da economia não melhora em nada – bem pelo contrário – as competências dos gestores. Isso sucede porque o paradigma dominante desincentiva o conhecimento direto da realidade económica. Os neoclássicos apenas cuidam de “factos estilizados”, ou seja, da quantificação daqueles conceitos que mais facilmente se moldam às suas teorias favoritas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Dada tanta ignorância das realidades das economias contemporâneas, não admira que, confrontados com a atual crise de crescimento, os economistas se limitem a propor: “É preciso incrementar o empreendedorismo, é preciso aumentar a produtividade!” Ou seja, devolvem-nos o problema intacto, mas chamam-lhe solução.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não é possível entender-se a economia quando só se entende de economia. Porém, fazendo a síntese neoclássica ponto de honra de isolar a economia das restantes ciências sociais, os estudantes são estimulados a ignorar a história económica e política, a história das doutrinas económicas, a filosofia política, a sociologia e a antropologia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Basicamente, o mundo caminhou desprevenido para a situação em que se encontra porque confiou ingenuamente nas doutrinas económicas dominantes. Por que raio deveria agora acreditar que essas mesmas ideias conseguirão tirá-lo do buraco em que se encontra, quando elas persistem num tão grande desconhecimento das realidades das economias contemporâneas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 15.6.11) &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8474306049306493108?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8474306049306493108/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8474306049306493108' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8474306049306493108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8474306049306493108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/06/por-que-e-que-os-economistas-aparentam.html' title='Por que é que os economistas aparentam saber tão pouco sobre a economia?'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-6683243020328877622</id><published>2011-05-19T03:54:00.001-07:00</published><updated>2011-06-15T02:28:50.219-07:00</updated><title type='text'>A insensata superstição das reformas estruturais</title><content type='html'>Em Janeiro de 1957, uma equipa de técnicos da Companhia Portuguesa de Celulose liderada pelos engenheiros Rolo e Von Haffe descobriu uma forma de produzir pasta de eucalipto branqueada pelo processo kraft.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prazo, esse feito alterou a composição da floresta portuguesa, alicerçou as bases de uma indústria até então periclitante, criou um escol de engenheiros papeleiros e permitiu a rápida expansão das nossas exportações de pasta e papel ao longo de cinco décadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar disso, a mais importante inovação tecnológica do século XX originada em Portugal não só não foi à data noticiada nos jornais como ainda hoje permanece numa relativa obscuridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As transformações mais decisivas são assim. Chegam com pezinhos de lã, resultam de uma multiplicidade de iniciativas descentralizadas de grupos de indivíduos que enfrentam condições adversas, vão contra a sabedoria convencional da época, os especialistas não as prevêem, são objeto de troça generalizada. Apesar disso, desencadeiam uma deslocação de recursos para aplicações mais produtivas - que é, afinal, aquilo em que consistem o aumento da produtividade e o desenvolvimento. Com o tempo, transformam os países e geram crescente bem-estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São episódios deste género - fruto de trabalho, conhecimento e esforço especializados e orientados para a melhoria do desempenho - que dão origem ao desenvolvimento económico e social. Ilustram na perfeição o espírito reformista, que privilegia, na ação empresarial como na governativa, uma mescla de ousadia e ponderação, pequenos passos que se combinam para gerar grandes avanços, progresso metódico, experimentalismo sistemático, risco controlado, avaliação rigorosa dos programas ensaiados, aversão a aventuras dificilmente reversíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, o apelo às reformas estruturais assente na esperança de virar a página transformando tudo de uma penada é o contrário de tudo isto. Sophia de Mello Breyner saudou o 25 de Abril como "o dia inicial inteiro e limpo". Poucas semanas decorridas, já todos sabíamos que, bem longe de podermos começar tudo de novo fazendo "do passado tábua rasa", não só estamos condenados a carregar esse passado às costas como ignorá-lo pode ser muito perigoso. Goste-se ou não, é mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudar muita coisa em pouco tempo tem dois tipos de problemas. O primeiro é que, sendo muito insuficiente o nosso conhecimento sobre o modo como as sociedades funcionam, corremos o risco de provocar inesperadas catástrofes em tudo contrárias ao resultado desejado. O segundo risco, na prática ainda mais relevante, consiste na generalização de confrontos de todos contra todos quando se abre uma guerra simultânea em múltiplas frentes contra adversários entrincheirados e poderosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As reformas estruturais falham, antes de mais, porque facilitam a tarefa aos interesses instalados. Quando se proclama com grandes fanfarras que vão ser postas em marcha, o que de facto se consegue é alertar todos os seus opositores para a urgência de se unirem e organizarem contra elas. A diversidade das abordagens adotadas explica por que é que, depois de alguns ensaios falhados, as reformas na saúde têm entre nós progredido mais que na educação ou na justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fúria reformista é, ao contrário do reformismo discreto e quotidiano, um traço típico dos países subdesenvolvidos, onde volta não volta alguém descobre a pólvora e promete a regeneração nacional ao virar da esquina. É por isso que não há reformas estruturais na Suíça ou nos EUA, mas sim na Argentina, na Turquia ou no Bangladesh. Uma reforma estrutural é uma revolução, e falha exactamente pelas mesmas razões: voluntarismo a mais e consistência a menos. O principal resultado prático é muita agitação e poucas transformações reais. As verdadeiras reformas não se fazem de uma assentada: vão-se fazendo persistentemente, no dia a dia, sem perder de vista o propósito ambicioso que está na sua origem. É isso, aliás, o que a palavra reformismo quer dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Portugal fazem-se reformas estruturais a mais, não a menos. A Constituição está sempre em obras, e não há maneira de lhes vermos o fim. Mal acaba uma revisão constitucional, anuncia-se logo a próxima. Daí para baixo, é todo o edifício jurídico que vive em contínua convulsão, com os resultados conhecidos. Deitar abaixo e fazer de novo pode ser um modo de vida interessante, mas não é certamente o mais eficaz. Os países não mudam assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-se que nas ciências sociais é impossível realizar experiências programadas, mas os portugueses poderão, em breve, desmentir tal alegação, oferecendo-se como cobaias para testar uma avalanche de reformas estruturais cujo estudo fará as delícias da comunidade científica nas décadas vindouras. Se correr mal, paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 18.5.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-6683243020328877622?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/6683243020328877622/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=6683243020328877622' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/6683243020328877622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/6683243020328877622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/05/insensata-supersticao-das-reformas.html' title='A insensata superstição das reformas estruturais'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1749164099686357615</id><published>2011-04-25T14:17:00.000-07:00</published><updated>2011-04-25T14:19:51.961-07:00</updated><title type='text'>Louvor de Paulo Futre</title><content type='html'>As grandes modificações geo-estratégicas do último quarto de século, a começar pela queda da Cortina de Ferro, acentuaram a nossa condição periférica, deixando o sistema produtivo nacional à margem da reorganização das cadeias de produção e distribuição que delas resultou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alargamento do Canal do Panamá, cuja conclusão se prevê para 2014, é, neste domínio, a primeira boa notícia para nós desde há muito tempo. Há três razões para isso: a) uma parte do tráfego marítimo proveniente do Extremo Oriente será desviado da rota de Suez para a do Panamá; b) a Costa Oeste dos EUA ficará muito mais próxima da Europa; c) a ampliação do canal favorecerá a utilização de navios de maior porte. Os nossos portos (e, em particular, o de Sines) sairão favorecidos, face aos mediterrânicos (designadamente, Barcelona e Valência), pela perda de importância de Suez; e, face aos atlânticos, pelas suas condições para receber os grandes navios New Panamax.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que poderemos fazer para tirar o máximo partido das novas circunstâncias, designadamente aproveitando o potencial de Sines, o nosso grande porto natural de águas profundas? A reanimação do Porto de Sines iniciou-se em 2004, quando a parceria com a PSA (Port of Singapore Authority) para a gestão do Terminal de Contentores lançou as bases para o incremento do tráfego com origem no Extremo Oriente. Desde então, os investimentos realizados permitiram um crescimento do volume de mercadorias movimentadas a rondar os 50% ao ano. Mesmo assim, o Estado português atrasou-se imperdoavelmente no cumprimento do compromisso assumido com a PSA de melhorar a ligação ferroviária a Espanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No plano estritamente portuário, estamos, pois, em condições de beneficiar do alargamento do Canal do Panamá, porque há um rumo traçado e porque têm vindo a ser dados os passos certos. Todavia, o grande desafio que se nos coloca é o de aproveitarmos estas mudanças para redinamizar a nossa indústria, integrando-a nas grandes cadeias de aprovisionamento mundiais de que tem estado arredada - ou seja, para assegurar que, em vez de nos mantermos perdidos nos confins da Europa, conseguimos afirmar-nos como plataforma de articulação entre ela e algumas das regiões mais dinâmicas do Mundo, designadamente o Extremo Oriente, a Costa Oeste dos EUA e a América Latina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso implica descobrirmos como as novas condições poderão ajudar ao reposicionamento estratégico da economia portuguesa, reorientando-a para sectores mais qualificados, de maior valor acrescentado e procura mais dinâmica. Uma política industrial pró-activa deverá cuidar de identificar atividades que, correspondendo a esse propósito, poderão beneficiar do rearranjo das cadeias internacionais de aprovisionamento que inevitavelmente resultará do alargamento do Canal do Panamá. Por outras palavras, empenhar-se-á em construir novos factores de competitividade a partir das novas condições e em atrair o investimento necessário para explorá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo Lino Fernandes, Presidente da Agência da Inovação, "a nossa nova posição de charneira entre a Ásia e a UE pode ser aproveitada por modelos de negócio que incorporem peças e componentes importados integrados em produtos e sistemas que beneficiam em serem produzidos perto do mercado de consumo", vantagens que podem resultar "da incidência do volume no custo do transporte", "dos custos de imobilização inerentes à variedade da procura" ou "das exigências de customização dos consumidores finais". Existiria, assim, uma vantagem para localização em Portugal de "indústrias de montagem, em particular desde a sua fase inicial de prototipagem, em processos de desenvolvimento e de teste de mercado". Que se saiba, porém, o Estado português não está a trabalhar para aprofundar o entendimento destas oportunidades e concretizar a aproximação a eventuais parceiros asiáticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem pelo contrário, a única ideia que até hoje veio a público foi a criação de uma zona franca em Sines para atrair investidores, o que equivale ao estabelecimento de um enclave onde os aventureiros do costume acorrerão para beneficiar de mão de obra barata e isenções fiscais com um mínimo de ganho para o país. Se precisamos de atrair investimento estrangeiro em quantidade e qualidade, seria bom que soubessemos o que nos interessa e que procurássemos activamente os parceiros adequados para a concretização dos nossos propósitos, em vez de ficarmos à espera de quem possa aparecer por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo Futre divertiu o país com o seu plano de trazer semanalmente voos charter carregados de chineses para assistirem em Alvalade às proezas do "melhor futebolista" do seu país. A ideia pode ser disparatada, mas a intuição essencial está correta: qualquer projeto económico deve hoje tentar explorar as oportunidades decorrentes do crescente peso da China e de outros países emergentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Futre é um sujeito com poucas letras. Porém, como tem vivido num país onde os media não se limitam a comentar a doença da burra da Ti Jaquina e os casos amorosos do Presidente da Câmara, absorveu noções úteis sobre o mundo em que vivemos. Se lhe perguntassem a opinião, decerto criticaria o facto de o AICEP ter mais delegações em Espanha que na China (já para não falar da Índia) e admirar-se-ia ao saber que o Plano Estratégico Nacional do Turismo persiste em manter como mercados prioritários a Espanha e o Reino Unido, em detrimento do Império do Meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um país cujas classes dirigentes revelam menos visão do mundo que um ex-futebolista tem, claramente, um problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 20.4.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1749164099686357615?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1749164099686357615/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1749164099686357615' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1749164099686357615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1749164099686357615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/04/louvor-de-paulo-futre.html' title='Louvor de Paulo Futre'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1245301636578026409</id><published>2011-03-24T09:35:00.000-07:00</published><updated>2011-03-24T09:35:01.218-07:00</updated><title type='text'>Inteligência, fantasia, empreendedorismo e emprego jovem</title><content type='html'>Paco Underhill ensinava antropologia do espaço numa universidade até ao dia em que, no final de uma conferência, o proprietário de um "shopping" lhe perguntou se as ideias que lhe escutara não poderiam aplicar-se à organização de um centro comercial. Paco nunca antes pensara nisso, mas, desde então, quase não tem tempo para pensar noutra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É absurda a opinião de que os únicos cursos que oferecem boas perspectivas profissionais são os das áreas das ciências e das engenharias. No mundo de hoje necessita-se, mais do que nunca, de gente com qualificações muito variadas, abrangendo saberes de múltiplos domínios que só por ignorância são desprezados, tais como a antropologia, a sociologia, a arqueologia, a filosofia, as artes ou a comunicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O aeroporto de San Francisco é um dentre muitos nos EUA e na Europa que empregam um curador de artes plásticas. A Intel recorre a antropólogos para estudarem o modo como as pessoas se relacionam com os seus computadores. Sabe-se o particular valor estético que o design italiano acrescenta a automóveis, objectos de decoração, vestuário e sapatos. Sem uma comunicação sedutora, marcas como Nike, Red Bull ou Apple não teriam logrado destacar-se no competitivo mundo de hoje. Não se pode ter um turismo de alto valor acrescentado sem programadores culturais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um lado, as nossas economias baseadas na prestação de serviços desmaterializaram-se; por outro, vivemos em sociedades ricas em bens mas carentes de sentido. É por isso que as empresas e as marcas reconhecem a necessidade de investirem no domínio do simbólico e que o mundo empresarial se vê crescentemente envolvido, de forma mais ou menos explícita, na esfera cultural. Enquanto o Ocidente conservar a sua proeminência cultural, a China poderá ser o centro manufactureiro do mundo, mas as suas empresas estarão condenadas ao estatuto acessório da subcontratação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O propósito de um curso superior não é, como tantos crêem, oferecer de bandeja um emprego. É proporcionar aos estudantes uma introdução aprofundada a um conjunto de saberes e, nesse processo, habilitá-los a entenderem e desenvolverem raciocínios complexos. O resultado desejável é a produção de espíritos bem apetrechados, intelectualmente exigentes e inquisitivos. Só depois se coloca a questão de descobrir uma forma de aplicá-los produtivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dois mil anos, saber ler e escrever assegurava a qualquer pessoa um lugar ao sol. Até há escassas décadas, num país algo atrasado como o nosso, um curso superior equivalia a um bilhete de entrada no círculo restrito dos profissionais bem remunerados. Hoje, um grau académico é um passo importante - mas apenas um passo - para a construção de uma carreira bem sucedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compete aos próprios encontrar em seguida formas de tornarem essa qualificação economicamente valiosa para algo e alguém, o que pode passar por frequentarem cursos com uma orientação mais prática ou até por criarem o seu próprio posto trabalho - por exemplo, transformando um hóbi num negócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando à epifânia de Paco Underhill relatada no início deste artigo, cabe perguntar quem foi, neste caso, o verdadeiro inovador: Paco ou o proprietário do "shopping"? O mérito do professor esteve em aceitar o desafio em vez de se encerrar na sua concha de académico. Ainda assim, quem de facto teve a ideia foi o seu interlocutor, o que nos permite chamar a atenção para o papel decisivo que os clientes têm no processo da inovação, um fenómeno que Eric Von Hipel, do MIT, tem vindo a estudar há mais de duas décadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Significa isto que de pouco valerá os nossos jovens qualificados nas mais diversas especialidades terem vontade e capacidade de tornarem socialmente úteis os seus saberes se não encontrarem nas empresas disponibilidade para ao menos escutarem as ideias que eles tiverem para lhes apresentar. Ora, sendo nós um país de gente desconfiada, essa mesquinhez contamina os gestores das empresas e torna muito difícil essa coisa simples que deveria ser conseguir-se uma entrevista para propor algo inovador - excepto, é claro, quando se tem um pai importante ou amigos bem colocados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gestores que reconhecem esta verdade e que se sentem incomodados com ela, poderiam talvez tentar desbloquear esta situação. E, já agora, em vez de ficarem à espera, que tal lançarem anualmente aos jovens profissionais que acabam de chegar ao mercado de trabalho o desafio de aparecerem para explicarem o que acreditam que poderiam fazer para tornar as suas empresas mais fortes e competitivas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Não quero com isto insinuar que o empreendedorismo é a panaceia para o desemprego, uma tolice muito em voga. Porém, enquanto as economias ocidentais permanecerem estagnadas, cada qual terá de cuidar do seu jardim. Bem pior do que estar-se desempregado é não se ter um projecto de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 23.3.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1245301636578026409?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1245301636578026409/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1245301636578026409' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1245301636578026409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1245301636578026409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/03/inteligencia-fantasia-empreendedorismo.html' title='Inteligência, fantasia, empreendedorismo e emprego jovem'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8108125531590597728</id><published>2011-02-24T02:28:00.000-08:00</published><updated>2011-02-24T02:28:11.379-08:00</updated><title type='text'>Haverá futuro para a social-democracia?</title><content type='html'>Haverá futuro para a social-democracia, entendida como uma forma de organização política que atribui ao estado consideráveis responsabilidades na área social? Durante décadas, ela foi tão consensual no Ocidente que a questão nem se colocava; mas, nos últimos tempos, esse estatuto foi algo abalado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-se, por exemplo, que o estado social pressupõe uma carga fiscal incomportável, que a presente debilidade financeira dos estados impõe uma urgente inversão de rumo, que o envelhecimento da população tornou inviável o sistema de pensões, que o apoio aos desempregados prejudica a competitividade, que sairia mais barato transferir para o sector privado a saúde e a educação e que os poderes públicos deveriam concentrar-se nas suas funções essenciais de defesa e segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento económico contra o estado social não é, porém, muito forte. O Sistema Nacional de Saúde britânico surgiu quando o Reino Unido estava arruinado, não numa era de prosperidade – e o mesmo pode ser dito do New Deal americano. Os estados assumiram amplas funções sociais quando o seu rendimento per capita era bem menos de metade do actual, não se entendendo que nações muito mais prósperas não possam assegurá-las. Depois de um período inicial de rápido crescimento, o peso das despesas sociais no produto estabilizou ou reduziu-se mesmo. As soluções para fazer face ao envelhecimento das populações são politicamente difíceis, mas tecnicamente triviais. Por fim, a experiência demonstra que a provisão privada de serviços de saúde, ensino e transportes é, regra geral, mais cara e pior que a pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação que fica do actual debate é que a animosidade contra a social-democracia se estriba menos em argumentos sólidos do que em preconceitos, indiferenças, recriminações e ódios sociais que não ousam dizer o seu nome. Quais serão então os problemas reais que ameaçam a sobrevivência do Estado Social? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro reside na frequente captura dos serviços sociais pelos agentes envolvidos na sua prestação, degradando-os e encarecendo-os. Na prática, é como se as escolas públicas estivessem ao serviço dos professores; os comboios, ao dos maquinistas; e os hospitais, ao do pessoal hospitalar. Naturalmente, isso reduz o apreço do cidadão pelos serviços sociais, ao constatarem que a retórica dos direitos foi apropriada por egoístas corporações profissionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo resulta de uma parte crescente dos beneficiários mais pobres serem estrangeiros ou percebidos como tal - por vezes de outras etnias ou religiões – donde decorre uma menor identificação com os problemas dos destinatários da ajuda, tanto mais suspeitos de parasitismo quanto mais distinta for a sua cultura de origem. Recorrendo à elegante linguagem do Dr. Portas, os “ciganos do Rendimento Mínimo” são olhados como oportunistas que “comem os nossos impostos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em terceiro lugar, vivemos hoje em sociedades tribalizadas e fragmentadas, em que se diluíram sensivelmente não só o sentido de grupo social como mesmo o de nação. Ora a criação de sistemas de solidariedade públicos estribou-se num sentido de identidade partilhada envolvendo cidadãos com cultura e valores comuns, agora postos em causa. As pessoas hoje mobilizam-se para exigir o comboio do Tua, salvar o lince da Malcata ou apoiar uma consumidora maltratada pela Ensitel, mas desvalorizam a importância do voto e desinteressam-se de grandes causas nacionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito mais do que qualquer imaginária crise de sustentabilidade são essas circunstâncias que contribuem para minar o sentimento de solidariedade, encolher a base social de apoio do estado social e questionar a sua legitimidade. No seu último livro (Ill Fares the Land, em português Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos), Tony Judt conclui que só a recordação de como eram cruéis as nossas sociedades antes da emergência da social-democracia permitirá impedir o seu desmantelamento. Mas é provável que uma atitude nostálgica, não enraizada no presente, a faça parecer ainda mais obsoleta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de contemplarmos a social-democracia como um paraíso perdido, talvez devessemos antes adoptar uma postura crítica orientada para a sua reforma. Convém recordar que a estatização da solidariedade, antes a cargo das famílias ou das instituições de socorro mútuo, veio excluír os cidadãos da sua gestão quotidiana e liquidar o instinto de cooperação. A universalidade transformou a proteção social num mecanismo automático de distribuição de benesses cujo funcionamento e custos não são entendidos pelas pessoas comuns. A generosidade foi superada pela reivindicação de direitos abstractos. Ora nada disto é bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande problema do estado social não é talvez a falta de dinheiro, mas a alienação dos cidadãos em relação aos seus propósitos e funcionamento – logo, é por aí que se deverá começar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boa notícia é que as tecnologias digitais disponibilizam-nos hoje instrumentos de cooperação que facilitam o envolvimento dos cidadãos na determinação dos objetivos dos programas sociais, na busca de soluções alternativas, na avaliação e seleção de projectos alternativos ou mesmo na co-criação de serviços de melhor qualidade. No decurso desse processo conseguiremos porventura tornar o estado mais democrático, empenhar os cidadãos na produção cooperativa de serviços públicos e, quem sabe, reinventar a social-democracia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 23.2.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8108125531590597728?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8108125531590597728/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8108125531590597728' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8108125531590597728'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8108125531590597728'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/02/havera-futuro-para-social-democracia.html' title='Haverá futuro para a social-democracia?'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1342238078083808416</id><published>2011-01-28T11:56:00.001-08:00</published><updated>2011-01-28T11:58:13.735-08:00</updated><title type='text'>Prognósticos só no fim do euro, ou: a coruja de Minerva levanta voo ao anoitecer</title><content type='html'>João Pinto, esse grande pensador popular, disse de forma simples ("prognósticos só no fim do jogo"), o mesmo que Hegel só conseguiu exprimir com recurso à mitologia clássica ("a coruja de Minerva levanta voo ao anoitecer"), ou seja: só podemos compreender plenamente o sentido de um processo quando ele se encontra concluído ou próximo da sua conclusão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um quarto de século será talvez tempo suficiente para podermos fazer um balanço da nossa integração na União Europeia, tanto mais que ela está a chegar ao fim de um ciclo. Ser-se o país com mão-de-obra mais barata num clube de países ricos afigurou-se de início uma proposta imbatível, capaz de animar as exportações e de atrair volumosos capitais, com a rápida melhoria da infra-estrutura de transportes e comunicações a potenciar essa vantagem competitiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É hoje evidente que o fogo se extinguiu demasiado cedo, ao cabo de apenas meia dúzia de anos. As expectativas elevadas persistiram durante o que sobrou dos anos 90, impulsionadas pelos fundos comunitários e pelo surto da construção; mas, daí para cá, gripou o motor da aproximação aos países mais avançados da União. O que sucedeu? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem o desmantelamento do império soviético nem a abertura da China ao mundo nos favoreceram. Sem falar da perda de importância geo-estratégia que o fim da guerra fria determinou, o nosso estatuto de pequena potência "low-cost" foi instantaneamente liquidado com a invasão do espaço europeu por concorrentes ainda mais baratos e, no caso da Europa do Leste, industrial e culturalmente melhor apetrechados, humanamente mais qualificados e, "last but not least", um subúrbio geográfico do centro de gravidade económico do Continente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos queixar-nos da impreparação dos nossos empresários, dos nossos trabalhadores e do nosso Estado, mas é difícil imaginar-se como poderiam ter feito melhor, visto que, mal refeitos da primeira fase de integração na União, logo lhes caíram em cima o Mercado Único e a Moeda Única. Os países fundadores tiveram três décadas para se prepararem; nós, escassos anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época, a reflexão pública foi substituída por slogans vazios: "apanhar o comboio da Europa", "acompanhar o pelotão da frente" e acima de tudo, "comportar-se como bom aluno", todos eles úteis para justificar o seguidismo acrítico em relação à política europeia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que, no momento em que delas mais necessitava para fazer face aos novos concorrentes, o país voluntariamente alienou margens de liberdade de política económica conjuntural e prescindiu de políticas de desenvolvimento activas, na crença ingénua de que, assegurado um enquadramento político-financeiro estável, o livre jogo dos mercados obrigaria empresários e trabalhadores a tomarem as decisões mais favoráveis ao futuro da colectividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior, o governo da altura decidiu fixar um valor alto para o escudo na fase preparatória do euro no intuito de fazer cair a inflação, esquecendo que isso acarretaria uma degradação permanente das condições de competitividade. Por sua vez, a brusca e continuada redução da taxa de juro impulsionou, como seria de esperar, o crescente endividamento das famílias, das empresas e do Estado. Para os macroeconomistas que habitam a estratosfera, superar tais "handicaps" é problema nosso, não deles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em resultado, o balanço de vinte e cinco anos de integração europeia é, por muito que nos custe reconhecer, altamente desapontador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admitindo que a Zona Euro não se desagregará, continuaremos a viver no mesmo enquadramento institucional desfavorável em que as taxas de juro e de câmbio serão fixadas em função dos interesses da Alemanha e não nos dos países da periferia. A presente crise internacional teve, entretanto, a vantagem de trazer para a nossa companhia outros países que só agora descobriram que padecem dos mesmos males que nós. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase toda a gente concorda que necessitamos de requalificar os nossos trabalhadores e as nossas empresas para reconquistar competitividade, mas não está claro como isso poderá ser feito nem se disporemos dos recursos financeiros para tal necessários. Embora se reconheça que há uma mutação em curso na economia portuguesa, ela não conta com o apoio de políticas suficientemente vigorosas e coerentes que contribuam para fortalecê-la e acelerá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Necessitamos de romper com a passividade que tão maus resultados deu e de concertar uma estratégia de desenvolvimento apropriada. Porém, a actual tendência na União Europeia é para se reduzir ainda mais a margem de manobra dos estados membros, pelo que isso implica a prévia conquista de espaço, em aliança com os países que partilham os nossos problemas, para aplicar políticas económicas consistentes. As coisas poderão tornar-se muito feias se, para não fazer ondas, abdicarmos de lutar por isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 26.1.11)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1342238078083808416?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1342238078083808416/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1342238078083808416' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1342238078083808416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1342238078083808416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2011/01/prognosticos-so-no-fim-do-euro-ou.html' title='Prognósticos só no fim do euro, ou: a coruja de Minerva levanta voo ao anoitecer'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-3482348882736583124</id><published>2010-12-30T08:46:00.000-08:00</published><updated>2010-12-30T08:46:00.391-08:00</updated><title type='text'>Guerra e paz no Jardim do Éden digital</title><content type='html'>Richard Feynman explicou no longínquo ano de 1959 que, marcando os átomos que cabem na cabeça de um alfinete com “0” e “1”, é possível enfiar nela toda a informação jamais produzida pela humanidade. Na prática, ainda não chegámos lá, mas já se pode transportar os arquivos da CIA no bolso. Não tarda, circularão sob a ponta da unha do meu dedo mindinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há coisa de dois anos, houve enorme alarido em Inglaterra por ter sido encontrado num táxi um CD contendo milhões de registos de contribuintes individuais. Essas coisas acontecem porque é cada vez mais fácil registar, processar, copiar e transferir informação, e impedir isso só é possível proibindo, entre outras coisas, os telemóveis, os cartões de crédito, o RFID, as câmaras de video, os mini-gravadores, os computadores e a internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fenómeno Wikileaks é apenas mais uma consequência das implacáveis leis da economia digital. Tentativas para travar as fugas de informação por meios legais ou tecnológicos são de eficácia muito duvidosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os optimistas vêm nisto a aurora de uma nova era de democracia ilimitada, em que os governantes serão obrigados a prestar contas aos cidadãos eleitores do mínimo passo que derem no exercício dos seus poderes. Más notícias, pois, para os políticos que beneficiam interesses particulares em prejuízo do colectivo e, desde logo, para aqueles que o fazem a troco de subornos. Como pode alguém duvidar da excelência da sociedade transparente, tão óbvios são os seus benefícios?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais devagar, porque a promessa de completa transparência pode não ser destituída de inconvenientes. Desde logo, os factores que ameaçam os segredos do Estado são os mesmos que anulam a privacidade dos indivíduos. Depois, nem todos os segredos são crime, nem toda a revelação é útil, nem toda a verdade é inocente e nem toda a mentira é pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sabemos da nossa vida pessoal, a exigência de total transparência nos relacionamentos não gera mais franqueza, mas mais dissimulação. A reacção dos que mandam perante um risco acrescido de fuga de informação será deixar menos pistas: as pessoas verdadeiramente poderosas não assinam nada, mandam os outros assinar. Mas essa defesa em última análise não as protegerá, porque, no mundo digital, tudo o que se faz ou diz deixa uma marca. Estamos perante uma escalada: mais revelação provoca mais esforço para camuflar, o que por sua vez induz o recurso a técnicas mais sofisticadas de vigilância, e assim sucessivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada grande avanço das tecnologias da comunicação desencadeou no passado transformações e conflitos em larga escala. A invenção de Gutenberg deu um extraordinário impulso à divulgação do conhecimento, mas o acesso ao que a Bíblia verdadeiramente dizia contribuíu para duzentos anos de guerras religiosas. As gazetas favoreceram a liberdade de expressão e assentaram as bases da democracia moderna, mas alimentaram o fogo das grandes revoluções populares. A rádiodifusão fez chegar a cultura às grandes massas iletradas, mas foi um instrumento privilegiado de propaganda totalitária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história sugere, pois, que, quando a informação é libertada, segue-se a disputa pelo seu controlo. A questão importante é o que se consegue fazer com essa informação e, desde logo, quem está em condições de fazer algo com ela. Quando se diz que vivemos na era da informação, isso significa antes de tudo que há informação a mais e capacidade a menos para interpretá-la e dotá-la de sentido. Nas palavras de T.S. Eliott: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreender uma determinada informação exige tempo, esforço e capacidade interpretativa, condições que por definição não existem quando constantemente somos bombardeados por alegados factos, dados e números. A má política como o mau jornalismo caracterizam-se hoje acima de tudo pela capacidade de nos confundir a capacidade de julgamento com meias-verdades descontextualizadas que desavergonhadamente exploram as limitações cognitivas do cidadão – não apenas as do ingénuo e iletrado, mas até as do mais culto e perspicaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos assim alimentados quotidianamente por pedaços de informação avulsos, quantas vezes enquadrados em narrativas capciosas, interesseiras ou meramente imbecis. E pouco interessa que mais tarde eles sejam desmentidos, porque, como a sabedoria popular ensina e a neurociência demonstra, as primeiras impressões são as que perduram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos assim à constatação de que só a intermediação competente e responsável da imprensa nos permitirá tanto extrair o que há de bom como conjurar o que se afigura ameaçador neste universal desvendamento de todos os segredos, sejam eles públicos ou privados. Infelizmente, a digitalização da informação que impulsiona a transparência ameaça em simultâneo a sobrevivência dos jornais e revistas, que são precisamente os media mais susceptíveis de promoverem a reflexão sobre a informação revelada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não devemos esperar que a disponibilização instantânea de um repositório de informação praticamente infinito sobre tudo o que sucede nos ofereça o Paraíso na terra. Quando o acesso à informação em bruto se torna ilimitado, a batalha pelo controlo das mentes faz-se menos pela gestão dos segredos do que pelos processos de filtragem que condicionam o modo como a realidade é entendida. É aqui, portanto, que cabe focalizar as nossas atenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 29.12.10.)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-3482348882736583124?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/3482348882736583124/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=3482348882736583124' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3482348882736583124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3482348882736583124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/12/guerra-e-paz-no-jardim-do-eden-digital.html' title='Guerra e paz no Jardim do Éden digital'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-968679670802775743</id><published>2010-11-17T07:35:00.000-08:00</published><updated>2011-06-21T07:39:08.209-07:00</updated><title type='text'>Trampolinice epidémica: prevenção, detecção e cura</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Os portugueses tendem a ser solícitos e carinhosos com familiares e amigos, porém suspeitosos ou mesmo hostis perante estranhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Este facto de observação quotidiana é confirmado por estudos comparativos periodicamente conduzidos pela OCDE: não só a confiança interpessoal é muito baixa em Portugal, como tem vindo a deteriorar-se mais rapidamente do que nos outros países nas décadas recentes. Falo, note-se bem, da confiança das pessoas umas nas outras, não nas instituições políticas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Além de contribuir negativamente para a felicidade de cada qual, a desconfiança torna as pessoas mais propensas a infringirem as normas de civilidade com o argumento de que os outros também o fazem: “por que hei-de ser sério se andam todos a roubar?” A desconfiança estimula a prevaricação, que por sua vez justifica mais desconfiança, alimentando um círculo vicioso que nos amargura a existência e aprisiona no mundo mesquinho do ressentimento e da vingança.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Uma sociedade assim tende a organizar-se em bandos que entre si disputam negócios e cargos políticos. A vantagem comparativa deles resulta de conseguirem impor dentro de si normas capazes de assegurarem a confiança mútua de que a sociedade em geral carece. Não admira, pois, que, ainda segundo a OCDE, a desconfiança interpessoal ande frequentemente associada a altos níveis de corrupção.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Vemos assim todos os dias crescer o cancro da suspeição, numa guerra de todos contra todos que envolve até as mais altas esferas do Estado. Em situações de emergência colectiva como a actual revela-se em todo o seu esplendor a carência de propósitos partilhados nacionais, submergidos como o são pela multiplicidade de tresloucadas reivindicações particulares, cada um das quais se vale de todas as armas ao seu alcance para prevalecer sobre as restantes. Mais depressa os portugueses se agarram uns aos outros para que ninguém deixe de afogar-se do que se unem para fazer face aos ataques externos de que são alvo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;A falta de confiança nos outros prejudica, além disso, a eficiência económica, na medida em que, agravando a percepção do risco e da incerteza, aumenta os custos associados às transacções comerciais e desincentiva a cooperação entre indivíduos e empresas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;O Dilema do Prisioneiro sugere que, na ausência de elevados níveis de confiança, as decisões baseadas no interesse próprio podem produzir resultados desastrosos para o conjunto da comunidade. Nessas circunstâncias, quando dois indivíduos têm que decidir independentemente entre a cooperação e a agressão, uma lógica implacável impele-os para a segunda alternativa e a trampolinice triunfa.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Mas os estudiosos da Teoria dos Jogos descobriram que, dadas certas condições, há uma solução cooperativa para o Dilema do Prisioneiro quando ele é jogado repetidamente. Segundo Robert Axelrod, a melhor estratégia é retaliar prontamente os comportamentos anti-sociais, esquecendo porém as ofensas recebidas no passado. Por outras palavras, consiste em cooperar sem ser parvo. Porém, para que seja viável penalizar as violações da confiança, é preciso que as pessoas se encontrem frequentemente, que os seus comportamentos possam ser facilmente observados e que os castigos sejam suficientemente dissuassores. Eis porque tendemos a comportar-nos melhor no círculo dos nossos familiares e amigos e pior quando nos encontramos com estranhos em situações ocasionais.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Que podemos então fazer para dissuadir as coligações de trampolineiros e fomentar a cooperação benéfica? Primeiro, não dar tréguas às associações de malfeitores que o Estado português presentemente tolera (quando não protege ou subsidia). Segundo, fomentar a auto-organização dos cidadãos a todos os níveis.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Quanto mais vasto o raio dos nossos relacionamentos regulares, mais longe chegará a confiança. Sabemos que nas sociedades tradicionais os estranhos tendem a ser olhados com grande desconfiança. Ao invés, a sociedade moderna, ao ampliar os horizontes dos indivíduos, simultaneamente propicia e exige o alargamento da confiança para além do estreito círculo da família e dos vizinhos, abrangendo outras regiões, etnias, nacionalidades e culturas.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Mas a confiança só pode subsistir se for preservado o sentido de comunidade, assente já não em valores paroquiais de base geográfica ou genética, mas em afinidades de estilos de vida e propósitos partilhados. O individualismo, as desigualdades e o desenraizamento social não favorecem a confiança entre as pessoas, por isso ela depende também do modo como as organizações privadas e públicas, formais e informais, espontâneas ou planeadas, estimulam ou dissuadem o relacionamento entre os cidadãos, o que nos ajuda a entender o papel corrosivo que a precariedade das relações humanas tem sobre uma convivência saudável e produtiva.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Paroquialismo e precariedade prejudicam a confiança. Abertura de espírito e associação livre e duradoura tendem a estimulá-la.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 17 de Novembro de 2010)&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-968679670802775743?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/968679670802775743/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=968679670802775743' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/968679670802775743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/968679670802775743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/11/trampolinice-epidemica-prevencao.html' title='Trampolinice epidémica: prevenção, detecção e cura'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-7870917194632323596</id><published>2010-10-21T09:27:00.000-07:00</published><updated>2010-10-21T09:27:00.672-07:00</updated><title type='text'>A reforma final: para acabar de vez com a falácia da soberania popular</title><content type='html'>A democracia é a suprema superstição contemporânea. Ou foi: já ninguém acredita nela, embora muitos continuem a fingir que sim.&lt;br /&gt;As campanhas eleitorais suscitam no povo fastio ou bocejo, de que se vinga refugiando-se nas praias ou nos shoppings no dia do fatídico dever cívico. Quando, como no Brasil, é obrigatório votar, põe a cruzinha no maior palhaço que se submeter ao sufrágio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como bem sabemos, a democracia é, além do mais, prejudicial à boa condução dos negócios públicos. Os países têm dificuldade em adoptar políticas económicas racionais, porque os políticos cedem continuamente às pressões das massas para aumentarem a despesa pública e baixarem os impostos. Já Aristóteles nos ensinou que a democracia conduz infalivelmente ao triunfo do populismo e da demagogia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer pessoa racional e bem informada tem, por isso, que concordar: a democracia é um obstáculo ao bem-estar e à felicidade colectiva, e persistir nessa teimosia obsoleta conduz-nos ao abismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucede, porém, que a suspensão da democracia país a país defrontar-se-ia com resistências - algumas sentimentais, outras reflexo dos interesses instalados. Veja-se o que sucedeu quando, há pouco tempo, uma voz esclarecida timidamente alvitrou "a suspensão da democracia por 6 meses". Os media - apesar de acreditarem tão pouco na democracia como eu ou o leitor - encabeçaram a algazarra por uma razão que todos entendemos: a chinfrineira ajuda a vender jornais e a assegurar audiências, estando o povo como está viciado em grosseiras picardias. Abolir a democracia, mesmo temporariamente, dar-lhes-ia cabo do negócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, há uma solução melhor, que está a ser paciente e meticulosamente aplicada. A parte mais difícil foi convencer os países a aderirem à Zona Euro. "Ipso facto", eles cederam voluntariamente ao Banco Central Europeu a sua soberania em matéria de política monetária e cambial. Anexado ao Euro veio o PEC, invocando com indiscutível razoabilidade a necessidade de proteger a zona monetária do comportamento fiscal eventualmente irresponsável dos seus membros. Resultou daí uma limitação adicional da política económica, esta ao nível orçamental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Banco Central Europeu é uma instituição "sui generis": muito mais independente em relação aos poderes políticos do que qualquer banco central; menos transparente nas suas decisões; e, por último, estatutariamente vinculado a preocupar-se apenas com a inflação e não com o desemprego ou o crescimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tem a Zona Euro funcionado? As discrepâncias de níveis de desenvolvimento e os choques externos assimétricos conduziram a desequilíbrios persistentes dos saldos orçamentais, dos saldos comerciais, dos custos salariais e das taxas de inflação entre os países-membros. A crise financeira mundial com início em 2007 transformou-se em 2008 numa profunda recessão que, ao degradar as receitas dos impostos e impulsionar as despesas com medidas anticrise, fez disparar, primeiro, os défices públicos e, depois, os níveis de endividamento em toda a União.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis, pois, a janela de oportunidade que qualquer cidadão europeu consciente e responsável aguardava. Liquidada a réstia de margem de actuação que sobrava aos estados nacionais europeus, todo o poder efectivo de governação económica está hoje de facto concentrado no BCE e em instituições europeias não responsáveis perante o voto popular como a Presidência Europeia, a Comissão Europeia e o Ecofin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveitando o estado de debilidade das finanças públicas dos países-membros (principalmente os da periferia económica), trata-se agora de incumbir a Comissão de realizar avaliações regulares da situação e de criar um mecanismo eficiente de governação. Accionado um alerta, a Comissão emitirá recomendações sobre a forma de corrigir os desequilíbrios. Em casos considerados graves, a Comissão poderá declarar o país-membro em "situação de desequilíbrio excessivo", determinando "medidas correctivas" propostas por um "painel de peritos" com "um profundo conhecimento técnico sobre a realidade económica do país". Quem não cumprir à risca essas medidas estará sujeito a penalizações, indo até à perda do direito de voto nas instituições comunitárias. Por uma feliz coincidência, a larga maioria dos actuais governos da Europa apoia esta transformação. É claro que amanhã poderão ser derrubados e substituídos por outros, mas então, com o Tratado da União alterado, será já tarde para voltar atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprovado o novo regime de governação económica da UE, os contestatários poderão espernear, manifestar-se, promover motins; decretar greve geral por 6 meses; ou trocar de governo dia sim, dia não, que isso em nada modificará as circunstâncias. Zapatero mostrou perceber a que níveis de impotência estão desde já reduzidos os governos nacionais quando declarou o seu apoio à greve geral que teve lugar em Espanha. Quem ainda não tiver entendido só tem que olhar para a Islândia e para os países bálticos para saber o que no futuro espera os descontentes: ou se submetem ou são despromovidos a sem-abrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confio que, enfim governados por sábios insensíveis aos clamores da rua, nos aguarda um futuro risonho. O mundo é hoje demasiado complexo para admitirmos que as sociedades estejam dependentes dos caprichos de eleitorados ignorantes em grande medida parasitas do Estado Social. Talvez não haja emprego para todos, mas a verdade é que nem todos querem trabalhar. Talvez alguns se escandalizem com as desigualdades económicas, mas é preciso premiar o mérito. Os que estão a mais, tarde ou cedo serão forçados a aceitar que, como lapidarmente proclamou o Reverendo Malthus: "Não há lugar para eles no banquete da Natureza."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no &lt;a href="http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&amp;id=449673"&gt;Jornal de Negócios&lt;/a&gt; em 20.10.10)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-7870917194632323596?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/7870917194632323596/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=7870917194632323596' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/7870917194632323596'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/7870917194632323596'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/10/reforma-final-para-acabar-de-vez-com.html' title='A reforma final: para acabar de vez com a falácia da soberania popular'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-2865452405307283303</id><published>2010-09-22T11:08:00.000-07:00</published><updated>2010-09-22T11:08:08.367-07:00</updated><title type='text'>Para que serve afinal a educação?</title><content type='html'>Pois não é estranho? Como é possível, num país onde há tantas opiniões como cabeças, toda a gente concordar com a importância da educação para o desenvolvimento e com o seu papel insubstituível para assegurar a competitividade da economia? É caso para desconfiarmos da bondade da tese, visto a superstição ter usualmente mais adeptos que a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não resta qualquer dúvida de que a educação aumenta as hipóteses de sucesso profissional dos indivíduos: quanto maior o nível de escolaridade, melhor o vencimento e menor o risco de cair no desemprego. Portugal é, de resto, um dos países onde esse efeito é mais acentuado, como ainda há dias foi revelado por um estudo da OCDE. Ao nível microeconómico são pois evidentes os benefícios da educação, justificando-se que o Estado invista na sua generalização para fomentar a igualdade de oportunidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreendentemente, porém, não é claro que, ao nível global da economia, mais educação cause mais crescimento. É sabido que existe uma elevada correlação entre o produto per capita de um país e a qualificação escolar da sua população. Correlação, todavia, não equivale a causalidade. É a educação que determina a riqueza de uma sociedade, ou, ao invés, é essa riqueza que estimula a busca de mais educação? O menos que se pode dizer é que, ao cabo de décadas de investigação aturada, a evidência econométrica do impacto da educação sobre o crescimento é algo trémula, e tanto menos convincente quanto mais avançamos para níveis superiores de escolaridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será então a educação um luxo, um bem como qualquer outro sem particular relevância para o desenvolvimento das nações? A ser assim, o consumo de educação não seria mais nem menos decisivo para o desenvolvimento do que a fruição da poesia, do cinema, das viagens ou do futebol. Mas, nesse caso, por que haverá o Estado de canalizar ano após ano recursos colossais para financiar um sistema educativo universal e gratuito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A isto, pode opor-se duas objecções. A primeira é que, como afirma Amartya Sen, a educação e outros bens similares (tais como a liberdade individual e social, a saúde ou a segurança pessoal) são o próprio propósito do desenvolvimento antes de serem um instrumento de desenvolvimento. A educação vale por si própria, sem necessitar de justificações adicionais para comprovar a sua bondade. Não é desejável porque causa crescimento, mas porque tem um impacto directo sobre o bem-estar, na medida em que habilita os seus destinatários a fruirem plenamente da sua condição de cidadãos de sociedade civilizadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda objecção é que a ausência de evidência empírica associando categoricamente a educação ao desenvolvimento pode dever-se a limitações das ferramentas de análise e não à inexistência de um nexo causal. Os economistas acreditam que o verdadeiramente importante é o “capital humano” acumulado por uma determinada sociedade, não o investimento em equipamentos e pessoal docente, o qual pode ser pouco eficiente ou mal orientado. Mas não é fácil medir com precisão esse capital humano. Dificuldades ainda maiores resultam de o impacto da educação sobre o crescimento ser lento (uma geração demora décadas a formar) e ínvio (múltiplas variáveis inter-relacionadas intervêm para tornar um país mais próspero).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reconheçamos que os níveis de escolaridade podem não ser muito importantes para o desempenho de certas tarefas que apenas exigem uma qualificação especializada, tais como cozer à máquina peças de vestuário. Mas a sua ausência pode obstaculizar a aquisição de novas capacidades quando as antigas se tornam obsoletas. Isto é verdade ao nível pessoal como ao colectivo, visto que educação gera versatilidade nos indivíduos, nas empresas e nas economias; e que  versatilidade favorece por sua vez predisposição para inovar ao mesmo tempo que esconjura o receio da mudança e do futuro. Por outras palavras, a educação favorece a adopção de novas tecnologias – algo que sabemos pelo menos desde Adam Smith.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira conclusão de tudo isto é obviamente que a análise econométrica não tem as respostas todas (nem talvez venha jamais a tê-las), pelo que outros métodos de investigação podem revelar-se mais profícuos. A segunda, que continuamos a saber pouco sobre a mecânica do desenvolvimento, sobre o modo como múltiplas variáveis interagem para gerá-lo e, em particular, sobre o papel desempenhado por causas extra-económicas como a educação. A terceira, que devemos recusar os argumentos falaciosos que só aceitam como bom aquilo que comprovadamente contribua para o crescimento do produto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A liberdade, a educação, a igualdade de oportunidades, a justiça ou a saúde são desejáveis independentemente da contribuição que possam dar para potenciar o crescimento. O facto de eventualmente acabarem por dá-la deve ser considerado como um bónus suplementar, não como fundamento e condição &lt;i&gt;sine qua non&lt;/i&gt; da sua valoração positiva, pois é o crescimento que deve estar ao serviço delas e não o contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 22.9.10)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-2865452405307283303?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/2865452405307283303/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=2865452405307283303' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/2865452405307283303'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/2865452405307283303'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/09/para-que-serve-afinal-educacao.html' title='Para que serve afinal a educação?'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-561122635706686606</id><published>2010-08-25T10:07:00.000-07:00</published><updated>2010-08-25T10:08:07.990-07:00</updated><title type='text'>Pensando o impensável: e se o crescimento tivesse chegado ao fim?</title><content type='html'>Fomos educados na convicção de que o crescimento é um facto da vida tão natural como o ar que respiramos. Perguntamo-nos quanto irá a economia crescer, não se ela irá crescer, porque, tirando alguns episódios passageiros, isso nos parece fatal como o destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre foi assim. Há apenas 200 anos, Malthus contestava a possibilidade da melhoria continuada das condições de vida com base na sua famigerada lei da população segundo a qual a produção de subsistências aumenta em proporção aritmética, ao passo que o número de bocas a alimentar progride geometricamente. A cada breve surto de prosperidade seguir-se-iam fomes e epidemias que assegurariam o retorno à situação de partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malthus tornou-se motivo de chacota, mas convém recordar que o seu modelo corresponde muito razoavelmente às condições que prevaleceram até ao século XVIII. Foi precisamente na sua época que as condições tecnológicas se alteraram o suficiente para que o crescimento contínuo e sustentado se tornasse possível. Por outras palavras, o maltusianismo explicou bem o passado, mas falhou na predição do futuro, dado que a revolução agrícola dos últimos séculos se revelou suficientemente poderosa para sustentar um crescimento da população sem paralelo na história da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resistiu todavia entre os economistas a convicção de que o aumento da riqueza se defrontaria mais tarde ou mais cedo com limites naturais ou sociais. Ricardo acreditava que o estado estacionário chegaria quando o lucro fosse esmagado pela renda da terra, factor de produção escasso por natureza. Marx concordou, mas pensava que a alteração do regime de propriedade resolveria o problema. Mill acreditava que apenas a exportação de capitais para as regiões mais atrasadas do planeta atrasaria por algum tempo o momento fatal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como Mill, também Keynes antecipava sem ansiedade particular o advento do estado estacionário, antes encarava com optimismo os muitos benefícios que ele traria. “O melhor estado para a natureza humana”, escreveu Mill, “é aquele em que, não havendo pobres, ninguém deseja ser mais rico ou tem razões para temer ser deixado para trás pelos esforços de outros que procuram passar-lhe à frente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema ausentou-se durante largas décadas das cogitações dos economistas, para reemergir após o primeiro choque petrolífero. Hoje, às tradicionais preocupações com a explosão demográfica e a pressão sobre os recursos naturais (principalmente os não renováveis) acrescentaram-se os riscos decorrentes da rapidíssima extinção de espécies vegetais e animais e do aquecimento do planeta. Na sua maioria, porém, os economistas tendem a acreditar que a tecnologia resolverá o problema, ou seja que os ganhos de eficiência no aproveitamento dos recursos serão suficientemente rápidos para impedir o seu esgotamento e travar a destruição do nosso eco-sistema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inversamente, alguns autores julgam detectar sintomas de que entrámos já na era da estagnação económica persistente. Porém, mesmo que assim fosse, passaria muito tempo até podermos estar certos disso. Alguns países e algumas actividades cresceriam por algum tempo mais que outros, sugerindo que talvez esses exemplos pudessem ser imitados. O primeiro sinal seguro seria a multiplicação de conflitos violentos pelo controlo dos recursos, a começar pela água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora seja cedo para se tirar uma conclusão, podemos especular sobre as consequências do estado estacionário para as nossas sociedades se e quando ele vier. Na visão optimista partilhada por Mill e Keynes, a estagnação equivaleria à admissão de que o problema económico se encontraria resolvido, propiciando a reorientação dos esforços colectivos para o desenvolvimento cultural, moral e social da humanidade. Idealmente, teriamos sociedades tão prósperas como hoje, mas incomparavelmente mais estáveis, mais cultas, mais igualitárias e menos agressivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas seria possível garantir elevados níveis de emprego sem crescimento? Ausente a meta do crescimento a todo o custo, tornar-nos-iamos decerto menos tolerantes para com as desigualdades que alegadamente são o seu preço. A competição perderia parte dos seus atractivos. As políticas distributivas tornar-se-iam mais populares (talvez demasiado), visto que a economia tenderia a ser encarada como um jogo de soma zero. Tenderia a questionar-se a liberdade de concorrência, a começar pela internacional. É de temer que menos crescimento implicasse também menor fermento cultural e menor abertura de espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acresce que o actual estado de desenvolvimento não é suficiente para que a distribuição equitativa dos recursos proporcione um nível de vida aceitável à população do planeta que permanece na pobreza extrema. Por isso, mesmo na hipótese pouco provável de que os países desenvolvidos se resignassem ao seu grau presente de bem-estar, é óbvio que nem chineses, nem indianos, nem (por maioria de razões) africanos aceitariam deixar de crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com tantas dúvidas e perplexidades, uma coisa é certa: uma sociedade de crescimento zero seria muito diferente da actual, e a transição para ela, ao frustrar expectativas acumuladas ao longo de gerações, dificilmente se faria de forma pacífica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Artigo publicado no Jornal de Negócios de 25.8.10)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-561122635706686606?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/561122635706686606/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=561122635706686606' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/561122635706686606'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/561122635706686606'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/08/pensando-o-impensavel-e-se-o.html' title='Pensando o impensável: e se o crescimento tivesse chegado ao fim?'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-6577768509501310999</id><published>2010-07-29T03:25:00.000-07:00</published><updated>2010-07-29T04:19:35.249-07:00</updated><title type='text'>Acaso, mérito e superstição</title><content type='html'>A probabilidade de o famoso polvo Paul ter acertado nos resultados de sete jogos consecutivos do Mundial (admitindo que a sua escolha foi aleatória e que não houve batota) era de apenas 0,8%. Por conseguinte, não parece muito razoável atribuir-se apenas à sorte a sua eficácia preditiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a questão está mal posta. Deveríamos antes inquirir qual era a probabilidade de que algum dos centos de esquemas disparatados montados em todo o mundo para prever os resultados - mas de que, por terem falhado, não chegámos sequer a ter conhecimento - acertasse em cheio. Ora, estamos em condições de afirmar que uma oficina de cem polvos trabalhando afincadamente no problema teria uma probabilidade superior a 50% de garantir que um deles adivinhasse a sequência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cálculo das probabilidades sugere que não precisamos de recorrer a hipóteses transcendentes para explicar o desempenho do polvo Paul. Ele só parece extraordinário porque, devido ao modo como as notícias são difundidas, não tomámos conhecimento de todas as outras tentativas que falharam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se de apenas mais um exemplo da falácia da evidência oculta, muito comum quando se recorre a um milagre para racionalizar qualquer tipo de superstição. Conta Cícero que, quando mostraram a Diágoras ex-votos de navegantes salvos do naufrágio por terem invocado os deuses, ele perguntou: "E onde estão as imagens dos que morreram afogados apesar de implorarem o auxílio dos deuses?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visto por outro prisma, o caso do polvo Paul pode insinuar no nosso espírito uma dúvida angustiante: como poderemos saber se o êxito desta ou daquela pessoa neste ou naquele empreendimento se deveu ao mérito, e não ao puro acaso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande físico Enrico Fermi perguntou certa vez ao general Groves como definiria ele um grande general. Groves respondeu-lhe que classificaria como um grande general aquele que conseguisse triunfar em cinco batalhas consecutivas. Fermi perguntou-lhe depois qual seria, em sua opinião, a proporção de grandes generais. Groves respondeu: três em cada cem. Ora, se a vitória numa batalha depender de factores puramente aleatórios, a probabilidade de vencer uma batalha é de 1/2 e a de vencer cinco consecutivas é de 1/32. "Tem razão, general - disse-lhe Fermi -, são três em cada 100. Mas a explicação está na probabilidade matemática, não no génio militar."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se onde está "generais" pusermos "CEO" e onde está "vitória em cinco batalhas consecutivas" lermos "resultados positivos em cinco anos fiscais seguidos", haverá motivo para temer que por vezes nos precipitemos ao explicar o bom desempenho de uma empresa pela excelência da sua gestão. Talvez o mérito do idolatrado CEO consista apenas em estar no lugar certo no momento certo, beneficiando de uma conjugação prolongada de circunstâncias particularmente favorável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sucesso de Paul no Mundial de 2010 não é garantia de presciência futura. A bem da preservação da lenda, os donos tiveram, por isso, a sensatez de resguardá-lo de ulteriores fracassos, reformando-o compulsivamente. Já na vida empresarial parece raro tal bom senso: não só o sucesso ocasional é com demasiada frequência tomado como indisputável sinónimo de mérito, como ainda o polvo do momento, para além de ser premiado com um bónus estratosférico, ainda por cima nos inflige longas e insípidas entrevistas onde nos confidencia os segredos do seu êxito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os atenienses da Grécia Antiga tiravam à sorte os membros da sua assembleia, e, porventura iludidos pelas astúcias da aleatoriedade, não se deram mal com o sistema. É possível que, demasiadas vezes, façamos o mesmo com os nossos líderes empresariais, embora não estejamos disso conscientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada disto prova que a identificação do mérito autêntico é impossível; apenas que, em virtude da perturbação introduzida por factores fortuitos, ela é tremendamente mais difícil do que tendemos a supor. O real valor de algo ou alguém não pode ser avaliado de longe, antes exige um escrutínio rigoroso que envolva a compreensão das circunstâncias particulares e das relações de causa e efeito intervenientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz algum sentido acreditar-se que a concorrência selecciona automaticamente as melhores ideias, os melhores indivíduos e as melhores práticas; infelizmente, ela pode tardar a produzir esse resultado. De modo que, enquanto aguardamos que as coisas se clarifiquem, sempre teremos que conviver com malformações de todo o tipo: ideias estúpidas, falsos milagres económicos, pseudo-génios, fraudes plausíveis, incompetentes felizardos, escolhas que ameaçam a ecologia do planeta, modos de vida que minam a responsabilidade colectiva, e por aí fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num mundo crescentemente complexo, o ruído confunde-se com a informação genuína e nós somos constantemente enganados pelo acaso mascarado de necessidade. Nunca terá sido tão necessário o exercício da capacidade crítica para nos protegermos das superstições contemporâneas que nos assaltam a cada esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Artigo publicado no &lt;a href="http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&amp;id=437023"&gt;Jornal de Negócios&lt;/a&gt; de 28.7.10)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-6577768509501310999?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/6577768509501310999/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=6577768509501310999' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/6577768509501310999'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/6577768509501310999'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/07/acaso-merito-e-supersticao.html' title='Acaso, mérito e superstição'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8376490328093859151</id><published>2010-07-01T10:15:00.000-07:00</published><updated>2010-07-01T10:18:23.560-07:00</updated><title type='text'>O método Tom Sawyer da produtividade nos serviços</title><content type='html'>Em qualquer sistema de self-service, incluindo os super ou hipermercados, o cliente faz uma parte do serviço outrora a cargo de empregados contratados. Noutros tempos, ele dirigia-se a um balcão, pedia o que desejava e recebia as  compras já embaladas e prontas a transportar. A retirada do balcão permitiu ou obrigou o cliente a ir directamente buscar o que pretendia. Nas estações de serviço não havia sequer balcão, de modo que parece-nos hoje absolutamente natural que cada qual trate de encher o depósito, verificar a pressão dos pneus e limpar os vidros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os estabelecimentos de fast-food conseguem economias significativas de mão-de-obra eliminando o serviço de mesa. Quando optamos pelo take away, ajudamo-los a pouparem no espaço do estabelecimento. Pessoas usualmente esquisitas aceitam mesmo levantar a mesa no McDonald's sem qualquer contrapartida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as empresas compreenderam que os consumidores concordavam sem demasiada resistência desempenhar certos trabalhos a troco de conveniência, rapidez e economia, o sistema self-service generalizou-se progressivamente no sector dos serviços. Ao levantarmos dinheiro ou fazermos pagamentos no ATM, contribuímos graciosamente para a maior eficiência dos bancos. O mesmo se passa quando aderimos ao home banking. Trocando os extractos em papel pelos digitais, o banco deixa de ter que imprimi-los e enviá-los pelo correio, ficando a nosso cargo procurar a informação com o nosso computador e recorrendo a telecomunicações pagas com o nosso dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A IKEA vende mobiliário barato porque a montagem final corre por nossa conta. A economia conseguida corresponde euro por euro às horas de trabalho não contabilizadas que dispendemos no processo. Parte da fábrica foi transferida para nossa casa sem que disso nos apercebessemos. Tornámo-nos funcionários subservientes das empresas que nos vendem produtos e serviços. Trabalhamos para elas sem horários, nem salários, nem direitos laborais. Mais: se o serviço funcionar mal, muito provavelmente a culpa será nossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sistema consistente em pôr o público a trabalhar gratuitamente (ainda por cima pagando para isso) está generalizado na televisão e na rádio, cuja programação consiste cada vez mais em fóruns, reality shows, talk shows, concursos e entrevistas de rua. É o modelo Tom Sawyer de pintar a cerca da Tia Polly cobrando à garotada da rua maçãs ou berlindes pelo direito a dar umas pinceladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O aumento de produtividade de parte do sector dos serviços consiste em grande medida em persuadir-nos a suportarmos uma carga de trabalho cada vez maior; trabalho esse que, deixando de ser feito por empregados, assegura às empresas poupanças muito significativas. Inevitavelmente, porém, cada vez dispomos menos de genuíno tempo livre. Toda a gente se queixa de que esteve muito ocupada no fim de semana. A fazer o quê? Ora, a percorrer os corredores do supermercado, a lavar o carro, a fazer transferências bancárias, a esperar na bicha do fast food, a ensinar às crianças o que não aprenderam na escola, a reparar a impressora seguindo as instruções do call-center ou a montar estantes. Tanta modernidade deixa-nos esgotados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na agricultura e na indústria, produtividade significa fazer mais com os mesmos recursos. Como é mais prático e económico comprar que fazer em casa, as pessoas deixam de plantar couves no quintal e de tricotar camisolas. Os cidadãos diminuem a auto-produção e o auto-consumo e conquistam tempo livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paradoxalmente, em muitas actividades de serviço, produtividade significa fazer menos com os mesmos recursos. Como comprar tudo feito é mais caro e pior que fazê-lo, as pessoas resignam-se a trabalhar gratuitamente para as empresas que lhes vendem os serviços. Voltam a crescer a auto-produção e o auto-consumo, agora adornados de uma inovação linguística concebida por gurus que pensam muito à frente: somos hoje todos prosumers ou, se preferirem, “prosumidores”. Em resultado, resta-nos menos tempo livre para a família e para os amigos ou, em alternativa, menos horas de sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, como pretendia Adam Smith, o preço de qualquer coisa inclui todo o esforço e maçada que ela nos custa, então a deterioração da qualidade de um serviço esconde um aumento real do seu preço. Não sendo esse facto considerado nas estimativas da contabilidade nacional, a inflação será subestimada e tanto a produção como os salários reais serão sobretimados. Este problema tem preocupado os economistas, embora mais pelo lado da melhoria da qualidade do que da degradação dela. Desde meados dos anos 90, as estatísticas americanas consideram que a contínua subida da qualidade em produtos como computadores, automóveis e electrónica de consumo equivale a uma descida dos preços. Em resultado dessa revisão de metodologia, os EUA acrescentam todos os anos 0,5% ao crescimento do seu produto per capita, o que contribuíu para criar a ilusão de que a América cresce mais depressa do que a Europa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está certo o raciocínio que faz equivaler uma melhoria de qualidade a uma descida do preço, mas não se entende que não ocorra uma correcção do PNB no sentido inverso quando aquilo que se compra é, como sucede em tantos serviços, cada vez pior. Ignorá-lo é esconder um factor de empobrecimento que todos sentimos no dia a dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PNB não é um facto objectivo, é uma construção teórica orientada por uma interpretação sobre o modo como a actividade económica afecta o bem-estar da sociedade. O resultado obtido depende, por exemplo, do modo como se calcula o índice de preços, se trata o problema da qualidade dos bens, se contabiliza os serviços do sector público, se valoriza a igualdade económico-social ou se avalia a importância da conservação dos recursos naturais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidamente, todos ganhariamos se os economistas dedicassem algumas horas a estudar Mark Twain na faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;(Artigo publicado no Jornal de Negócios de 30.6.10)&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8376490328093859151?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8376490328093859151/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8376490328093859151' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8376490328093859151'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8376490328093859151'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/07/em-qualquer-sistema-de-self-service.html' title='O método Tom Sawyer da produtividade nos serviços'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1846180805026972838</id><published>2010-07-01T10:09:00.001-07:00</published><updated>2010-07-01T10:10:39.918-07:00</updated><title type='text'>Oráculos e outras ferramentas de análise económica</title><content type='html'>&lt;style type="text/css"&gt; &lt;!--  @page { margin: 2cm }  P { margin-bottom: 0.21cm } --&gt; &lt;/style&gt; &lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Dois cães passeiam na Feira do Relógio. Um deles surpreende-se: “Olha, um osso!” O outro encolhe os ombros e passa adiante: “Não pode ser: se lá estivesse, já alguém o teria encontrado.” Este segundo cão é um economista; ofereço-me para ser o primeiro, em representação de todo o bom senso que há no mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;A hipótese dos mercados eficientes sustenta, na sua versão extrema, que toda a informação relevante para a valorização de um título financeiro se encontra já incorporada no seu preço, de modo que é impossível saber-se mais do que aquilo que ele nos diz. Se alguém julga vislumbrar um osso – ou seja, uma oportunidade de investimento lucrativo por descobrir – isso não passa de uma ilusão.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Esta opinião é mais popular do que possa parecer. Quando tantos opinaram, a propósito da especulação contra as dívidas soberanas dos países da periferia europeia, que é inútil argumentar contra o mercado, querem com isso significar que ele está certo por definição, dada a sua imbatível capacidade para processar correcta e instantaneamente toda a informação relevante. Nada do que se possa dizer acrescentará algo a esse juízo perfeito e definitivo.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Há duas estratégias alternativas para determinar o valor de um dado título financeiro. A primeira consiste em adoptar o sentimento do mercado; a segunda, em analisar cuidadosamente os elementos susceptíveis de influenciar esse valor. A hipótese dos mercados eficientes significa que as duas se equivalem, de modo que não vale a pena queimar as pestanas a recolher e estudar muita informação.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;As pessoas que compram e vendem activos financeiros aprendem nos MBAs que o mercado tem sempre razão. Logo, agem em consonância. O seu trabalho consiste em usar o capital, o crédito e a reputação das instituições que os empregam para gerar lucros. Se acertarem, receberão em poucos meses mais do que os seus pais ganharam em toda a vida; se perderem, o despedimento é o pior que lhes pode suceder.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Se o preço de um activo é determinado pelo sentimento do mercado, então o que interessa é tentar adivinhar esse sentimento, não apurar se ele será correcto. Ora, a melhor forma de fazê-lo é aderir ao pensamento convencional, pensar o que todos pensam, seguir acriticamente a última moda sem a questionar, funcionar como elo passivo da cadeia de tolices que a cada momento os tolos gostam de ouvir e repetir.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;“Ah!”, recordam-nos os sábios, “mas, se os mercados especulam contra as dívidas soberanas dos países da periferia europeia é porque, indiscutivelmente, eles se encontram numa situação financeira difícil!” Certamente, toda a loucura especulativa, seja ela eufórica ou depressiva, toma como ponto de partida alguma oportunidade ou preocupação racional. O problema é que, com demasiada frequência, a loucura dos mercados financeiros se alimenta a si própria, até ao momento em que o último tolo dispende o último cêntimo e o processo se interrompe abruptamente. A períodos relativamente breves de irracionalidade seguem-se, pois, outros de retorno à normalidade. Dir-se-ia, então, que há fortes incentivos para resistir ao comportamento de rebanho.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Acontece que é mais arriscado errar contra o rebanho do que errar com ele. A menos que se preveja com exactidão o ponto de viragem – e não há nenhuma técnica infalível que permita fazê-lo – ir contra o sentimento do mercado é na verdade a coisa mais perigosa que um &lt;i&gt;trader&lt;/i&gt; pode fazer, por isso as carteiras de títulos da esmagadora maioria dos gestores acabam por assemelhar-se como duas gotas de água. Keynes, por exemplo, aprendeu à sua custa que o mercado pode persistir no erro durante tempo suficiente para levar à insolvência os investidores mais criteriosos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;O mesmo tipo de cegueira dita o comportamentos dos analistas das agências de &lt;i&gt;rating&lt;/i&gt;. Nicolau Santos relatou há tempos no Expresso a cómica conversa que manteve com um&lt;span style="font-style: normal;"&gt; deles, especialista em economia portuguesa, cujas&lt;/span&gt; fontes de  informação se reduziam a uma selecção limitada artigos de jornais. Tudo o que não encaixasse na sua visão obtusa pura e simplesmente não lhe interessava.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;O resultado desta forma de conduzir as transacções financeiras está à vista. O sistema financeiro arrastou o mundo para um buraco, forçando uma intervenção de emergência dos estados para evitarem a catástrofe. Em resultado, uma boa parte do endividamento foi transferido do sector privado para o público. Ironicamente, o sector financeiro usa agora as ajudas de que beneficiou para especular contra a dívida pública, ou seja, contra todos nós.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;Por que sucede isto? Os desequilíbrios financeiros internacionais persistem, com a poupança e os excedentes comerciais concentrados num punhado de países. Em consequência, não há condições para que a procura privada, seja de consumo ou de investimento, se expanda nos restantes. Há muito dinheiro entesourado, mas escassas oportunidades de aplicação rentável. A manutenção de baixas taxas de juro cria condições favoráveis à especulação, acirrada pelos riscos da dívida de alguns estados.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div lang="pt-PT" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;A voz do mercado diz-nos hoje que os estados devem adoptar políticas restritivas.&lt;/div&gt;&lt;div lang="pt-PT" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="pt-PT"&gt;Ao invés, a voz da razão diz-nos que subsiste um forte risco de recessão ou, pelo menos, estagnação prolongada. Alerta-nos para a necessidade de os apoios às economias não serem retirados enquanto a procura privada não reanimar. Faz-nos ver que nem todas as dívidas poderão ser pagas. Recomenda, por isso, a renegociação internacional das dívidas e a aceitação de níveis de inflação um pouco mais elevados como forma de desvalorizá-las. Sugere um empenhamento na eliminação dos excedentes persistentes pelo menos tão grande como aquele que é dirigido contra os défices persistentes. &lt;/span&gt;&lt;span lang="pt-PT"&gt;&lt;i&gt;Last but not least&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="pt-PT"&gt;, recomenda a aceleração das reformas das instituições financeiras e do seu funcionamento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div lang="pt-PT" style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; margin-bottom: 0cm;"&gt;“&lt;span lang="pt-PT"&gt;Por que raio haveriamos nós”, perguntou recentemente Robert Skidelsky, “de tomar mais a sério o sentimento do mercado do que quando ele nos conduziu ao grande deboche de 2007?” Invocar a autoridade do mercado como quem consulta um oráculo para justificarmos as nossas preferências ou cegueiras é uma forma pouco séria de debater. Nenhum suposto determinismo económico pode ilibar-nos da responsabilidade de fazermos as nossas próprias escolhas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="pt-PT"&gt;&lt;b&gt;(Artigo publicado no Jornal de Negócios de 2.6.10)&lt;/b&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1846180805026972838?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1846180805026972838/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1846180805026972838' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1846180805026972838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1846180805026972838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/07/dois-caes-passeiam-na-feira-do-relogio.html' title='Oráculos e outras ferramentas de análise económica'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1853444234478017870</id><published>2010-05-05T09:17:00.000-07:00</published><updated>2010-05-05T09:20:13.301-07:00</updated><title type='text'>Fomos à Índia por mar porque não havia aviões</title><content type='html'>O Presidente da República iniciou o seu discurso comemorativo do 25 de Abril apontando a crescente desigualdade como o problema número um do país. Minutos depois, concluíu que o país deve apostar no mar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos observadores notaram a evidente contradição, sem dúvida porque entre nós não se exige coerência entre o diagnóstico e o propósito, nem se espera que ele se traduza em acção consistente. É por isso que qualquer emaranhado de lugares comuns e intenções piedosas é aceite como um diagnóstico válido. Excita mais a retórica, mesmo que nulamente fundamentada, ou seja, mesmo que permaneça misterioso o modo como as intenções anunciadas contribuirão para a resolução dos problemas de que padecemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém que pouco depois subiu ao governo explicou-me um dia que essa minha insistência em pedir que objectivos e estratégias sejam deduzidos de uma análise aprofundada da situação releva de um vício positivista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto só por si seria tema para um artigo, mas, infelizmente, agora não temos tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo comentador de sucesso embirra por sistema com os rumos da economia portuguesa. Não gosta dos eucaliptos porque secam os poços, nem das celuloses porque poluem os rios. Não gosta dos têxteis porque pagam salários baixos. Não gosta do turismo porque deu cabo do Algarve. Não gosta do golfe porque consome muita água. Não gosta dos portos porque os contentores tiram a vista às cervejarias, nem dos aeroportos porque custam muito dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que espécie de economia deveríamos então construir? Muito fácil, ensina ele: indústrias limpas. Por exemplo, jornais – excepto se são feitos com papel e transportados por aviões ou se alimentam campanhas sujas. Para além disso, é claro, há o mar, uma riqueza limpa, imensíssima e incompreensivelmente desprezada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o nosso mar fosse muito rico em recursos pesqueiros, o prato nacional não seria o bacalhau, que habita a milhares de quilómetros. Apesar de a nossa costa ser extensa, há portos naturais em maior quantidade e qualidade na Galiza do que em todo o Portugal. A energia das marés poderia resolver-nos muito problemas, mas ignora-se ainda quando os avanços tecnológicos viabilizarão a sua utilização em larga escala. Há espaço para o desenvolvimento da piscicultura no alto mar, mas faltam conhecimentos e estruturas empresariais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está visto que este nosso mar não é de rosas, de modo que, feitas as contas, a importância dele para a economia resultará antes de mais do modo como saibamos aproveitar a nossa situação geográfica para nos inserirmos nas redes logísticas do comércio mundial – mesmo que isso incomode as cervejarias com vista para o oceano. Esta sólida realidade deve, porém, ser complementada com o entendimento de que, hoje, tão importantes para esse propósito como as ligações marítimas são-no as aéreas. Não é por lhe faltar uma letra que o ar vale menos que o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, desse lado, as notícias não são fantásticas. A fusão da British Airways com a Iberia colocou a TAP numa posição difícil. Historicamente, os britânicos sempre privilegiaram na Península a aliança com Portugal em detrimento da Espanha, mas, agora, ficámos de lado neste projecto de domínio da navegação aérea atlântica. Qual é o futuro da TAP? Como e quando será privatizada? Quem serão os seus donos? Que alianças daí resultarão? Como assegurar que delas não resultarão consequências negativas para a competitividade do país?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que alguém tenha a resposta e guarde o segredo a sete chaves, mas os partidos não querem saber, os media não perguntam e nós interrogamo-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucede que o novo aeroporto de Lisboa foi, no essencial, projectado para dotar a TAP de um hub à altura das suas ambições transcontinentais. Sem uma ideia clara sobre o futuro da TAP – ou, sequer, sobre se haverá um futuro para ela – quem quererá investir nessa infraestrutura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deveríamos todos meter na cabeça que os aeroportos internacionais são as infraestruturas mais importante que o país tem. Para o entender, exige-se apenas o pequeno esforço de imaginar a desgraçada situação a que ficaríamos reduzidos se não existissem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje tratámos da água e do ar. Ficam para uma outra ocasião a terra e o fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 5.5.10)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1853444234478017870?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1853444234478017870/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1853444234478017870' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1853444234478017870'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1853444234478017870'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/05/fomos-india-por-mar-porque-nao-havia.html' title='Fomos à Índia por mar porque não havia aviões'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-3442030724645033541</id><published>2010-04-07T09:35:00.000-07:00</published><updated>2010-04-07T09:37:43.445-07:00</updated><title type='text'>Fantasia, empreendedorismo e desenvolvimento</title><content type='html'>Tal como seu irmão Pedro, Henrique operava uma empresa de corso entre o estreito de Gibraltar e o Sul de Marrocos. Após a tomada de Ceuta, o comércio de ouro através do Sará foi naturalmente desviado para outras praças marroquinas, deixando Henrique a sonhar com a possibilidade de atingir directamente a origem do metal precioso navegando ao longo da costa de África.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa rota comercial nunca fora explorada antes de forma sistemática devido a dificuldades relacionadas com os baixios ao longo da costa, com a ausência de povoamento humano numa longa extensão e com o regime de ventos que dificultava as viagens de regresso. Mas, em 1434, Gil Eanes atingiu o Cabo Bojador em expedição organizada por Henrique, não conseguindo porém fazer cativos – uma meta muito importante, tanto pela receita que propoporcionava como por permitir recolher informações sobre a localização das zonas produtoras do ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem receitas, as explorações rumo ao sul careciam de um modelo de negócio viável. Parte do problema foi resolvido com a descoberta em 1436, na Pedra da Galé, de uma numerosa colónia de leões marinhos, cuja pele e óleo rendiam bom dinheiro. Era fraca recompensa para tão arriscados trabalhos, mas, ainda assim, melhor que nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, em 1443, Nuno Tristão descobriu perto do Cabo Branco um pequeno conjunto de ilhas habitadas onde era fácil aprisionar os locais e trazê-los para serem vendidos como escravos. Numa das ilhas foi edificada a feitoria de Arguim que, em ligação com uma povoação continental próxima, se tornou num dinâmico entreposto onde um cavalo se trocava por dez cativos. Assim se criou um negócio sustentável, capaz de financiar a continuação das expedições rumo às terras dos negros e às fontes do ouro. O movimento regular de navios intensificou-se e acelerou-se o progresso em direcção ao Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os descobrimentos portugueses tiveram, pois, a sua origem em actos de pirataria esporádicos que a pouco e pouco assumiram a consistência de uma organização quasi-empresarial. Tendemos a pensar que os esquemas grandiosos começam de forma grandiosa. Mas ninguém na época poderia supor que a busca de ouro e escravos conduziria, por uma série de efeitos em cadeia, à exploração sistemática do Atlântico, à descoberta das Américas, ao comércio marítimo com a Índia, a China e o Japão, e, finalmente, à progressiva decadência do Islão, à submissão da Ásia à Europa e ao triunfo do capitalismo à escala global.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso acreditar que Henrique concebera desde o primeiro momento um grandioso plano para tornear a África, desviar o comércio das especiarias e atacar o Islão pela retaguarda – lenda que a investigação não confirma – para entender que na base dos descobrimentos ao longo da costa de África esteve um ousado esforço de imaginação e vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ganhos que Henrique de início obteve não eram muito significativos no conjunto dos vastos negócios de um homem que, além de ser Grão-Mestre da poderosa Ordem de Cristo e Duque de Viseu, detinha, entre outros, os monopólios da pesca do atum no Algarve, do fabrico e comércio do sabão e da navegação para as Canárias. O mero ganho económico não explica o entusiasmo pelas navegações atlânticas, sobretudo tento presente quão elevado era o risco e incertos os lucros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordar esta estória pode porventura inspirar-nos alguns pensamentos úteis para os dias de hoje. A administração quotidiana de uma empresa, centrada na resolução de problemas triviais, é já de si uma tarefa altamente exigente, pouco tempo sobrando para conceber e pôr em prática novos projectos. Os recursos dedicados à inovação são retirados aos lucros actuais da empresa na mira de ganhos futuros cuja probabilidade não pode ser estimada. Não há nisto, reconheça-se, nada de financeiramente racional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gestor comum cuida de resolver problemas ou de eliminar factores negativos. O empreendedor entusiasma-se com a possibilidade de fazer o que nunca ninguém fez: a sua motivação não é remendar, mas transformar. Este impulso pode ter as mais variadas origens – afirmação social, espírito competitivo, realização pessoal, alguma loucura – do que não sobra dúvida é que ele é extra-económico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma economia equilibrada, estável e bem administrada reproduz-se eternamente tal qual, não se desenvolve. O desenvolvimento vem de fora da economia, espicaçado pelo aguilhão da fantasia, do espírito de aventura e do optimismo imoderado. Um país macambúzio, cujos fazedores de opinião mesquinhamente se entretêm a apoucar toda e qualquer iniciativa que não provenha dos mais poderosos interesses instalados, não tem condições para progredir significativamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perceber isto é identificar o inimigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 7.4.10)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-3442030724645033541?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/3442030724645033541/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=3442030724645033541' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3442030724645033541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3442030724645033541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/04/fantasia-empreendedorismo-e.html' title='Fantasia, empreendedorismo e desenvolvimento'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1670328916069433612</id><published>2010-03-29T14:32:00.000-07:00</published><updated>2010-03-29T14:34:33.114-07:00</updated><title type='text'>PIIGS versus FUKD: dilemas do pensamento económico provinciano</title><content type='html'>É a situação financeira portuguesa comparável à da Grécia? Mais do que responder-lhe directamente – não é – importa compreeender que ambas, e também as da Espanha, da Irlanda e da Itália, têm causas comuns. Nesse sentido, tendo em conta o peso conjunto dos países envolvidos, não estamos perante um problema português, estamos perante um problema europeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas origens da presente situação encontra-se o desenho do sistema monetário europeu, cujas deficiências são hoje quase universalmente reconhecidas. Mas, se o consenso crítico é novo, não o são as objecções, expressas a tempo e horas por muitos e reputados economistas, com destaque para os americanos Robert Mundell e Paul Krugman e, entre nós, para João Ferreira do Amaral. Sustentavam eles, já então, que as disparidades entre os diversos países componentes da zona euro ameaçavam criar mais e não menos instabilidade monetária e financeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essas críticas responderam na altura os politicos do velho continente e a Comissão Europeia com uma mão cheia de estudos argumentando que o euro traria substanciais ganhos de crescimento, comércio externo e emprego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As dificuldades desde muito cedo experimentadas por Portugal deveriam ter funcionado como sinal de alerta. Em vez disso, recorreu-se a justificações ad-hoc de carácter predominatemente moralista, tendentes a culpar o comportamento supostamente irresponsável dos consumidores e do Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, o que se passou em Portugal era perfeitamente previsível à luz da mais elementar teoria económica: baixando rapidamente os juros, aumentou como consequência directa e imediata o endividamento dos particulares, das empresas e do Estado, ao mesmo tempo que baixava a poupança interna. Rareando a poupança interna, os bancos foram buscá-la ao exterior, daí resultando o rápido crescimento do endividamento externo. Tudo muito simples e fácil de entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se isso não bastasse, um outro choque externo de grandes proporções afectou quase em simultâneo a economia portuguesa: a entrada em força das exportações chinesas na Europa, complementada pelo livre acesso ao mesmo mercado dos países do leste. Sabe-se que essa circunstância afectou de modo desigual os países da União Europeia – menos os mais desenvolvidos, mais os da periferia económica e geográfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mercê de uma estrutura económica frágil e pouco qualificada, a indústria portuguesa viu-se quase de um dia para o outro a competir com concorrentes chineses com custos laborais muito mais baixos e soçobrou. A Grécia sofreu menos de imediato, dados o grande peso que na sua economia têm os serviços ligados aos transportes marítimos e ao turismo e a sua fraca integração comercial na União Europeia. A Espanha, pelo seu lado, beneficiou transitoriamente de um brusco afluxo de capitais do Norte da Europa dirigidos ao imobiliário de vocação turística. Mas o problema de base estava lá, à espera de revelar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso português é também sintomático na medida em que confirmou a impossibilidade em que os países europeus vítimas de choques assimétricos se encontravam de reagirem adequadamente. A fraca competitividade nacional não tem uma solução simples, muito menos rápida. Trata-se de qualificar as empresas e os trabalhadores de molde a habilitá-los a competirem em condições muito vantajosas, um esforço que só em finais da primeira década do século começou a produzir resultados visíveis, mas insuficientes. Entretanto, o défice externo conduziu ao aumento da dívida do país ao estrangeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, a integração na zona euro privou Portugal de instrumentos de política económica que o ajudassem a reagir às suas dificuldades. Não dispomos de política monetária própria, visto que não controlamos nem a quantidade de moeda em circulação, nem a taxa de juro, nem a taxa de câmbio, e a própria política orçamental encontra-se fortemente condicionada pelo impropriamente chamado Pacto de Estabilidade e Crescimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem-se falado muito do ganho de competitividade que Portugal poderia obter desvalorizando a sua moeda (se acaso ainda tivesse uma), mas a verdade é que isso apenas lhe permitiria ganhar algum tempo enquanto completa o processo de modernização da sua estrutura económica. Mas parece evidente que a taxa de juro deveria ser mais alta para podermos estimular a poupança e dissuadir o consumo excessivo. Nestas circunstâncias, alguns economistas trocam a discussão racional da política económica por sermões moralistas, antecipadamente votados ao fracasso, a favor da moderação e dos bons costumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta experiência de impotência nacional causada pelo modo como o sistema monetário europeu foi concebido e implementado, que nós temos vivido ao longo da última década, é agora partihada pelo conjunto dos países europeus depreciativamente designados por PIIGS (Portugal, Ireland, Italy, Greece, Spain). Mas é indispensável entender-se que a crise mundial apenas agravou o problema, não o criou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos desde a última metade do ano passado a segunda fase da crise económica mundial revelada no fatídico mês de Agosto de 2007. O pior parece ter sido evitado a partir do momento em que intervenções massiva dos governos permitiram deitar mão a sistemas bancários à beira do colapso e estimular a procura intervindo em sectores e empresas e lançando investimentos públicos de emergência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um a um, os países começam a sair da recessão técnica, mas o crescimento permanece anémico e o desemprego não interrompeu a sua marcha ascendente. Em resumo, a situação permanece crítica e o paciente não está em condições de sair dos cuidados intensivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis, porém, que por todo o mundo se ergue um coro de protestos contra o rápido crescimento do endividamento dos estados e uma exigência de medidas urgentes para controlar a situação. Em resposta, Obama anunciou um programa de drástica redução da despesa pública nos EUA até ao final do seu mandato, ao mesmo tempo que a Comissão Europeia impôs aos membros da zona euro uma rápida contracção dos défices registados em 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O centro das atenções deslocou-se, assim, para o problema das dívidas de países (também chamadas dívidas soberanas). As primeiras vítimas foram pequenos países europeus exteriores à zona euro, a começar pela Islândia, vítima de um verdadeiro acto de pirataria moderna. Seguiram-se-lhe a Lituânia e a Hungria, onde a União Europeia e o Banco Central Europeu orquestraram intervenções discretas e rápidas a instâncias dos bancos credores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a Grécia, porém, o drama deslocou-se para o interior da zona euro. Ignora-se ao certo qual foi o déficite das contas públicas gregas em 2009 e nos anos anteriores, mas ninguém dúvida que foi enorme e que está descontrolado. A União Europeia quer a todo o custo que desça para os 3% no prazo de quatro anos, uma tarefa decerto impossível. Declarações de políticos europeus irresponsáveis e de especuladores interessados na subida do juro da dívida grega lançaram de novo o pânico nos mercados financeiros internacionais, com reflexos imediatos nas bolsas de todo o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a Grécia tivesse uma moeda própria, recorreria sem dúvida à política cambial e ao ajustamento da taxa de juro directora para começar a corrigir a situação. Como está amarrada ao euro, exige-se-lhe que ponha ordem na casa ao mesmo tempo que se lhe proibe que o faça. Acresce não estarem previstas nem no Tratado de Maastricht nem nos estatutos do BCE eventuais medidas de socorro a países membros em situações excepcionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surge uma nova versão da teoria do dominó. A eventual bancarrota da Grécia aumentará a pressão sobre Espanha, Portugal e Itália e, em seguida, sobre outros países a braços com grandes desequilíbrios, tais como o Reino Unido e os EUA. Renascerão as dúvidas sobre a solvabilidade de grandes bancos, a começar pelos principais credores dos países em dificuldades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solução, pretendem os políticos conservadores de mão dada com os economistas ortodoxos, é inverter rapidamente a deterioração das contas públicas e regressar aos sãos princípios do equilíbrio orçamental. Quanto ao resto, argumentam, a retoma deverá basear-se na expansão do sector privado, não no investimento público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há aqui um perigoso paralelo com o que sucedeu na Grande Depressão dos anos 30, quando, aos primeiros sinais de estabilização, a retirada prematura dos apoios públicos à actividade económica provocou um novo e prolongado agravamento da situação. Travar bruscamente as ajudas governamentais quando tudo indica não estarem reunidas as condições para a retoma do consumo e do investimento privados é correr o risco de provocar o caos económico e político à escala mundial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É necessário começar por afirmar com toda a clareza que, embora importante, a dívida não é tudo. Em primeiro lugar, o aumento do endividamento não é a causa dos problemas, mas um mero sintoma. Em segundo lugar, se o que conta é o nível da dívida em proporção do produto, uma quebra acentuada do produto pode contribuir para agravar ainda mais a situação ao contrair os recursos que permitiriam pagá-la. Em terceiro lugar, se às persistentes quebras do consumo e do investimento privado sem fim à vista somarmos a da despesa pública, o mundo pode entrar em colapso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, não se pode negar que o endividamento, embora necessário de imediato, hipoteca as hipóteses de crescimento a longo prazo. Segundo Ken Rogoff, o crescimento de um país é seriamente afectado quando a sua dívida pública ultrapassa o patamar dos 90% do produto. Mais endividamento agora implica necessariamente mais impostos no futuro, a menos que ela não seja paga ou que a inflação a desvalorize.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podemos sobreviver sem crescimento da dívida a curto prazo, mas tampouco podemos ter esperança num futuro risonho sem diminuí-la a médio prazo. Navegando entre Cila e Caríbdis, temos que negociar habilmente a saída dos trabalhos em que nos encontramos metidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Húngria, entre outros – tal como, de resto, os EUA e o Reino Unido – apostam tudo no crescimento das suas exportações para sairem da crise. Fazem bem, porque as baixas taxas de poupança e os desequilíbrios comerciais que os afligem não lhes deixam outra via para escapar à estagnação. O problema é que os principais países que exibem supéravites persistentes e excessivos, como a China, o Japão e a Alemanha, também pensam salvar-se exportando cada vez mais. Estamos perante uma impossibilidade lógica: se alguém exporta é porque alguém importa; ao nível global é, portanto, impossível todos crescerem por essa via.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renasce a ilusão que em 1931 alimentou o proteccionismo: desvalorizar a moeda, fechar os mercados na medida do possível à concorrência estrangeira, congelar ou baixar salários, facilitar despedimentos, reduzir a todo o custo a despesa pública, baixar impostos são outras tantas políticas que ameaçam contrair o comércio internacional e fazer a economia mundial mergulhar de novo no abismo da recessão. Se todos seguirem a receita, não haverá forma de evitá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há poucas semanas, quando a crise grega atingiu o seu paroxismo e os mercados financeiros abanaram, os observadores mais ingénuos ou cegos redescobriram uma das leis fundamentais da economia, cujas origens remontam a Quesnay: a cada receita corresponde uma despesa, a cada dívida um empréstimo. Não é possível imaginar-se que a desgraça da Grécia possa deixar de afectar os seus parceiros económicos. Se a Grécia tem problemas para pagar, quem lhe emprestou terá problemas para receber. Se o poder de compra dos gregos se esboroar, isso prejudicará as empresas e os países que satisfaziam a sua procura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os problemas dos PIIGS têm como reverso da medalha as aflições dos FUKD (France, United Kingdom, Deutschland). É de crer que, mais dia menos dia, até a Srª Merkel compreenda que não é possível exportar Mercedes se não houver importadores de Mercedes. No fim, todos seremos em maior ou menor grau FUKD, seja qual for o país onde vivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repito: não há uma crise portuguesa, nem irlandesa, nem espanhola, nem grega, tampouco americana ou inglesa – mas uma crise europeia dentro de uma crise mundial. Acreditar no contrário pode servir para alimentar a politiquice interna, mas nada mais. Como Martin Wolf há semanas escreveu: “Enquanto o BCE tolerar uma procura fraca na eurozona no seu todo e enquanto os países nucleares, antes de mais a Alemanha, continuarem a manter vastos excedentes comerciais, será impossível que os membros mais fracos escapem à armadilha da insolvência. O problema deles não pode resolver-se pela mera austeridade fiscal. Precisam de uma acentuada melhoria na procura externa do seu produto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O provincianismo, entendido como aquela peculiar forma de miopia que consiste em ignorar o carácter global da presente crise, é, por conseguinte, o principal problema com que nos defrontamos. Decerto, Portugal necessita de conter e reduzir o seu défice público, mas com prudência e sem precipitações. Nas actuais circunstâncias, o essencial é que não sejamos ou não pareçamos demasiado mal comportados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, não só isso não basta como nem sequer toca no essencial. A necessidade de reformar o sistema monetário europeu deve ser decididamente assumida e colocada em cima da mesa. Isso implica, desde logo, questionar os objectivos do BCE, que agora escandalosamente secundarizam o crescimento e o emprego; exigir maior transparência no seu funcionamento; e impor-lhe a obrigação de prestar contas. Em nenhum país importante possui o banco central um tal grau de independência em relação ao poder político e nenhum outro faz tão pouco caso de objectivos não especificamente monetários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O euro não cumpriu boa parte das promessas que fez aos europeus. Não contribuíu para melhorar o crescimento económico em comparação com outros países, tal como não reduziu o desemprego. Mais surpreendentemente ainda, como faz notar Paul de Grouwe, a sua introdução não reforçou notoriamente a sincronização entre os ciclos económicos dos países membros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe-se há muito tempo que as dificuldades que as assimetrias entre peíses ou regiões podem criar a uma união monetária podem ser superadas através do reforço da união política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não faz sentido submeter os países membros a uma rígida disciplina financeira sem, em contrapartida, instituir mecanismos europeus de apoio àqueles que enfrentem dificuldades particulares. Mas é claro que a atribuição ao centro de uma tal função redistributiva implica que a União seja dotada de um orçamento capaz de fazer face a essas situações, muito acima dos parcos recursos que hoje lhe são atribuídos e eventualmente financiado pela emissão de euro-obrigações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa centralização orçamental deveria por sua vez ser acompanhada de um reforço dos poderes do Parlamento Europeu por forma a assegurar o controlo democrático do processo político. O primado da economia será substituído pelo da política, como é de boa regra numa democracia bem formada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As consequências destas reformas serão complexas, difíceis e profundas. Por isso mesmo, defrontar-se-ão com uma grande oposição, mas a resposta à presente crise da Europa não poderá vir senão da política europeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Artigo publicado na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique de Março de 2010)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1670328916069433612?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1670328916069433612/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1670328916069433612' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1670328916069433612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1670328916069433612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/03/piigs-versus-fukd-dilemas-do-pensamento.html' title='PIIGS versus FUKD: dilemas do pensamento económico provinciano'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1369099726893488052</id><published>2010-03-12T11:14:00.000-08:00</published><updated>2010-03-12T11:15:29.082-08:00</updated><title type='text'>Desconstruindo a paranóia</title><content type='html'>Boris, o personagem central de &lt;em&gt;Whatever Works&lt;/em&gt;, último filme de Woody Allen, tem uma visão azeda sobre o mundo: a religião não passa de um negócio, os americanos elegeram um presidente negro para evitarem ter um judeu, o amor é uma vigarice, a estupidez dos jovens vai destruir a raça humana e por aí fora. Só guarda uma opinião favorável de si próprio e daquilo que possa contribuir para confirmá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo seu lado, Melodie traz da &lt;em&gt;small town America&lt;/em&gt; para Nova Iorque uma concepção do mundo igualmente fechada, mas de sinal contrário: provinciana, religiosa e orientada para os chamados “valores familiares”. O mesmo se poderia dizer de John e Marietta Celestine, os pais de Melodie que, inopinadamente, fazem a sua aparição em momentos críticos do enredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O interessante é a facilidade com que convicções aparentemente tão sólidas se esboroam ao primeiro embate com experiências não previstas no guião ideológico dos personagens. Boris, o auto-proclamado egoísta racional, dá guarida a uma rapariga a quem não reconhece de início dotes de inteligência, sensibilidade ou beleza, envolve-se emocionalmente com ela e acaba por desposá-la. Melodie, a rapariguinha estouvada que sonha com bailes de debutantes e rapazes atléticos e tontos, apaixona-se pela suposta superioridade intelectual de Boris; Marietta descobre uma vocação artística e adere a um &lt;em&gt;menage à trois&lt;/em&gt;; e John conclui que toda a vida desejara ser &lt;em&gt;gay&lt;/em&gt; sem o saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há aqui um evidente padrão de pronta transmutação da rigidez ideológica em simpatia pela perspectiva contrária ao mínimo contacto com outras formas de ver as coisas. Os sujeitos mais desconfiados, lá dizia o bom do Cardeal de Retz, revelam-se sempre os maiores trouxas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem-me que, embora só agora o tenha filmado, Woody Allen criou o guião de &lt;em&gt;Whatever Works&lt;/em&gt; há umas boas três décadas. Fez bem em esperar, pois no mundo de hoje afigura-se muito mais verosímil esta estranha combinação de crispação e permeabilidade nos comportamentos humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O 11 de Setembro de 2001 constituíu um marco assinalável na consolidação do estado de espírito característico da nossa época, e que é em simultâneo de credulidade absoluta e desconfiança extrema. O fascínio da imagem do primeiro avião mergulhando nas torres gémeas pode ser assim imperfeitamente verbalizado: “Se isto é possível, então nada do que possamos imaginar está fora de cogitação e todos os perigos nos ameaçam.” Predispomo-nos a acreditar em tudo o que se afigure suficientemente ameaçador, desde a gripe das aves ao aquecimento global, desde o armamento nuclear iraniano à ruína do euro, não porque nos pareça verosímil, mas precisamente porque nos parece impossível, numa recuperação do “creio porque é absurdo” que Tertuliano definia como a essência da fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obsessão contemporânea com a transparência é justificada como exigência irredutível da democracia: numa sociedade verdadeiramente governada pelo povo e para o povo não há lugar para o segredo, tudo deve ser continuamente escrutinado e explicado. Mas é pelo menos estranho que o clamor pela transparência cresça em vez de diminuir quando ela é indiscutível e incomparavelmente superior àquilo que alguma vez foi ao longo da história, incluindo a mais recente. Dir-se-ia que quanto maior a transparência, maior a suspeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se trata, é claro, de uma reivindicação racional, mas de um sintoma mórbido de uma situação cultural marcada pela incapacidade colectiva de lidar com a complexidade do mundo contemporâneo, esteja em causa a concessão de um terminal de contentores, a arbitragem do futebol ou a regulação do sistema bancário internacional. As nossas vivências fragmentadas pós-modernas inspiram crenças fragmentadas. A escassez de cultura partilhada bloqueia o diálogo e rigidifica posições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosamente, o filme de Woody Allen mostra-nos que essa situação pode ser superada na condição de alguém se revelar disposto a servir de via de comunicação entre mundos hostis. Em &lt;em&gt;Whatever Works&lt;/em&gt; esse papel incumbe a Melodie, a agente de contaminação entre culturas que não receia passar por tola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num mundo hegemonizado pelo cinismo, a inocência é a suprema forma de coragem. Mas o suposto tolo poderá sempre invocar em sua defesa a máxima de Bacon: “Nada torna um homem mais desconfiado do que saber pouco”. E não foi, afinal, Alberto João Jardim quem veio reconhecer que, ao cabo de todos estes anos, ainda não conhecia bem o Primeiro Ministro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 10.3.10)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1369099726893488052?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1369099726893488052/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1369099726893488052' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1369099726893488052'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1369099726893488052'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/03/desconstruindo-paranoia.html' title='Desconstruindo a paranóia'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1023200518339852734</id><published>2010-03-12T11:06:00.000-08:00</published><updated>2010-03-12T11:10:39.625-08:00</updated><title type='text'>A Cidade e as Serras</title><content type='html'>Na minha geração aprendia-se a ler em livros escolares povoados por uma pitoresca galeria de figuras campesinas conduzindo carros de bois, lavrando a terra com arados ou apascentando o gado, extravagantemente misturadas com humildes santinhos de pés descalços, intrépidos navegadores de quinhentos e sorridentes guerreiros medievais. Eram mínimas as referências ao mundo urbano: praticamente não se via prédios altos, nem automóveis, nem aviões.&lt;br /&gt;Esta retrógrada fantasia icónica parecia estranha àqueles que, como eu, vivendo em Lisboa, só nas férias conviviam um pouco com a vida rural, mas guardava alguma relação, ficcionada embora, com o dia a dia de uma boa parte do povo português.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado meio século, habitamos um país totalmente distinto: reduziu-se drasticamente a parcela da população ocupada na agricultura, dilataram-se e modernizaram-se as principais cidades, cresceram a perder de vista os subúrbios. Dir-se-ia que, na esteira do mundo desenvolvido, também nós, tarde e a contragosto, nos convertemos numa sociedade urbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucede, porém, que, segundo as estatísticas disponíveis, Portugal permanece uma sociedade comparativamente pouco urbanizada. Em concreto, somos o país da Europa Ocidental e Central com mais baixos índices de concentração urbana. Não há como pôr números nas coisas: a população portuguesa residente em áreas urbanas ronda os 37%, contra, por exemplo, 67% na Itália e 77% na Espanha. A nossa taxa de urbanização será mesmo inferior à da Albânia em um ponto percentual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todas as estatísticas, também estas terão alguma margem de erro, sendo a comparação com a Albânia especialmente difícil de engolir. Mas não duvidemos que a nossa taxa de urbanização não é meramente baixa – ela é patologicamente baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acresce que o tema não traz a nossa opinião pública preocupada como deveria. Bem pelo contrário, o que frequentemente se escuta por aí são queixas contra a macrocefalia do país ou o progressivo abandono de aldeias tradicionais perdidas no cocuruto de uma serra distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que a persistente dispersão da população portuguesa por uma miríade de vilas e aldeias espalhadas pelo território acarreta elevadíssimos custos sociais e motiva consideráveis perdas de produtividade. Fica caríssimo ao Estado levar estradas, escolas, cuidados médicos, electricidade, água e telecomunicações a uma população tão dispersa como a nossa, ainda por cima para, no final, lhe proporcionar um serviço que não pode deixar de ser medíocre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Considere-se, por exemplo, o caso da educação. Cerca de dois terços das escolas portuguesas tinham há pouco tempo menos que 30 alunos, e um terço menos que 10. Por comparação, a França, país do G7 com o mais baixo indicador, tinha em média 166 alunos por escola. Ora, escolas minúsculas cumprem necessariamente mal a sua função educativa, sejam quais forem os critérios de avaliação utilizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao invés, as cidades são uma forma económica de organizar a vida em sociedade, visto que, aproximando as pessoas, reduzem custos de transacção e determinam rendimentos crescentes de proximidade. As cidades são mais eficientes do ponto de vista energético, porque reduzem os custo de transporte de pessoas e bens e estimulam o recurso ao transporte público. A proximidade das pessoas facilita a circulação de informação e conhecimento, a observação e cópia de boas experiências, o debate de ideias e a inovação. Nas cidades fomentam-se complementaridades produtivas, decisivas numa era em que o crescimento depende antes de mais da cooperação entre empresas e trabalhadores qualificados orientada para o desenvolvimento de novos processos e novos produtos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, não só nós temos poucas e pequenas cidades, como as nossas áreas metropolitanas, também elas muito dispersas, se encontram por isso mesmo mal habilitadas a proporcionar os ganhos de eficiência potenciais. Cidades mais densas são cidades mais produtivas; cidades dispersas diluem as vantagens da proximidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A preocupantemente baixa produtividade total dos factores da economia portuguesa decorre em boa parte deste deficiente padrão de ocupação e organização do território, fonte de desperdícios e encargos adicionais tanto para o Estado como para as empresas. Todavia, a intervenção dos poderes públicos, orientada por preconceitos injustificados e condicionada pelas pressões dos interesses locais, tem não raro sido hostil ao necessário esforço de concentração e qualificação urbana.&lt;br /&gt;É, por isso, oportuno lembrar que poucas áreas de intervenção encerram um tão grande potencial de melhoria da competividade do país e de redução da sua dependência energética, contribuindo ao mesmo tempo para o bem-estar e a qualidade de vida dos cidadãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 10.2.10)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1023200518339852734?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1023200518339852734/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1023200518339852734' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1023200518339852734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1023200518339852734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/03/cidade-e-as-serras.html' title='A Cidade e as Serras'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-5385737720704729335</id><published>2010-01-13T06:56:00.000-08:00</published><updated>2010-01-13T06:58:01.705-08:00</updated><title type='text'>Fernando Pessoa e o euro</title><content type='html'>O caso é grave, na medida em que prejudica seriamente a ambição de auto-flagelação nacional, mas os portugueses têm o direito de saber a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a verdade é que o nosso elevado nível de endividamento externo não pode mais continuar a ser encarado como um problema especificamente português. Primeiro, porque, demagogias à parte, a causa imediata do seu agravamento reside na crise financeira internacional que se propagou a partir dos EUA. Segundo, porque é comum a um grande número de países europeus, entre os quais alguns que integram a zona euro e onde vivem mais de um terço dos seus habitantes. Terceiro, porque - cúmulo do desespero! - a nossa situação está longe de ser a mais grave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resulta daqui que, ao contrário do que se passava há cinco anos, não estamos hoje desalinhados dos nossos parceiros europeus. Estamos no mesmo barco que eles enfrentando a mesma tempestade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, as dificuldades simultâneas e semelhantes da Grécia, da Irlanda, da Espanha, da Itália e de Portugal não podem ser consideradas obra do acaso. São inerentes a um sistema mal concebido e pior governado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época em que o euro foi criado, muitos economistas (principalmente do lado de lá do Atlântico) questionaram a sabedoria de se juntarem num mesmo espaço monetário países com níveis de desenvolvimento tão diferentes, ainda para mais na ausência de mecanismos de apoio àqueles que pudessem vir a experimentar dificuldades devidas a situações particulares ("choques assimétricos", no calão dos economistas). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Face às presentes ameaças, muitos continuam a garantir que o problema é dos devedores, e que, por isso, a preocupação deve ser apenas deles. Mas será possível penalizar a Grécia sem ao mesmo tempo penalizar os investidores alemães, austríacos, franceses ou ingleses que lhes emprestaram dinheiro? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muito que se assobie para o ar, ninguém duvida de que, diga o que disser o tratado de Mastricht, a eventualidade de um afundamento grego obrigaria a União Europeia e o Banco Central Europeu a uma intervenção de emergência. Mas, se assim é, o melhor é agirem imediatamente, caso contrário não só a crise grega continuará a agravar-se, como crescerá a percepção de risco dos outros países em dificuldades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que deveremos nós fazer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, proteger e reforçar a actual percepção internacional de que a nossa situação não é especialmente preocupante. Isso conseguir-se-á comportando-nos um bocadinho melhor do que os outros. Uma redução em dois pontos percentuais do défice público em proporção do produto já em 2010 seria um excelente resultado, embora muito difícil de conseguir. Precisamos de ganhar tempo para respirar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundo lugar, Portugal tem que continuar o esforço de requalificação do trabalho e das empresas que tem vindo a desenvolver. Na década de 90, o país deixou-se ficar preso a um padrão de especialização produtiva inviável que ao mesmo tempo entravou o crescimento da produtividade, condenou os salários à estagnação, aumentou a taxa de desemprego e agravou o défice externo. Este processo é lento e difícil por natureza, mais ainda agora que as circunstâncias externas se tornaram mais adversas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em terceiro lugar, não podemos manter-nos na expectativa em relação à evolução futura do sistema monetário e financeiro europeu. Não somos meros espectadores, estamos dentro, pelo que temos uma palavra a dizer na matéria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fazem sentido nem a total independência do Banco Central Europeu nem a sua preocupação exclusiva com a inflação. Não faz sentido o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Não faz sentido a ausência de disposições que autorizem medidas excepcionais em situações excepcionais. Finalmente, não faz sentido que haja tanta preocupação com défices externos excessivos e nenhuma com superávites excessivos, quando uns se ligam necessariamente aos outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando Pessoa definiu o provincianismo português como esta inclinação para "pertencermos a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia de que o endividamento externo é um problema especificamente nosso - seja nas causas seja nas manifestações - não passa de mais uma manifestação do provincianismo das elites portuguesas que Pessoa tão justamente abominava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 13.1.10)&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-5385737720704729335?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/5385737720704729335/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=5385737720704729335' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/5385737720704729335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/5385737720704729335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2010/01/fernando-pessoa-e-o-euro.html' title='Fernando Pessoa e o euro'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-3551907637206368290</id><published>2009-12-17T03:54:00.000-08:00</published><updated>2009-12-17T03:59:47.606-08:00</updated><title type='text'>Estado de catástrofe semiótica e mistérios da produtividade</title><content type='html'>Diz-se que, em 1968, quando os russos invadiram a Checoslováquia, os checos retiraram a sinalização das estradas para impedir que os tanques inimigos conseguissem encontrar o seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se algum exército tentasse invadir Portugal (coisa que, caso único na Europa que a todos nos envergonha, ninguém tenta fazer há 200 anos bem contados) a nossa melhor defesa seria deixar a sinalização tal como está e esperar que ele se perdesse no emaranhado de pitorescas ruas e ruelas que fazem o encanto deste nosso jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto o intrincado urbanismo das nossas cidades como o traçado sinuoso das nossas estradas e, às vezes, dos próprios caminhos de ferro, testemunham a confusão de espírito que se sobrepõe a qualquer tentativa de planeamento racional. Rasgar uma rua a direito, plantar um jardim onde se planeara plantar um jardim, demolir uma ruína abandonada são tarefas hercúleas que, em certos casos, mobilizam e esgotam a opinião pública durante anos. Daí talvez a reverência com que contemplamos essa escassa excepção que é a baixa pombalina de Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito antes de Einstein, já os portugueses sabiam que o espaço é curvo. Entre nós, o caminho mais curto entre dois pontos é aquele que, entre mil circunvoluções, torneia o quintal de cada um, mesmo que ele seja clandestino (ou, principalmente, se ele for clandestino). A sinalização das nossas cidades revela também esta paixão nacional pela excepção, forma eufemística de designar a reverência dos poderes públicos perante o egoísmo mais mesquinho. Aqui, é proibido estacionar, excepto viaturas oficiais, médicos ou deficientes. Ali, é proibido virar à esquerda, excepto viaturas da GNR ou veículos das obras. Mais adiante, não se pode virar à direita, excepto transportes públicos ou veículos ligeiros (juro que vi este sinal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com toda esta trapalhada de ordens e contra-ordens, não admira que, de vez em quando, um automobilista mais confuso e não exemplarmente sóbrio apareça a circular fora da mão na auto-estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sigo Confúcio quando ele pretende que um erro de linguagem pode derrubar um império, mas convenhamos que falhas de comunicação deste calibre configuram um estado de catástrofe semiótica que, para usar um eufemismo, não ajudam o país a funcionar com eficiência. O pior é que o drama não se confina à sinalização. Da sinalização à organização urbana, da organização urbana ao sistema de transportes, do sistema de transportes à logística, da logística à organização fabril – por toda a parte encontramos réplicas deste sistema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, sejam quais forem os defeitos e limitações dos métodos usados para medir a produtividade, não restam grandes dúvidas de que Portugal tem um sério problema neste domínio, desgraçadamente pouco discutido e menos entendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A produtividade não decorre da aplicação de maior esforço e proficiência na execução de uma dada tarefa, caso contrário a pá jamais teria sido substituída pela escavadora. Bem pelo contrário, resulta da aplicação da lógica ao processo produtivo. Quanto mais racionalmente pensarmos a organização dos recursos, melhor será o resultado final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma peculiaridade desta lógica é a exigência de se pensar os sistemas do fim para o princípio, ou seja, partindo do resultado pretendido para, por um processo inverso, determinar o modo como o trabalho deve ser organizado. A alternativa, note-se, é organizar o trabalho em função de circunstâncias mais ou menos fortuitas ou de poderes particulares que se sobrepõem ao conjunto. É este o erro que vemos em acção nas nossas estradas e caminhos: na ausência de respeito pelo utilizador (que deveria ser o seu propósito orientador), prevalece a redução de custos mal entendida, ou a força do hábito, ou o interesse particular ou, quem sabe, a mera estupidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos conjecturar que a mera difusão dos aparelhos GPS permitirá superar o absurdo da sinalização que nos calhou em sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, na economia, o equivalente a essa submissão do país a um sistema de orientação inventado por outros será talvez o enquadramento das empresas portuguesas em cadeias de valor que não dominam nem entendem, uma forma de provincianismo a que nos encontramos muito acomodados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado será a inelutável desqualificação e desvalorização do trabalho nacional. Ora, eu não sei se será exactamente isso que queremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(Publicado no Jornal de Negócios em 16.12.09)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-3551907637206368290?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/3551907637206368290/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=3551907637206368290' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3551907637206368290'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3551907637206368290'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/12/estado-de-catastrofe-semiotica-e.html' title='Estado de catástrofe semiótica e mistérios da produtividade'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-9097110090614191942</id><published>2009-11-19T07:01:00.001-08:00</published><updated>2009-11-19T07:02:28.024-08:00</updated><title type='text'>Como fazer o Estado trabalhar mesmo mal</title><content type='html'>O atribulado processo de escolha da localização do novo aeroporto de Lisboa tornou evidente a enorme fragilidade do Estado português. Talvez valha a pena tentarmos identificar a sua origem profunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda metade dos anos 80, teve início um processo de progressivo esvaziamento dos departamentos de estudos e planeamento de diversos ministérios. Há que reconhecer uma certa dose de racionalidade na decisão. Nem o Estado precisa de imponentes núcleos de técnicos de variadas especialidades cuja utilização oscila muito de ano para ano, nem tem condições para remunerar adequadamente os mais qualificados dentre eles. Compreende-se, por isso, que recorra com regularidade aos serviços de centros de investigação universitários, empresas de consultoria ou gabinetes de projectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que essa racionalização foi demasiado longe, transformada num dogma inquestionável que perdeu de vista o seu propósito inicial. De modo que, hoje em dia, o Estado encontra-se destituído de competências técnicas efectivas em áreas cada vez mais numerosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta evolução foi propiciada por doutrinas, tão pacóvias como nefastas, segundo as quais o Estado não necessita de definir estratégias próprias de actuação, limitando-se a responder às solicitações da sociedade civil. O resultado desse liberalismo mal assimilado está à vista de todos: muitas e relevantes instituições estatais carecem de um pensamento próprio acerca da área em que actuam, limitando-se, por isso, a prosseguir políticas e a distribuir recursos sem outro critério visível que não seja o de agradar às associações empresariais e aos lóbis mais influentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os últimos anos têm vindo a comprovar, de modo cada vez mais evidente, os prejuízos resultantes da desvalorização das competências técnicas do Estado. Destacarei três razões por que este estado de coisas não pode continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, o Estado necessita de preservar uma memória inteligente. O planeamento de grandes infraestruturas nacionais – sirva mais uma vez de exemplo o novo aeroporto internacional de Lisboa – leva anos (por vezes décadas), ao longo dos quais são estudadas e avaliadas múltiplas alternativas segundo uma variedade de critérios que, naturalmente, vão também evoluindo com o tempo. Na ausência de instituições públicas sólidas encarregadas de preservar a memória do que se fez e por quê, às tantas ninguém – literalmente ninguém – sabe exactamente se será ou não preciso refazer este ou aquele estudo e com que pressupostos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundo lugar, a aquisição ao exterior de trabalhos complexos de consultoria e projecto exige elevadas competências técnicas, seja para definir as especificações da encomenda, seja para avaliar criteriosamente as propostas recebidas, seja, finalmente, para interpretar as conclusões a que se chegar. Não se imagina porventura quanto pode perder o Estado anualmente quando este trabalho é mal feito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em terceiro lugar, sem uma tecno-estrutura capaz e dedicada ao serviço público, não há condições para estruturar com o necessário detalhe as políticas públicas. Sabe-se como os nossos partidos estudam pouco e superficialmente os assuntos. Com demasiada frequência, só depois de tomarem assento nos ministérios é que os seus titulares começam a debruçar-se mais a sério sobre eles. De modo que, ou se rendem aos encantos do primeiro vendedor de banha da cobra que lhes aparece, ou ficam dependentes de gabinetes técnicos montados à pressa com jovens inexperientes que ignoram quase tudo do que até essa data se fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto se traduz na notória ausência de políticas devidamente articuladas e pensadas nas suas consequências. Veja-se, por exemplo, como, após anos e anos de planos feitos em cima do joelho e debates caóticos em que o número de linhas de TVG projectadas variou entre zero e sete, tivemos a sorte de a União Europeia e a Espanha decidirem por nós o que de facto irá ser feito. Situações similares ocorreram e ocorrem em múltiplas áreas da governação, incluindo os transportes, as comunicações, a indústria, a agricultura, o comércio externo, a investigação, a saúde ou a educação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não faz qualquer sentido, numa época em que tanto se fala do papel central do conhecimento nas sociedades contemporâneas, que o Estado se resigne à desvalorização do capital de know-how que lhe é próprio e que não pode alienar sob pena de todos ficarmos mais pobres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 18.11.09)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-9097110090614191942?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/9097110090614191942/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=9097110090614191942' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/9097110090614191942'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/9097110090614191942'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/11/como-fazer-o-estado-trabalhar-mesmo-mal.html' title='Como fazer o Estado trabalhar mesmo mal'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-3929091805896653336</id><published>2009-10-21T20:44:00.000-07:00</published><updated>2009-10-21T20:44:00.233-07:00</updated><title type='text'>O esplendor de Portugal</title><content type='html'>A revolução agrícola iniciada na Mesopotâmia terá levado uns 2 mil anos a chegar a este cantinho da Ibéria. Na época do Império Romano, a Lusitânia era uma das províncias de mais difícil acesso por terra ou por mar. O território que habitamos viveu sempre na periferia do mundo árabe e longe dos seus centros culturais na Península.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, o incremento da navegação atlântica decorrente do aperfeiçoamento das técnicas de marear contribuíu significativamente para valorizar a nossa posição geo-estratégica. As explorações no Atlântico, intensificadas a partir do século quinze, traduziram um aproveitamento audaz dessas novas circunstâncias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe-se que, na corte, foram ponderadas três estratégias alternativas de expansão: a) a conquista de Granada; b) a conquista de Marrocos; c) a exploração da costa de África. A primeira foi liminarmente recusada por falta de capacidade financeira. A segunda, ensaiada com a tomada de Ceuta, revelou-se também demasiado ambiciosa. Só a terceira passou na análise custo-benefício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal era então um reino europeu relativamente atrasado, e assim permaneceu no auge do seu império marítimo. O excedente económico gerado por solos pobres não era suficiente para alimentar grandes cidades e uma classe numerosa de artesãos especializados. Por falta de matérias-primas, conhecimentos técnicos e gente qualificada, as melhores naus eram no período áureo do Império construídas na Índia e o país importava canhões em grandes quantidades. Do estrangeiro vinha também grande parte dos marinheiros e artilheiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo as estimativas de Angus Maddison, Portugal tinha em 1500 o mais baixo produto per capita da Europa Ocidental, rondando 80% da média da região. Ao contrário do que usualmente se afirma, não houve nos séculos que se seguiram aos Descobrimentos um fenómeno de decadência económica generalizada, antes períodos alternados de maior ou menor prosperidade. Maddison acredita que em 1820 a nossa distância económica em relação à Europa ter-se-ia degradado muito pouco em relação à de trezentos e vinte anos antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fosso económico entre Portugal e a Europa Ocidental só começou a acentuar-se após a Revolução Industrial, quando um pequeno número de nações europeias se destacou rapidamente do resto do mundo. A primeira metade do século XIX foi um período negro, marcado por uma sucessão de conflitos armados, revoluções e guerras civis que acentuaram dramaticamente o atraso do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminho-de-ferro, o telégrafo e a imprensa tornaram as nossas classes cultas angustiadamente conscientes do atraso nacional na parte final do século, altura em que o produto per capita português já não chegaria a metade do da Europa Ocidental (situação que viria a agravar-se ainda mais até à I Guerra Mundial). “Uma geração inteira acha intolerável que Lisboa não seja Londres e Paris” (Eduardo Lourenço) e desse choque emerge o diagnóstico proposto por Antero de Quental no seu ensaio Causas da Decadência dos Povos Peninsulares – uma narrativa tão poderosa que ainda hoje marca profundamente o modo como os portugueses dos mais diversos quadrantes ideológicos interpretam o seu país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simplificando, Antero propôs no seu livro o regresso ao passado esplendoroso mediante o corte com a cultura jesuítica que enfraquecera a grandeza essencial da pátria. Essa mitologia foi adoptada pelos republicanos e incorporada no hino nacional. O Estado Novo deitou fora a retórica anti-católica, mas reteve e reforçou o saudosismo nacional-imperialista implícito no tema da recuperação da grandeza perdida dos “egrégios avôs”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses permanecem dominados pela ambição de “levantar hoje, de novo, o esplendor de Portugal”. Ora, Portugal nunca foi o país desenvolvido que se imagina, logo o “esplendor” nunca existiu e o propósito carece de sentido. Houve, sem dúvida, uma época em que, mercê de várias circunstâncias, desempenhámos um papel pioneiro no curso da história mundial; e é verdade que o frágil e mutável império marítimo que então construímos nos conferiu, até à perda do Brasil, um peso considerável na política europeia. Mas também a Rússia perseguiu Napoleão até Paris e, muitos anos mais tarde, abriu o caminho à exploração do espaço, sem por isso deixar de ser o país atrasado que era e é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obsessão com a mítica grandeza passada de Portugal é responsável, acredito eu, pela frustração colectiva que nos avassala. A evidente aproximação à Europa Ocidental desde 1945 não pode contentar-nos, porque jamais aceitaremos menos que o primeiro lugar no concerto das nações, a que, por colossal ignorância histórica, julgamos ter direito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fascinante crónica de Azurara mostra-nos que os portugueses de quatrocentos partiram à aventura pela costa africana abaixo guiados não por mirabolantes sonhos de grandeza, mas pelo impulso de ganharem a vida o melhor que sabiam e podiam, e, talvez, fazer fortuna; alguns, transcendendo-se, lograram feitos dignos de serem recordados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais ou menos, afinal, como fazem os portugueses de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 21.10.09)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-3929091805896653336?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/3929091805896653336/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=3929091805896653336' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3929091805896653336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3929091805896653336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/10/o-esplendor-de-portugal.html' title='O esplendor de Portugal'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8183734270264613443</id><published>2009-09-23T21:41:00.000-07:00</published><updated>2009-09-23T21:41:00.611-07:00</updated><title type='text'>O futuro pelo espelho retrovisor</title><content type='html'>“Portugal sem potencial depois desta recessão.” “Crescimento do produto potencial será quase nulo nos próximos anos.” “Fraco potencial condena Portugal a crescimento medíocre”. Títulos deste género são comuns na imprensa portuguesa. Que verdade há neles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O crescimento de uma economia acima de um nível de actividade sustentável pode conduzir a um aumento generalizado dos preços. Por isso, as autoridades responsáveis pela política económica (principalmente, as que cuidam da política monetária) tentam determinar esse “nível sustentável”, a que se dá o nome de “produto potencial”. Quando o produto real é idêntico ao produto potencial não há recursos de capital e trabalho desocupados nem pressão excessiva sobre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O produto potencial não é directamente observável, visto que as estatísticas registam apenas a actividade real. Assim, torna-se necessário estimá-lo recorrendo a alguma forma de tratamento de dados. As técnicas mais elementares recorrem a um mero alisamento das tendências através da computação de médias móveis que atribuem um maior peso relativo às observações mais recentes. As mais complexas, estimam uma função de produção para a economia, a partir da qual se obtém o produto potencial com base em estimativas do stock de capital, do emprego potencial e da produtividade de ambos. Curiosamente, não há muitas vezes grandes diferença entre os resultados produzidos pelas duas classes de métodos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta breve exposição torna claro que o produto potencial é um conceito retrospectivo, não prospectivo. Elucida-nos – melhor ou pior – sobre o que se passou, mas é abusivo usá-lo para projectar tendências futuras, porque nada garante que as condições recentes persistirão. A economia irlandesa viveu longos anos de estagnação após a adesão do país à CEE; depois, a partir de meados dos anos 80, começou a crescer muito depressa, fenómeno que a estimativa do produto potencial fora incapaz de prever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o passado recente é de crescimento lento, o produto potencial tenderá a subestimar a tendência de crescimento futura. Porém, se os agentes económicos tomarem a sério a previsão – que Deus nos defenda! – a retracção do investimento poderá contribuir para gerar uma efectiva estagnação económica. A palavra “potencial” induz naturalmente em erro os leigos, visto poder ser interpretada como uma essência que aguarda ainda a sua plena concretização. Quantas vezes será preciso repetir que não há formas determinísticas de prever o futuro da economia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contabilidade nacional não lida com factos, mas com interpretações, plasmadas em conceitos que se espera sejam úteis para entender a realidade económica. Por decorrência, o cálculo do produto potencial não passa de uma interpretação de interpretações. Para além de depender exclusivamente de observações passadas, ainda por cima sujeitas a frequentes e substanciais revisões, a validade das próprias metodologias utilizadas está longe de ser consensual. Segundo investigadores como van Norden e Orphanides, as técnicas utilizadas são tão pouco fiáveis que as correcções a posteriori da diferença entre produto real e produto potencial não se afastam muito do próprio hiato estimado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A utilidade da estimação do produto potencial é quando muito analítica, visto que nos ajuda a identificar, ao nível macroeconómico, os estrangulamentos que inibiram um melhor desempenho no passado, seja ao nível da quantidade e qualidade do trabalho, da dimensão e orientação do investimento ou da produtividade dos factores – sem esquecer, porém, que essas variáveis usualmente deixam por explicar nada menos que metade da variação observada. No caso português, por exemplo, as principais debilidades identificáveis são a fraca qualidade do investimento público e privado e o bloqueamento da produtividade. Se o Estado e os empresários trabalharem denodadamente para corrigir essas fragilidades, nada impedirá que o país regresse a taxas de crescimento mais satisfatórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entende-se – e, até certo ponto, desculpa-se – que jornalistas pouco versados nas minudências do cálculo do produto potencial cometam a imprudência de anunciar um futuro apocalíptico para a economia portuguesa a partir de dados que não autorizam tais conclusões. Mas deve-se exigir aos economistas profissionais, conscientes das limitações do conceito, que esclareçam as coisas em vez de contribuírem para aumentar ainda mais a confusão dos espíritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Publicado no Jornal de Negócios de 23.9.09.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8183734270264613443?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8183734270264613443/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8183734270264613443' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8183734270264613443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8183734270264613443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/09/o-futuro-pelo-espelho-retrovisor.html' title='O futuro pelo espelho retrovisor'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-4697438438998413537</id><published>2009-08-26T09:12:00.000-07:00</published><updated>2009-08-26T09:16:23.565-07:00</updated><title type='text'>Requiem</title><content type='html'>&lt;em&gt;Mad Men&lt;/em&gt;, a esplêndida série americana que a RTP2 estreou no último dia de Julho centrada na vida numa agência de publicidade nova-iorquina no início dos anos 60, fala-nos de um mundo simultaneamente próximo e distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreendem-nos o chauvinismo, a homofobia, o anti-semitismo e a desigualdade entre os sexos, assumidos sem culpa nem subterfúgios pelos personagens. Era assim o mundo (ou, pelo menos, a América) antes dos Beatles. Menos de uma década depois, Woodstock assinalaria a profundidade das alterações entretanto ocorridas nas sociedades ocidentais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também o mundo do marketing e da publicidade sofreu desde então transformações radicais. &lt;em&gt;Mad Men&lt;/em&gt; começa num momento em que a revolução criativa iniciada por Ogilvy e Bernbach, ainda não tomara conta de Madison Avenue. &lt;em&gt;Sterling Cooper&lt;/em&gt;, a agência fictícia retratada na série, embora não imune às transformações que a rodeavam, regia-se pelos padrões mais convencionais da época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os &lt;em&gt;account executives&lt;/em&gt; controlavam o processo, os &lt;em&gt;copywriters&lt;/em&gt; concebiam as campanhas, os &lt;em&gt;art-directors&lt;/em&gt; estavam às suas ordens e os &lt;em&gt;media planners &lt;/em&gt;limitavam-se a pôr cruzinhas nuns mapas. Os publicitários aplicavam técnicas de venda agressivas. Os clientes confiavam cegamente no poder persuasivo da publicidade. Toda a gente ganhava rios de dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A agência de publicidade é uma das instituições mais originais e intrigantes do capitalismo moderno. A economia é por norma encarada como um sistema eminentemente racional de alocação eficiente de recursos, mas os publicitários presumem o contrário. O progresso é na verdade impulsionado pela fantasia dos consumidores: as pessoas não compram brocas de 5 mm, compram furos de 5 mm; as fábricas produzem cosméticos, mas, nas lojas, as clientes adquirem esperança; as marcas colocam a felicidade ao alcance de todos. Assim, é melhor possuir a marca Coca-Cola do que os activos materiais da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mau-grado toda a retórica sobre a inovação, a vida nas empresas é por regra rotineira. A grande preocupação é fazer as coisas bem feitas e, de preferência, cada vez mais baratas. Privilegia-se a previsibilidade do trabalho organizado. Não assim nas agências, das quais se exige continuamente soluções inovadoras capazes de assegurarem a preferência de consumidores caprichosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gerou-se nos publicitários a partir dos anos 60 a convicção de que as agências vendem acima de tudo ideias criativas e que a única forma de inventá-las em quantidade e qualidade é fomentar um ambiente de trabalho perigosamente caótico (daí a expressão &lt;em&gt;Mad Men&lt;/em&gt;). Foi a era de ouro da publicidade. Com o tempo, porém, o culto da criatividade tomou o freio nos dentes e a reputação das agências ressentiu-se disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não existem hoje agências como a &lt;em&gt;Sterling Cooper&lt;/em&gt;. A pouco e pouco, as diversas actividades que integravam a agência de serviço completo foram sendo separadas, designadamente a lucrativa negociação e compra de espaço. Ademais, a crescente fragmentação dos media (logo, também das audiências) tornou cada vez mais difícil atingir eficientemente o público alvo e contribuíu para minar a fé no poder da publicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos anos recentes, ameaças ainda mais terríveis vieram pôr em causa a comunicação de marketing tradicional. O valor essencial dos mass media assentava no racionamento da oferta de informação e entretenimento, o que, a um tempo, restringia o acesso dos anunciantes ao espaço público e forçava as audiências a assistirem à publicidade. Este modelo desagregou-se passo a passo com a difusão do cabo, e sofreu a machadada final com o advento da internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Blogues, Podcasts, Flickr, YouTube, Twitter e outras ferramentas similares operaram uma colossal transferência de poder no espaço mediático. Não só qualquer um pode agora tornar-se emissor se tiver algo para dizer, como consegue blindar eficazmente o seu espaço privado contra a invasão de mensagens publicitárias. Os cidadãos e os consumidores conquistaram poder e usam-no em função dos seus interesses. Sobra cada vez menos espaço para a publicidade intrusiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente para ele, Dan Draper, o director criativo da &lt;em&gt;Sterling Cooper&lt;/em&gt;, já não tem que se preocupar com nada disto. O mesmo não direi de quem hoje procura ganhar a vida trabalhando em marketing e comunicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Publicado no &lt;a href="http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&amp;id=384040"&gt;Jornal de Negócios&lt;/a&gt; de 26.8.09)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-4697438438998413537?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/4697438438998413537/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=4697438438998413537' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4697438438998413537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4697438438998413537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/08/requiem.html' title='Requiem'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8044518513597209762</id><published>2009-07-30T02:59:00.000-07:00</published><updated>2009-07-31T01:34:51.319-07:00</updated><title type='text'>Pés no chão, cabeça no ar</title><content type='html'>&lt;img src="http://www.am.ub.es/contaminacio-luminica/imatges/euromini.jpg" width=600&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fotografia nocturna da Europa tirada do espaço revela-nos, através das manchas luminosas das grandes aglomerações humanas, a distribuição espacial dos seus habitantes, por sua vez indicativa da localização dos principais centros de produção industrial e de serviços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O núcleo central da Europa, englobando a Alemanha Ocidental, a Holanda, a Bélgica e a região de Paris, prolonga-se a Norte até à Dinamarca, a Sul até ao Norte da Itália e, a Leste, até à Áustria. Ao largo da Europa, a iluminação nocturna sinaliza um conjunto de arquipélagos geo-demográficos mais ou menos próximos do centro. No sentido dos ponteiros do relógio, são eles a Grécia, o Sul da Itália, a Ibéria, a Grã-Bretanha, o Sul da Escandinávia e a Finlândia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal é, do ponto de vista geo-estratégico, uma ilha do arquipélago ibérico, de peso demográfico similar ao de Madrid e da Catalunha, embora mais excêntrica. Somos o país mais periférico da Europa, um sério handicap que, ao longo dos séculos, remetendo-nos para a margem das rotas de mais intensa circulação de pessoas, bens e ideias, prejudicou o desenvolvimento do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deveria, pois, ser óbvia a relevância de tudo o que minimize o ónus da nossa distância física em relação ao núcleo da Europa, quer se trate de estradas, comboios, aviões, telefones ou internet. Tudo isso é preciso, mas não resolve o problema de fundo, porque, apesar das melhorias absolutas que o investimento em comunicações traz consigo, a nossa situação relativa pouco se altera se os outros fizerem esforços semelhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de nos resignarmos a estar no fim de linha, temos que esforçar-nos constantemente por sermos um ponto de passagem obrigatório para outra coisa. Foi isso que fizémos de vários modos ao longo da nossa história: na Idade Média, ligando o Mediterrâneo ao Atlântico, o que explica as relações privilegiadas com a República de Génova e com a Inglaterra; mais tarde, expandindo-nos no Atlântico Sul rumo à África, à América do Sul e à Ásia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um país distante dos centros gravitacionais do poder económico europeu só pode contrariar a sua excentricidade transformando-se numa plataforma (ou hub, como agora se diz) capaz de potenciar a sua articulação com outros centros externos ao Continente. O modo como isso se faz muda continuamente, e, em certas circunstâncias, de forma súbita: situados em corredores de transição de um para outro centro de atracção, os hubs são pontos sensíveis e frágeis das redes mundiais de trocas, sujeitos a perturbações bruscas que, por vezes, os forçam a modificar rapidamente a sua vocação, atravessando com regularidade fases críticas de regressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que não há dúvida, é que um país com estas características tem de ser capaz de pensar a sua inserção estratégica nas redes mundiais de circulação de pessoas, mercadorias, informação e conhecimento. Ora, os instrumentos cruciais para o cumprimento desse propósito são, nos dias que correm, de três tipos: em primeiro lugar, aeroportos, portos e serviços conexos; em segundo lugar, universidades e centros de investigação; em terceiro lugar, infra-estruturas capazes de suportarem uma oferta turística variada, atraente e crescente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem entende isto não faz perguntas absurdas sobre a relevância do investimento em aeroportos, terminais de contentores, comboios de alta velocidade, internet de banda larga, literacia digital ou estradas para a competitividade nacional, nem insiste em avaliar projectos nessas áreas ignorando as correspondentes externalidades com o argumento de que é impossível quantificá-las com rigor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A análise custo-benefício tão cara a alguns economistas obriga à quantificação de ganhos que, pela sua própria natureza, não têm preço. Logo, só fará sentido se previamente nos pusermos de acordo sobre a relevância de certos propósitos para o nosso viver colectivo. Sucede que isso exige a clarificação de um desígnio nacional, isto é, de uma visão do que é necessário fazer para sermos um país viável e próspero. Sem estratégia nacional, não há análise custo-benefício que nos valha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A racionalidade procedimental discute a adequação de certos meios a dados fins, mas nada pode dizer-nos sobre quais deverão ser esse fins. A teoria económica encara-nos como seres objectivos e calculadores, mas todos sabemos que não é assim que funcionam as pessoas inteligentes. Sugiro que, em vez de pormos as pessoas inteligentes a raciocinar como economistas, deveriamos tentar pôr os economistas a raciocinar como pessoas inteligentes, ou seja: com os pés no chão e a cabeça no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(Publicado no &lt;a href="http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&amp;id=380058"&gt;Jornal de Negócios&lt;/a&gt; de 29.7.09) &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8044518513597209762?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8044518513597209762/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8044518513597209762' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8044518513597209762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8044518513597209762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/07/pes-no-chao-cabeca-no-ar.html' title='Pés no chão, cabeça no ar'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8902171351743643650</id><published>2009-06-25T07:46:00.000-07:00</published><updated>2009-06-25T07:49:23.163-07:00</updated><title type='text'>A ciência lúgubre contra-ataca</title><content type='html'>Parece-me pouco convincente o argumento (chamemos-lhe assim) contido no Manifesto dos 28. Eis por quê:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A discussão da situação é unilateral e enviezada. Conhecemos a gravidade dos desequilíbrios económicos internos e externos do país, mas não pode negar-se a dinâmica subjacente que tem vindo a criar condições para superá-los. Ficando-nos pelo essencial, alterou-se drasticamente em muito pouco tempo o padrão das nossas exportações, predominando agora sectores e produtos com mais valor acrescentado e conteúdo tecnológico. Os efeitos da transformação tardaram a evidenciar-se, porque a emergência do novo fez-se acompanhar do rápido afundamento do velho, mas é indiscutível que em 2006 e 2007 as exportações cresceram de forma sustentada acima das importações, evolução que só foi interrompida quando dispararam os preços do petróleo e demais matérias-primas. Tudo indica que Portugal está no bom caminho para resolver os tais desequilíbrios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Os pressupostos da análise estão mal fundamentados. O Manifesto sustenta que a presente crise vai agravar a situação financeira do país, mas isso parece pouco provável. O problema central da escassez de poupança será pelo menos fortemente atenuado, como resulta da queda do consumo ao mesmo tempo que os salários reais aumentam. A brutal contracção do nosso comércio externo implica que o défice das transacções correntes baixará muito em proporção do produto. Logo, cairão as necessidades de financiamento externo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Em Portugal, como em todo o Mundo, as empresas e as famílias reagiram à incerteza retraindo o investimento e o consumo e, assim, aumentaram muito as suas poupanças. Logo: a) não haverá nos próximos tempos falta de fundos disponíveis para investir; b) só o investimento público poderá travar o agravamento da crise. É absurdo pretender-se que, nestas circunstâncias, o investimento público poderá prejudicar o privado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Uma enumeração de sintomas não é um diagnóstico. Em resumo, eis o meu: O modelo económico que emergiu em Portugal nos anos 50 do século passado entrou em decadência. Os fundos europeus camuflaram o seu esgotamento, de modo que a transformação só se iniciou quando as nossas empresas sofreram em cheio a concorrência dos países do Leste europeu e da China. Como, entretanto, o país se privara de boa parte dos tradicionais instrumentos de política monetária, não houve outro remédio senão aguardar que a reorientação empresarial para novos produtos e novos mercados se concluísse, procurando entretanto minorar os danos políticos e sociais. A crise orçamental foi um mero epifenómeno deste processo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. É absurdo basear-se uma estratégia para o país na enumeração de vulnerabilidades. Uma estratégia constrói-se a partir de oportunidades, forças, capacidades, competências e recursos existentes. O que quer que venhamos a fazer resultará decerto da potenciação daquilo que de positivo já existe ou está a emergir. Todavia, os subscritores do Manifesto do 28 parecem só conhecer o país através da Contabilidade Nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. É falacioso pretender-se que, se no passado se errou nos investimentos públicos, isso prova que eles não são necessários para melhorar a competitividade. Não podemos julgar os projectos presentes pela eventual mediocridade dos passados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. A competitividade de um país periférico, ainda por cima de vocação turística, é muito condicionada pela qualidade das suas ligações rodoviárias, ferroviárias, aéreas e portuárias ao resto do Mundo e, antes de mais à Europa. A necessidade do novo aeroporto de Lisboa não depende da evolução recente da procura, porque ele já se encontra congestionado há anos, provocando a degradação da qualidade do serviço percebida pelos passageiros internacionais. O mesmo se passa na linha do Norte, cuja capacidade não permite aumentar a frequência e a velocidade das múltiplas composições inter-regionais, regionais e suburbanas que nela circulam. Precisamos urgentemente duma nova ligação Lisboa-Porto que, já agora, convirá que seja de alta velocidade. A evolução dos preços da energia torna a decisão mais premente. Tudo factos que não se lêem na Contabilidade Nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. Pede o Manifesto dos 28 que o programa de investimentos públicos seja submetido ao escrutínio de um painel de técnicos independentes. Ora a avaliação custo-benefício, exigida por pessoas que nunca a ela recorreram quando desempenharam cargos governativos de relevo, implica a atribuição de valores monetários a coisas que não têm um preço, como sejam a vida humana ou a protecção do ambiente. Logo, tem implícitas preferências de todo o género, a que em rigor só se pode chamar prioridades políticas. Por que deveremos nós delegar num grupo de alegadas sumidades uma tal responsabilidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O receio de decidir e agir é um traço de personalidade associado à improdutividade. Os autores do Manifesto justificam a inacção com a necessidade de se pensar melhor sobre o assunto, mas, pela amostra, a qualidade da reflexão também não se recomenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Artigo publicado no Jornal de Negócios de 25 de Junho de 2009.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8902171351743643650?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8902171351743643650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8902171351743643650' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8902171351743643650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8902171351743643650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/06/ciencia-lugubre-contra-ataca.html' title='A ciência lúgubre contra-ataca'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-3694484914065169522</id><published>2009-05-27T07:44:00.000-07:00</published><updated>2009-05-27T07:45:54.281-07:00</updated><title type='text'>Friedman, responsabilidade, caridade e faz de conta</title><content type='html'>Milton Friedman afirmou repetidas vezes que a única responsabilidade social das empresas é a maximização do lucro. Recordá-lo nos tempos que correm em nada contribui para melhorar a sua já muito abalada reputação. Ou não será bem assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A responsabilidade social ameaça tornar-se numa exigência incontornável a que nenhum gestor civilizado pode furtar-se sob pena de proscrição. As empresas contemporâneas, diz-se, não devem refugiar-se na preocupação com a rentabilização dos seus negócios, fechando os olhos aos problemas que ameaçam a humanidade e o planeta, entre eles a degradação ambiental e a persistência de desigualdades gritantes neste mundo que partilhamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como decidir, porém, no meio de tanta desgraça que afecta a humanidade – incluindo as guerras, a carência de água potável ou a poluição atmosférica – em que domínios deverá uma empresa responsável concentrar as suas atenções? Assim que se coloca esta pergunta, logo se revelam as insuficiências do conceito mais corrente e ingénuo de responsabilidade social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na prática, constata-se que as empresas tendem a subsumir sob a designação de responsabilidade social coisas muito diferentes. Para algumas, trata-se de procurar fazer o bem apoiando uma qualquer causa digna de admiração; para outras, apenas de construirem uma reputação assente em iniciativas cosméticas divulgadas através de vistosas acções publicitárias. Em ambos os casos, o resultado é por regra muita parra e pouca uva, ou seja, um escassíssimo impacto social daquilo que se faz e uma opinião pública cada vez mais desconfiada da sinceridade de tais propósitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Necessitamos, pois, de um pensamento mais sólido, que não só recuse o aproveitamente interesseiro das misérias do mundo como vá para além da mera filantropia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda e qualquer empresa existe porque de alguma forma contribui para o bem-estar de alguns ou de muitos cidadãos. Logo, é no satisfatório desempenho dessa missão de forma economicamente eficiente que acima de tudo consiste a sua responsabilidade social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucede, porém, que a produção de bens frequentemente acarreta a involuntária produção de alguns “males”, de que a poluição é o exemplo mais evidente. Uma empresa responsável não pode alhear-se dos impactos negativos decorrentes da sua actividade, pelo que lhe caberá, na medida do possível, eliminá-los ou minorá-los. Trata-se de uma forma de responsabilidade social mínima, a que também pode chamar-se reactiva ou defensiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas deverão elas ficar-se por aí? A actividade específica de uma empresa traduz-se muitas vezes em impactos positivos externos altamente relevantes sobre certos aspectos particulares da economia, da sociedade ou do ambiente, os quais, por sua vez, criam, por meio de um feedback positivo, condições mais favoráveis ao desenvolvimento do seu próprio negócio. Entre essas externalidades benéficas contam-se a consolidação de certas qualificações profissionais, o fomento da investigação científica, o upgrading dos fornecedores, o apoio a indústrias nascentes, etc. Logo, em vez de se limitar a corrigir impactos negativos, talvez faça sentido que uma empresa tente alavancar esses impactos positivos tendo em vista multiplicar os seus efeitos futuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário da perspectiva tradicional, este conceito mais exigente de responsabilidade social articula-se logicamente com a estratégia competitiva da empresa. Não assenta numa vaga e bem-intencionada filantropia, mas numa visão esclarecida dos interesses da empresa a longo prazo, orientada para a melhoria das condições da procura, do recrutamente de colaboradores, do acesso a equipamentos e materiais ou da cooperação com entidades públicas e privadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em conclusão, Friedman terá errado ao ignorar a responsabilidade das empresas em relação às externalidades negativas decorrentes da sua actividade. Mas há mérito na sua exigência de pensar a responsabilidade social no quadro dos propósitos de longo prazo de instituições que forçosamente têm que pautar os seus actos pelas exigências da racionalidade económica. Sem isso, ela dificilmente passará de caridade mal entendida ou de cínico faz de conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Artigo publicado no &lt;a href="http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&amp;id=370014"&gt;Jornal de Negócios&lt;/a&gt; a 27 de Maio de 2009)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-3694484914065169522?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/3694484914065169522/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=3694484914065169522' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3694484914065169522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3694484914065169522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/05/friedman-responsabilidade-caridade-e.html' title='Friedman, responsabilidade, caridade e faz de conta'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-7878411700427435988</id><published>2009-04-29T08:26:00.000-07:00</published><updated>2009-04-29T08:30:06.403-07:00</updated><title type='text'>Trabalhar para as estatísticas</title><content type='html'>As gerações actuais devem ter dificuldade em acreditar que houve um tempo em que a discussão política não se centrava nas convoluções do PIB, mas essa é a mais pura das verdades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para começar, os sistemas de contabilidade nacional hoje usados foram inventados há apenas 70 anos. Antes disso, ninguém sabia ou cuidava de saber a variação homóloga da produção no último trimestre. Uma vez generalizado o método de medição, demorou ainda algum tempo (e muita lavagem ao cérebro) até que a opinião pública o aceitasse sem reservas como uma razoável aproximação do bem-estar colectivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, porém, poucos contestam a bondade do PIB como critério supremo de avaliação da acção política. Estamos a crescer mais ou menos? Acentuou-se ou reduziu-se a distância em relação aos outros países? A América é mais dinâmica do que a Europa? E o governo estimula ou tolhe o PIB?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transformar a soma de batatas com cebolas numa operação razoável foi um feito notável dos economistas, cuja relevância depende, todavia, da aceitação da equivalência entre acumulação de bens materiais e felicidade. Como toda a obra humana, também este felicitómetro tem os seus defeitos: o produto nacional aumenta se eu contratar uma mulher a dias, mas reduz-se, contra toda a evidência, se eu me casar com ela. É assim porque a contabilidade valoriza as transacções monetárias e desdenha as que não envolvem dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais complicado ainda é computar a riqueza gerada quando, ao contrário do que há escassas décadas sucedia, uma grande maioria da população não produz hoje nem batatas nem pregos, mas serviços intangíveis. O engenho dos economistas logrou, porém, superar essas e outras dificuldades de natureza mais técnica. Pelo menos, é assim que pensam os crentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terão razão? A produtividade da UE é, dizem-nos as estatísticas, superior à dos EUA. Porém, como os americanos trabalham em média mais horas, o produto per capita deles é maior que o dos europeus, de onde decorre que eles são mais felizes do que nós. Este raciocínio absurdo explica-se pelo facto de o lazer não ser valorizado por este sistema: trabalhar mais é sempre bom, independentemente das consequências que isso tenha sobre a saúde psicológica e mental dos indivíduos e das famílias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais: para a contabilidade nacional, um euro é um euro, sem interessar quem o recebe. Está aqui implícito que a desigualdade não afecta a felicidade dos cidadãos, embora nós saibamos (e a teoria económica o confirme) que um euro adicional proporciona mais felicidade a um pobre do que a um rico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos tempos longínquos em que o ensino público básico gratuito foi introduzido na Europa, a poucos interessava que isso pudesse eventualmente contribuir para aumentar a produtividade da população. O benefício esperado da educação era, primeiro, a própria educação e, segundo, a promoção da cidadania. Hoje, porém, não só os investimentos na educação, mas também na cultura, na saúde e, mais recentemente, na própria justiça, são olhados com desconfiança se não contribuírem de alguma forma para promover a competitividade das empresas e do país. Tudo o que pareça incomodar o PIB estará ipso facto tramado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a Deus – há-de haver por força algo de divino nisto - alguma investigação económica parece sugerir que aquilo que é bom para as pessoas acaba mais tarde ou mais cedo por revelar-se bom para a economia. Não sei, todavia, se poderemos ficar tranquilos, dado que, segundo Fogel (Nobel da Economia em 1993), a escravatura era um regime de trabalho eficiente à data da sua abolição nos EUA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz sentido que privilegiemos o objectivo de produzir mais e mais coisas quando a esmagadora maioria dos cidadãos vive na pobreza absoluta, mas as prioridades deveriam ir-se alterando à medida que a carência extrema se reduz e que outros factores se revelam mais decisivos para a promoção da dignidade humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem o PIB nem qualquer outro indicador sintético é capaz de, isoladamente, elucidar-nos sobre o grau de bem-estar de uma sociedade. Para isso, precisamos de uma pluralidade de metas variáveis em função das circunstâncias e dos desafios do momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que, nesta era obcecada pela quantificação (mesmo que espúria), estamos condenados a trabalhar para as estatísticas, ao menos que seja para aquelas que mais interessam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Artigo publicado no &lt;a href="http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&amp;id=365536"&gt;Jornal de Negócios&lt;/a&gt; de 29.4.09)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-7878411700427435988?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/7878411700427435988/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=7878411700427435988' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/7878411700427435988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/7878411700427435988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/04/trabalhar-para-as-estatisticas.html' title='Trabalhar para as estatísticas'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8976245674801666923</id><published>2009-04-01T08:28:00.000-07:00</published><updated>2009-04-02T03:48:54.254-07:00</updated><title type='text'>Pôr a casa em ordem</title><content type='html'>Que mundo nos espera nos próximos anos? É mais fácil prever o que já aconteceu, de modo que vamos começar por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o sistema financeiro global em estado catatónico, não há crédito nem para as empresas nem para as famílias, as quais reagem adiando as despesas e aumentando as poupanças como precaução contra o que pode vir a caminho. Tal reacção, já se sabe, só torna as coisas piores. Não admira, pois, que as estatísticas que de todo o mundo nos vão chegando mostrem uma quebra abrupta do comércio internacional e do emprego a partir de finais de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não teria forçosamente que ser assim, mas a falta de vontade de exercer o poder, nuns casos, ou a própria ausência de centros capazes de exercê-lo, noutros, trouxe-nos até aqui. O pior cenário parece em vias de concretizar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se somarmos a isto a persistência de colossais desequilíbrios financeiros à escala mundial, não será de espantar que a presente recessão venha a durar anos e não meses. A economia portuguesa pode por isso contar com uma mudança duradoura do contexto internacional, caracterizada pelo recuo da globalização, pela incerteza generalizada e  pela quebra da confiança nas empresas e nas instituições. Caso se acentue o reflexo proteccionista já notório aqui e acolá, pequenas economias abertas como a nossa não poderão deixar de ser seriamente afectadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais natural, nestas circunstâncias, é que as pessoas procurem refúgio junto daquilo que lhes está mais próximo e que, também por isso mesmo, se lhes afigura mais seguro. O mesmo sucederá porventura com as empresas. A confirmar-se a tendência, assistiremos durante algum tempo a uma viragem das economias para dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mesmo modo que nos últimos anos nos preocupámos com a competitividade externa, deveremos agora focar-nos na competitividade interna, principalmente nos sectores de bens não-transaccionáveis que tão avessos se têm revelado à renovação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A protecção de que tais actividades gozam em relação à concorrência internacional é em boa medida responsável pelos lamentáveis níveis de qualidade e eficiência que entre nós exibem. Directamente, essa situação prejudica os cidadãos e os consumidores; indirectamente, degrada as condições de competitividade externa das empresas exportadoras, obrigadas a suportar os custos de contexto que lhe estão associados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Políticas públicas adequadas, envolvendo entre outras fomento da concorrência, regulamentação exigente, investimento estatal e reorganização dos mercados públicos, podem e devem contribuir para uma transformação positiva do panorama actual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sectores de bens não-transaccionáveis abrangem uma variedade de actividades públicas e privadas, dentre as quais se destacam algumas que poderão vir a desempenhar um papel central na economia renovada pós-recessão. Tal é o caso, por exemplo, dos cuidados de saúde, da educação nos seus diversos graus, da renovação urbana, dos transportes públicos, das energias renováveis e, em geral, da protecção do ambiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se trata, note-se bem, de desistir dos mercados externos ou de menosprezar a sua importância para o nosso desenvolvimento. Bem pelo contrário, sendo a baixa produtividade dos sectores de bens não-transaccionáveis um dos calcanhares de Aquiles da nossa economia, é claro que a sua renovação se constitui ela própria numa poderosa alavanca da nossa competitividade externa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é bem evidente, por exemplo, no caso do turismo. Uma actividade que consiste em importar temporariamente gente com dinheiro para vir cá gastá-lo só tem a lucrar com a melhoria da qualidade das cidades e do ambiente, com a qualificação dos transportes públicos e com serviços de saúde de nível internacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crise internacional obriga todos os países a virarem-se por algum tempo para dentro em virtude da quebra abrupta do comércio internacional. Aproveitemos a circunstância para pôr a casa em ordem, impondo novos padrões de exigência a actividades que, apesar de cruciais para a revitalização da nossa economia, se têm dado ao luxo de permanecer à margem das transformações que delas temos o direito de esperar. Mas criemos também incentivos capazes de estimulá-las e acelerá-las.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8976245674801666923?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8976245674801666923/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8976245674801666923' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8976245674801666923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8976245674801666923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/04/por-casa-em-ordem.html' title='Pôr a casa em ordem'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-4166689687071655441</id><published>2009-03-05T03:11:00.000-08:00</published><updated>2009-03-05T03:12:24.179-08:00</updated><title type='text'>O fracasso da União Europeia low-cost</title><content type='html'>Meia dúzia de anos de prosperidade na Europa do Leste bastaram para certos economistas, sempre mais lestos a proclamar milagres do que o Vaticano, apontarem as políticas económicas lá adoptadas como modelos de sensatez a seguir pelo resto do Continente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vemos agora que a primeira contrariedade séria ameaça fazer desmoronar as frágeis economias sem rede dos países do Leste, situação tanto mais grave quanto é facto que os Estados mínimos que por lá foram edificados não estão em condições de oferecer o necessário amparo aos cidadãos mais atingidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Povos desconhecedores dos perigos da sofisticação financeira orquestrada por trampolineiros sem escrúpulos endividaram-se em euros ou francos suíços, sem suspeitarem do que poderia acontecer no dia em que as suas moedas sofressem as drásticas desvalorizações que agora parecem inevitáveis. Conhecendo-se o elevado grau de exposição de muitos bancos ocidentais (e principalmente dos austríacos) às economias do leste, teme-se que, por efeito dominó, toda a economia da União Europeia seja arrastada para um abismo cuja profundidade desconhecemos. Eis-nos então chegados à parte pior do drama, aquela em que de súbito descobrimos que o navio está no meio da tormenta sem ninguém ao leme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo de quase duas décadas, os países da União Europeia alienaram progressivamente os instrumentos de gestão das suas economias. Muitos de nós acreditámos, na nossa santa ingenuidade, que teria ocorrido uma genuína transferência de poderes para o centro, mas nada disso se passou. Como o aprofundamento da união política foi sempre preterido em favor do alargamento a mata-cavalos, as políticas económicas nacionais não foram substituídas por políticas económicas europeias, de forma que o que hoje sobra é o vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Banco Central Europeu é um original exercício de humor negro, combinando a máxima independência com a mínima preocupação em relação ao crescimento e ao emprego. A política orçamental comunitária pura e simplesmente não existe, excepto para quem acha que o incentivo à concorrência fiscal entre países membros merece esse nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o estado mínimo em todo o seu esplendor, ou seja uma União Europeia de má qualidade mas baratinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acresce que a União é hoje governada por gente que não presta – nem pessoal, nem política, nem tecnicamente -;  gente despreocupada com as suas responsabilidades perante os cidadãos; gente destituída de ideais europeus e de instinto de solidariedade; gente que, numa palavra, não sabe o que anda a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada nova cimeira agrava o sentimento de angústia dos europeus. No último domingo, no final do encontro dos chefes de governo da União, soubemos que, por um lado, os problemas do leste serão tratados caso a caso, e que, por outro, a via para a saída da crise é o Mercado Único. Ora, pense-se o que se pensar do Mercado Único, é descabido apresentá-lo como uma política anti-recessão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesma ocasião, foram liminarmente recusadas as propostas cada vez mais insistentes de elaboração de um plano europeu coordenado de intervenção financiado pela emissão de obrigações europeias. De modo que aqui estamos todos, sentados sobre as mãos, à espera que os especuladores cumpram o seu dever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo das duas últimas décadas as economias internacionalizaram-se, mas os poderes políticos permaneceram confinados ao plano nacional. Daí o progressivo esvaziamento dos poderes públicos dos estados-membros da União, permitindo que os poderes fácticos dos mercados e das finanças se emancipassem de qualquer tutela minimamente eficaz. Sendo evidente a crescente impotência dos políticos nacionais, alastram em paralelo no Continente o desinteresse dos cidadãos pela participação democrática e o populismo mediático desbragado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da extensão do desastre, persiste uma tenaz resistência à correcção dos flagrantes erros que nos conduziram a este imbróglio. Em ano de eleições para o Parlamento Europeu, devemos prestar a máxima atenção ao que os partidos têm para nos dizer a este respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se de uma oportunidade única de liquidar a União Europeia &lt;em&gt;low-cost&lt;/em&gt;. Há coincidências temporais felizes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-4166689687071655441?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/4166689687071655441/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=4166689687071655441' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4166689687071655441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/4166689687071655441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/03/o-fracasso-da-uniao-europeia-low-cost.html' title='O fracasso da União Europeia low-cost'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-79800755837652906</id><published>2009-02-04T13:43:00.001-08:00</published><updated>2009-02-04T13:43:47.946-08:00</updated><title type='text'>Quanto vale uma empresa?</title><content type='html'>Quando, nos primeiros anos da sua vida profissional, trabalhava numa sociedade de investimento londrina, Peter Drucker tinha um colega que se ocupava exclusivamente na compra e venda de acções da General Motors. Um dia, Drucker deixou-lhe em cima da secretária um recorte de um artigo sobre o futuro da indústria automóvel. "Por que é que me puseste isto aqui?", perguntou-lhe o outro na manhã seguinte. E foi então que Drucker descobriu que ele ignorava que a General Motors era uma empresa automóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suponho que esta situação seria hoje impensável, mas constato que, amiúde, muitos traders pouco sabem sobre as empresas cuja compra ou venda recomendam. Esta ignorância revelou-se de forma evidente na actual crise financeira, quando empresas há escasso tempo incensadas como casos de sucesso revelaram, afinal, uma espantosa fragilidade. Quanto vale de facto uma empresa, e o que é preciso saber sobre ela para avaliá-la com rigor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem acredite que uma empresa vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ela. Logo, se estiver cotada na Bolsa, é muito fácil tirar-se uma conclusão. Sucede, porém, que a capitalização bolsista varia de dia para dia, para não dizer de minuto para minuto. Haverá alguma base sólida que nos permita perscrutar para além dessas constantes flutuações?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como aos investidores interessa sobretudo o rendimento que poderão extrair do seu capital, é natural que avaliem uma empresa pela perspectiva da sua rentabilidade futura. A estimativa rigorosa do valor de uma empresa depende, pois: a) da correcta determinação da rentabilidade actual; e b) do entendimento dos factores capazes de fazê-la crescer ou diminuir num horizonte longo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como pode isso ser feito? Quase toda a gente concorda que, no século XXI, a capacidade de criar valor se encontra estreitamente relacionada com o investimento em activos intangíveis como a propriedade intelectual, as competências dos colaboradores, as estruturas organizacionais ou o relacionamento com os clientes. Segundo algumas estimativas, a contribuição desses activos para o valor das empresas situar-se-á hoje entre os 60 e os 80%. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torna-se por isso indispensável um conhecimento rigoroso do que elas fazem nessas áreas.&lt;br /&gt;Curiosamente, os relatórios anuais contêm pouquíssima informação a esse respeito. Tem-se argumentado que basear a avaliação de uma empresa no seu investimento em intangíveis equivale a valorizá-la pelos seus custos, quando, afinal, o que interessa não é o que se gasta, mas o proveito que se retira do investimento. Não se pode negar fundamento a essa objecção, de modo que precisamos de metodologias alternativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regressando a Peter Drucker, ele entendia que uma empresa é antes de mais uma coisa que tem clientes. Sem clientes pode haver edifícios, máquinas e trabalhadores, mas não há negócio. Com clientes, porém, sempre haverá alguém disposto a emprestar o dinheiro necessário para se montar uma empresa. A verdade é que dentro de uma empresa só há custos: todas as receitas provêm dos seus clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo, faz sentido pensar-se que o valor de uma empresa é o valor da sua base de clientes, e que os indutores desse valor são a sua capacidade para atrair novos clientes e reter os existentes. Ora, uma recente linha de investigação iniciada por académicos como Sunil Gupta e Donald Lehmann aplicou esta intuição à avaliação de empresas e confirmou a sua relevância prática. Esta metodologia tem ainda a vantagem adicional de nos permitir entender como é que os investimentos realizados concorrem ou não para aumentar o valor da base de clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vão buscaremos nos relatórios publicados pelas empresas a informação necessária para confirmarmos se a sua actuação é ou não de molde a melhorar a rentabilidade da base de clientes. Que produtos se propõem lançar? A que mercados se dirigem? Como se comparam com os da concorrência? Que níveis de satisfação geram? Quantos clientes foram perdidos e porquê? E, acima de tudo, qual o valor de longo prazo da base de clientes por segmentos e o que está a empresa a fazer para aumentá-lo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns gestores responderão que essa informação não pode ser publicamente revelada sob pena de pôr em risco a vantagem competitiva das empresas. O certo, porém, é que, quando esta crise acabar, os investidores vão querer saber muito mais do que no passado sobre o que é feito com o seu dinheiro. As sociedades anónimas terão que resignar-se a divulgar informação mais relevante sobre os seus negócios como uma contrapartida indispensável do direito a gerirem os capitais que o público lhes confia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-79800755837652906?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/79800755837652906/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=79800755837652906' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/79800755837652906'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/79800755837652906'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/02/quanto-vale-uma-empresa.html' title='Quanto vale uma empresa?'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-620951041161886870</id><published>2009-01-07T03:18:00.000-08:00</published><updated>2009-01-13T04:35:53.381-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='regulação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sociedade anónima'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Adam Smith'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Darien Scheme'/><title type='text'>Como dar cabo de um país</title><content type='html'>Nos últimos anos do século XVII, William Patterson, um financeiro que estivera envolvido na criação do Banco de Inglaterra, concebeu um grandioso esquema – o “Darien scheme – para estabelecer uma colónia escocesa no istmo do Panamá (Darien, para os escoceses) destinada a controlar todo o comércio em trânsito terrestre do Atlântico para o Pacífico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Companhia da Escócia começou por angariar fundos em Londres, mas o governo inglês, receando a concorrência que o projecto faria à Companhia das Índias Orientais, opôs-se à ideia. A Companhia teve então que virar-se para o mercado doméstico de capitais, onde não teve dificuldade em angariar 400 mil libras em poucas semanas (o equivalente a 40 milhões de libras na actualidade). O entusiasmo em torno do projecto era tal que toda a gente na Escócia – rica, pobre e remediada – se endividou para comprar acções da Companhia, cujo activo equivalia a metade de todo o capital disponível no país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Julho de 1698 partiu para o Panamá a primeira expedição, que integrava 5 navios e transportava 1.200 pessoas. A tragédia foi fulminante: o clima inóspito e as doenças rapidamente dizimaram um bom número de colonos; de modo que, após ser-lhes negada ajuda pelas colónias inglesas da América, o estabelecimento foi abandonado em Julho de 1699. Entretanto, como na época não havia telefone nem internet, uma segunda expedição vinha a caminho com mais 1.200 pessoas, tendo sofrido igual destino. No final, regressou à pátria um navio com 30 sobreviventes. Em resultado, a Companhia da Escócia viu-se arruinada e, com ela, toda a nação. Aparentemente, nenhum dos promotores do empreendimento tinha a mínima ideia das condições reais do local onde haviam persuadido um país inteiro a aplicar somas colossais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1707, uma Escócia exangue resignou-se a assinar o Acto de União com a Inglaterra. Em compensação, a Inglaterra acordou pagar aos investidores da Companhia 398 mil libras. Por outras palavras, o país foi vendido. Só em 1999, três séculos mais tarde, a Escócia conseguiu recuperar o seu Parlamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época, o ódio popular incidiu mais sobre os ingleses do que sobre os promotores do Darien Scheme, apesar da evidente estupidez do projecto e da colossal insensatez dos seus líderes, que não hesitaram em mobilizar uma nação inteira para investir em algo cuja viabilidade jamais fora suficientemente investigada. No final, os investidores recuperaram melhor ou pior o seu dinheiro; mas milhares de pessoas perderam a vida e o país a sua independência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta tragédia não foi um caso isolado. A história das origens da sociedade anónima de responsabilidade limitada é uma enciclopédia da fraude, cujos pontos altos foram a Companhia do Mississípi e a Companhia dos Mares do Sul. Com tanta trapaça, o Parlamento inglês decretou a sua proibição em 1720.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adam Smith condenava em 1776 as sociedades anónimas por concederem a uma clique a possibilidade de manipular a maioria dos investidores e conquistar um poder desmesurado sobre a economia e o Estado. Como conseguiram então sobreviver e disseminar-se elas apesar de um currículo tão negativo e de opositores tão influentes? A má razão é que isso interessava aos poderosos endinheirados; a boa, que, fora o Estado, só elas estão em condições de canalizar pequenas poupanças para volumosos investimentos em actividades que beneficiam de grandes economias de escala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo que uma espécie de contrato social instituiu a tolerância da sociedade anónima a troco da sua sujeição a uma regulamentação apertada. Ainda assim, foi só em 1900 que, por entre acusações de socialismo, a lei inglesa impôs, por exemplo, a obrigatoriedade de apresentação aos accionistas de contas auditadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sucessos recentes na Islândia recordam-nos que, ainda hoje, é possível os desmandos de aventureiros descontrolados levarem um país à ruína. Mas os estudantes de economia são poupados ao conhecimento de eventos como o relatado, não vá dar-se o caso de ficar abalada a sua confiança nas teorias muito limpinhas que lhes explicam como as economias funcionam. É muito mais conveniente fazê-los crer que tudo se resume a encontrar o ponto de intersecção da oferta e da procura, ignorando a importância das relações de poder na determinação do resultado final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos há séculos que as sociedades anónimas se prestam a toda a espécie de abusos quando a sua actuação não é convenientemente regulada. Em casos extremos, podem semear a miséria e arruinar países. Mas foi preciso chegarmos junto ao abismo para esta verdade ser recuperada e reconhecida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-620951041161886870?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/620951041161886870/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=620951041161886870' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/620951041161886870'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/620951041161886870'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2009/01/como-dar-cabo-de-um-pas.html' title='Como dar cabo de um país'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-6670527249285942325</id><published>2008-12-10T08:23:00.001-08:00</published><updated>2009-01-13T04:36:38.327-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='investimento público'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='custo-benefício'/><title type='text'>Delírios da razão calculadora</title><content type='html'>Seria o Velho do Restelo um economista? Não é provável: se ele exercesse a ciência lúgubre, decerto fundamentaria o seu ponto de vista numa análise custo-benefício. Ou seja, teria imputado um valor monetário tanto aos ganhos como às despesas decorrentes da descoberta do caminho marítimo para a Índia para tentar apurar se o saldo global seria positivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A análise custo-benefício parece, à primeira vista, uma ferramenta útil para a avaliação dos méritos do investimento público. As dificuldades surgem, porém, logo que se tenta atribuir um valor a algo que não se encontra à venda no mercado, como seja a vida humana. A resposta dos economistas é, porém, simples: o valor de uma pessoa será igual ao fluxo actualizado dos seus rendimentos futuros esperados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, a administração Clinton fixou o valor médio de uma vida humana em 6,1 milhões de dólares, mas a de Bush baixou-o para 3,7 milhões. As dificuldades agravam-se quando se tenta atribuir um valor a coisas como a soberania nacional, de modo que exige-se uma análise custo-benefício para avaliar a bondade de um sistema nacional de saúde, mas prescinde-se dela para declarar guerra ao Iraque. Precisamos de análises custo-benefício para salvar vidas, mas não para eliminá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu quiser investir numa fábrica de chuchas para bébés, conseguirei calcular sem grande dificuldade os custos fixos e variáveis relativos ao projecto; mas só Deus sabe se alguma mãe comprará uma só das minhas chuchas. Algo semelhante sucede com os investimentos públicos, numa escala tanto maior quanto mais complexos, mais inovadores e mais prolongados no tempo eles forem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez inaugurada a ponte 25 de Abril, tornou-se evidente ter sido correcta a decisão de construí-la; antes, porém, ninguém poderia estimar ao certo o tráfego rodoviário que diariamente a atravessaria. Do mesmo modo, são altamente falíveis todas as previsões de que dispomos em relação ao número de passageiros que daqui a dez, vinte ou trinta anos optarão por viajar de TGV entre Lisboa e Madrid ou entre Lisboa e Porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como evoluirá num horizonte longo o preço do petróleo e como influenciará ele as escolhas de modos de transportes? Que iniciativas tomarão os governos para dissuadir o consumo de combustíveis fósseis? Quais serão os preços relativos das diversas alternativas de transporte entre aquelas cidades? Que complementaridades adicionais poderá o TGV criar entre elas? Eis algumas – apenas algumas – das questões que podem influenciar a procura efectiva dirigida a essas linhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo que, quando se diz que a linha de TGV Lisboa-Madrid transportará por ano 9 milhões de passageiros dever-se-ia mencionar também o intervalo que separa a previsão mais pessimista da mais optimista. Mas, se a margem de indeterminação se situar, digamos, entre os 5 e os 12 milhões de passageiros, tornar-se-á evidente que necessitaremos de um critério adicional para avaliar a bondade do investimento. Que eventualidade será mais grave: a) construir o TGV e constatar a posteriori que a procura é insuficiente; ou b) não o construir e descobrir que, por causa disso, o país se tornou ainda mais periférico no contexto europeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que umas continhas nunca fizeram mal a ninguém. No mínimo, quando conduzidas com rigor, ajudam a balizar o terreno em que nos movemos e, logo, a avaliar a dimensão do risco. Mas é um erro acreditar-se que esse exercício nos dispensa de introduzir no raciocínio uma componente valorativa. A prioridade que algumas pessoas concedem ao objectivo estratégico de integrar o país nas redes europeias de transportes prende-se com uma ideia do modo como as suas principais áreas metropolitanas devem encaixar-se no desenho geral da economia ibérica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dir-se-á que, se assim se desejar, tais considerações poderão também ser integradas numa análise custo-benefício, mas então desvanecer-se-á a pretensa objectividade apolítica do exercício que seria, supostamente, a sua grande vantagem. Vale isto por dizer que a análise custo-benefício dos projectos de investimento público não dispensa a explicitação de uma estratégia de desenvolvimento para o país. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O investimento público funciona melhor na prática que na teoria. Passa-se o inverso com a análise custo-benefício. Nem sequer é seguro, aliás, que os benefícios da análise custo-benefício excedam sempre os seus custos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-6670527249285942325?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/6670527249285942325/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=6670527249285942325' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/6670527249285942325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/6670527249285942325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/12/delrios-da-razo-calculadora.html' title='Delírios da razão calculadora'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-5812937455124767360</id><published>2008-11-13T07:57:00.000-08:00</published><updated>2009-01-13T04:37:55.549-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='avaliação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desempenho'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='professores'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='auto-regulação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='incentivos'/><title type='text'>Uma coisa de cada vez</title><content type='html'>Nunca conheci um sistema de avaliação do desempenho que não desse lugar a resistências e recriminações. Nunca vi um que não comportasse sérios defeitos e injustiças. Nada disso, porém, desmente a sua utilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema é árduo, especialmente tratando-se de serviços públicos complexos prestados por profissionais qualificados como a saúde ou a educação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A avaliação surge por regra associada a incentivos concebidos para induzir comportamentos orientados para os objectivos de uma organização. A presente ausência de avaliação dos professores é consistente com um modelo de emprego garantido e progressão automática em que toda a gente chega ao topo da carreira independentemente da sua contribuição individual para a qualidade do ensino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sistema assim é ingovernável, dada a quase total ausência de instrumentos que permitam conduzir a educação no sentido desejado. Precisamos, por isso, de objectivos claros, de incentivos apropriados e de uma avaliação eficaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-se, por vezes, que os professores e as escolas são auto-motivados, e há aí uma parte de verdade. O conceito de comunidade escolar não é (embora na boca de certos dirigentes sindicais possa parecê-lo) uma ficção hipócrita. A motivação dos professores resulta em larga medida da estima dos pares, do desenvolvimento profissional e da sensação de pertença a um grupo de pessoas irmanadas num mesmo propósito – em suma, de uma cultura partilhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucede, porém, que a comunidade escolar não pode nem deve viver em roda livre. Ela tem por força que prestar contas perante os alunos, as famílias e o país (representado pelo governo) e é aqui que entra o tema da avaliação. Para que as coisas melhorem, as normas internas de auto-regulação (as únicas que agora existem) têm que ser complementadas com normas externas e depois transformadas em função delas. Não se trata de negar a importância das nomas internas, mas de retirar-lhes o carácter exclusivo de que actualmente beneficiam, visto que, na prática, a presente situação configura um predomínio dos pontos de vista e dos interesses dos professores sobre os do país que devem servir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-se, com razão, que o sistema proposto tem falhas. Por mim, encontro pelo menos duas, que, por falta de espaço, não aprofundarei: a variação do modelo de escola para escola e a ligação que nele se estabelece entre o desempenho dos alunos e o dos professores. E haverá decerto outras que desconheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será isto razão bastante para interromper o processo de avaliação? Para, como alguns dizem, “parar para pensar”? De forma nenhuma. A busca do modelo perfeito é uma doença da nossa cultura empresarial e organizacional que conduz directamente à procrastinação. Esperar pela solução sem mácula para só então avançar não passa, as mais das vezes, de uma desculpa para a inércia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As organizações progressivas adoptam na suas actividades o método de tentativa e erro, ou seja, continuamente lançam novas iniciativas, avaliam os seus resultados e corrigem o que houver a corrigir. Pelo contrário, as organizações ineptas, preocupadas em prevenir-se contra as eventualidades mais abstrusas e improváveis, evitam agir com receio do que poderá vir a suceder num futuro distante, deixando atrás de si um rasto de planos não aplicados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resistência dos professores à introdução do sistema de avaliação é normal e compreensível, mas o interesse colectivo deve sobrepôr-se às suas razões particulares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ensino atingiu um tal nível de degradação que não é possível perdermos mais tempo. Viremos a página e passemos às questões que mais interessam. Mas, primeiro, é preciso pôr a funcionar a avaliação, que é um instrumento essencial de gestão do sistema. Uma coisa de cada vez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-5812937455124767360?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/5812937455124767360/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=5812937455124767360' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/5812937455124767360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/5812937455124767360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/11/uma-coisa-de-cada-vez.html' title='Uma coisa de cada vez'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-2691777115191595831</id><published>2008-10-17T02:54:00.000-07:00</published><updated>2009-01-13T04:41:36.903-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Milton Friedman'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gestor-herói'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='criação de valor'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='subprime'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='liderança'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gestão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mintzberg'/><title type='text'>Rudimentos de gestão subprime</title><content type='html'>É fácil concordar com Adam Smith quando ele escreve que, numa economia de mercado, não dependemos do altruísmo do padeiro para podermos comer pão todos os dias. Note-se, porém, como isto é diferente de pretender que nenhum mal vem ao mundo se o padeiro apenas cuidar dos seus interesses mesquinhos. É esta, porém, a tese de Milton Friedman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O comum empresário sabe que, no longo prazo, o seu negócio não prosperará se, no dia a dia, ele espezinhar os legítimos interesses de clientes, empregados, fornecedores e poderes públicos, pela simples razão de que, muito em breve, ninguém quererá nada com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, as empresas que hoje contam não se encaixam nesse figurino: a sua propriedade encontra-se disseminada por uma multidão de accionistas (dos quais apenas uma minoria detém algum poder de controlo sobre a sociedade), para além de que a gestão quotidiana se encontra entregue a uma equipa de gestores profissionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A teoria económica que se ensina nas escolas e divulga nos media sustenta que isso não faz a mínima diferença, mas todos nós (e também os especialistas em economia da empresa) sabemos que faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;Greed is good&lt;/em&gt;" é uma forma crua mas fiel de sintetizar as doutrinas de Milton Friedman, das quais decorreu o triunfo de uma concepção dos negócios exclusivamente justificada pela perspectiva da maximização do lucro do padeiro, ou, como agora se diz, pela maximização do valor para o accionista. Tal é, de facto, o valor supremo perante o qual todos os outros devem vergar-se: lucro sempre crescente, a todo o custo e já.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, como bem sabe qualquer pessoa que gere ou geriu uma empresa, essa exigência não é realista. Os negócios mais sólidos demoram tempo a criar e consolidar. Todos passam por períodos maus. E a exclusiva obsessão com a rentabilidade pode pôr em causa os próprios alicerces do empreendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para tornear a dificuldade, o gestor-herói dos nossos tempos especializou-se em acções espectaculares que entusiasmam a imprensa da especialidade e aumentam a sua aura pessoal de implacável campeão da "criação de valor": fusões e aquisições, encerramento de fábricas ou  departamentos inteiros e despedimentos em massa, tudo embalado na linguagem eufemística do &lt;em&gt;turn-around&lt;/em&gt;, da eficiência, do &lt;em&gt;outsourcing&lt;/em&gt; ou da deslocalização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como persuadir, porém, os colaboradores da empresa a esforçarem-se por aumentar contínua e exponencialmente o EBIT trimestre a trimestre, se, no fim da linha, nenhuma recompensa os espera tirando a parca satisfação de terem contribuído para a glória pessoal do seu CEO? Como Henry Mintzberg fez notar, isto é a total corrupção da própria essência do conceito de liderança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não assentando na criação de valor para a sociedade – em última análise, o único propósito legítimo de qualquer empresa – a única forma de apresentar lucros crescentes consiste em delapidar os activos da empresa, e, de preferência, os intangíveis. É assim que o CEO &lt;em&gt;subprime&lt;/em&gt; (escudado no triplo A outorgado por um MBA da moda) desinveste no desenvolvimento dos colaboradores, trava a investigação de novos produtos e liquida gradualmente as marcas do seu portfolio. Quando tudo isso falha, resta a fuga aos impostos ou coisa pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa palavra, os "lucros" que ele distribui asseguram a destruição da empresa a prazo, o que, de resto, em nada o afecta. De forma que a criação de valor para os accionistas acaba por revelar-se mera criação de valor para o arrivista que eles tiveram a infelicidade de contratar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A derrocada que ameaça o sistema financeiro mundial foi despoletada por acções que só podem ser classificadas como fraudulentas. Mas é altura de começarmos a interrogar-nos por que houve durante tanto tempo tanta complacência perante as doutrinas anti-sociais que criaram um ambiente propício ao florescimento dos comportamentos que, agora, quase todos unanimemente condenam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos apenas a começar a puxar o fio à meada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-2691777115191595831?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/2691777115191595831/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=2691777115191595831' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/2691777115191595831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/2691777115191595831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/10/rudimentos-de-gesto-subprime.html' title='Rudimentos de gestão &lt;em&gt;subprime&lt;/em&gt;'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-8913827570192760966</id><published>2008-09-18T00:44:00.000-07:00</published><updated>2009-01-13T04:39:19.799-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desenvolvimento'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='convergência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='tecnologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='geografia'/><title type='text'>O desenvolvimento não é o prémio da virtude</title><content type='html'>Por que são certas regiões do mundo mais desenvolvidas do que outras? O tema é complexo, de modo que começaremos pela parte mais simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma simples olhadela ao mapa-mundo permite-nos constatar que não há países desenvolvidos entre os trópicos, a menos que aceitemos classificar a cidade-estado de Singapura como um país. Curioso, não é verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armado deste conhecimento básico, um marciano que observe a Terra por um telescópico, poderá adivinhar: que a Argentina e o Chile são os países mais avançados da América Latina; que a África do Sul bate em nível de desenvolvimento toda a África Negra; e que, no continente australiano, a parte meridional está muito à frente da setentrional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A origem desta correlação entre latitude e desenvolvimento radica, genericamente, no facto de os climas temperados serem mais favoráveis à exploração agrícola. Hoje, a agricultura desempenha um papel subordinado nas economias modernas; mas a indústria, primeiro, e os serviços, depois, instalaram-se perto das grandes aglomerações humanas pré-existentes, de modo que o passado continua a pesar imenso na distribuição espacial das economias contemporâneas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro, porém, que a latitude não é o único factor geográfico relevante para explicar o nível de relativo de desenvolvimento económico. A abundância de recursos naturais, as condições climatéricas locais, a facilidade de comunicação e, em geral, a proximidade do mar, também contam – e muito. Segundo alguns investigadores, as condições geográficas explicam entre dois terços e três quartos das diferenças de níveis de desenvolvimento económico entre regiões. O resto fica para os economistas investigarem, o que ainda permite empregar muita gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desenvolvimento tecnológico pode introduzir perturbações neste quadro geral, principalmente ao permitir o acesso a novos recursos naturais inexplorados ou alterar a importância relativa dos recursos existentes. Por exemplo, ao longo da Idade Média, o uso de melhores ferramentas de trabalho permitiu desbravar as florestas europeias e conquistar para a agricultura terras extensas e altamente produtivas, de modo que o centro económico do continente se deslocou progressivamente das margens do Mediterrâneo para a Europa Ocidental e Central. Transformações desta amplitude são, porém, raras e lentas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os economistas não gostam de reconhecer o papel decisivo da geografia na ordenação dos níveis de desenvolvimento, preferindo insistir na importância da educação, da organização e da cultura em geral como factores de crescimento. Resultará a prosperidade da instituição de atitudes e comportamentos favoráveis como a pontualidade, a capacidade de organização, a valorização do mérito, a iniciativa individual, o sentido cívico, o respeito pela lei e a curiosidade científica? Sim, mas a experiência sugere que a causalidade também funciona no sentido contrário, de modo que o impulso de fundo não poderá ser encontrado aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decididamente, o desenvolvimento não é o prémio da virtude, mas de ter a sorte de estar no sítio certo, algo muito difícil de aceitar pelos cidadãos dos países avançados que se acham de algum modo superiores – seja em capacidade de trabalho ou em inteligência – aos restantes mortais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ficou dito refere-se apenas à ordenação geral das regiões, não à amplitude das diferenças entre elas. A Revolução Industrial ampliou inicialmente o fosso entre países avançados e atrasados, situação que apenas começou a inverter-se na segunda década do século XX. Essa redução das discrepâncias de desenvolvimento entre países e regiões parece dever-se antes de mais à difusão das tecnologias de produção à escala do planeta, evidentemente acompanhada de uma revolução profunda nas formas de organização social nos países que haviam ficado para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo, nada impede que Portugal se aproxime progressivamente de níveis de prosperidade típicos da Alemanha – como, de resto, tem vindo a acontecer desde há meio século – mas, a menos que ocorram catástrofes inimagináveis ou transformações tecnológicas imprevisíveis não é expectável que os ultrapasse nos próximos quinhentos anos. Quem tiver muita pressa, vai mesmo ter que emigrar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-8913827570192760966?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/8913827570192760966/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=8913827570192760966' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8913827570192760966'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/8913827570192760966'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/09/o-desenvolvimento-no-o-prmio-da-virtude.html' title='O desenvolvimento não é o prémio da virtude'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-3163071113228755160</id><published>2008-08-20T09:54:00.000-07:00</published><updated>2009-01-13T04:44:00.754-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='utopia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mercantilização'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='classes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nostalgia'/><title type='text'>Não há bronzeados grátis</title><content type='html'>Não pára de crescer desde meados do século XX a multidão de adoradores do Sol que, chegado o Verão, acorrem às praias em busca de luz, energia e inspiração. A concentração das populações nas cidades estimula o culto pela Natureza e, em particular, pela praia, representação palpável do paraíso terrestre, onde a humanidade, sem vestuário nem preocupações, regressa por umas semanas ao estado primitivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À utopia do modo de vida natural acrescenta-se a da sociedade sem classes para tornar ainda mais populares as férias na praia. A nudez é inerentemente democrática: despindo os banhistas de sinais exteriores de status, neutraliza os preconceitos sociais e promove a igualdade entre os homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na prática, é claro, não é bem assim. Sendo incompleta a nudez, um fato de banho de marca distingue-se doutro comprado no Continente; e as senhoras das classes superiores fazem gala de exibir na praia colares, pulseiras e demais quinquilharia. Depois, qualquer praia tem, pelo menos dois territórios de classe bem demarcados: os toldos para um lado, os guarda-sóis para o outro. Finalmente, praias não acessíveis através dos transportes públicos adquirem, só por isso, outro &lt;em&gt;pedigree&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, a praia permanece um espaço razoavelmente imune às transformações económico-sociais do nosso mundo. Hoje, como há cinquenta anos, uma praia consiste de mar, areia, toldos, nadadores salva-vidas, vendedores de gelados e bares de praia. Dificilmente se conceberá coisa mais obsoleta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é possível admitir-se em pleno século XXI – pergunto eu – que milhares e milhares de consumidores permaneçam esticados ao sol durante dias e semanas a fio sem consumirem praticamente nada? É assim que se pensa desenvolver o país?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que alguns autarcas mais azougados vêm promovendo programas de hidroginástica logo pela manhã, seguidos de &lt;em&gt;chill out sessions&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;fresbee&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;speedminton&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;body pump&lt;/em&gt; ao longo do dia. Tudo devidamente enquadrado por batidas musicais difundidas para todo o areal através de poderosas colunas de som. Mas tais iniciativas são claramente insuficientes para promoverem a inadiável rentabilização da orla costeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, em muitas praias, as famílias se disponibilizam a pagar o equivalente à renda de um T0 em Lisboa pelo aluguer mensal de um simples toldo, imagine-se a receita que poderia resultar da prestação de um verdadeiro serviço integrado aos veraneantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não entendo, desde logo, por que não são substituidas as tradicionais cadeiras de praia por sofás ou camas mais confortáveis. Pergunto-me, além disso, por que é que os toldos não têm acesso a cerveja e refrigerantes canalizados, ou por que não se encontram equipados com televisão por cabo e acesso à internet. E, já agora, não faria sentido facilitar a circulação das pessoas instalando escadas e tapetes rolantes que evitem penosas caminhadas pelos areais? Por que há-de a revolução tecnológica deter-se à entrada das praias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na praia que idealizo, uma plataforma de intranet permitiria aos consumidores encomendarem directamente massagens, gelados, bolas de berlim e outros produtos e serviços. O registo numa base de dados dos pedidos dos clientes anteciparia inclusive os seus desejos futuros. Cada consumidor disporia, bem entendido, do acompanhamento personalizado de um account manager, disponível 24 horas por dia, através do qual canalizaria os seus pedidos, sugestões e reclamações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta brevíssima antevisão da praia do futuro torna evidente como a praia de hoje permanece uma espécie de enclave cubano nas nossas sociedades avançadas, um espaço de absurda nostalgia pré-moderna economicamente inviável e condenado à extinção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A praia tem – queiramos ou não - um custo de oportunidade. Se não fosse ocupada por banhistas ociosos, seria possível construir nela casas sobre as dunas, usá-la para exercícios militares ou rasgar amplas estradas marginais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tempo de trocarmos definitivamente o socialismo utópico pelo capitalismo científico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-3163071113228755160?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/3163071113228755160/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=3163071113228755160' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3163071113228755160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3163071113228755160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/08/no-h-bronzeados-grtis.html' title='Não há bronzeados grátis'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-3765847105211011256</id><published>2008-07-23T09:53:00.000-07:00</published><updated>2009-01-13T04:47:27.765-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='défice externo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='moralismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='estrutura produtiva'/><title type='text'>Contra o pensamento ocioso</title><content type='html'>"Já viste o carro novo dos do lado? No ano passado foram de férias para o Brasil; agora, diz que é um safari no Quénia. E ela, que só compra vestidos de marca? Não sei onde arranjam dinheiro para levarem esta vida..." O equivalente sofisticado desta tagarelice mesquinha é a crítica moralista do endividamento das famílias portuguesas. Por estes dias, toda a gente repete com ar entendido que os portugueses vivem acima das suas posses, mas eu gostaria que me explicassem que consequências práticas daí pretendem retirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que, não sendo compensado pela entrada de investimento directo estrangeiro, o nosso défice da balança de transacções correntes assume enorme gravidade. Que fazer então para controlar os excessivos níveis de consumo e de endividamento dos particulares que contribuem para aumentá-lo? Assim, de repente, ocorrem-me algumas hipóteses: a) exortar os portugueses a pouparem mais; b) restringir a importação de bens não essenciais; c) agravar as taxas de juro; d) desvalorizar a moeda. Tudo excelentes ideias, porém impraticáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insistir na ideia de que, se os portugueses se resignassem a consumir menos, o país entraria nos eixos é, nas actuais circunstâncias, uma piedosa intenção votada ao insucesso. Certos comentadores recusam-se a aceitar que algumas formas de ajustamento dos mercados são mais difíceis do que outras; mas todos sabemos que é mais fácil aumentar salários do que baixá-los, empregar pessoas do que dispensá-las e aumentar o consumo do que baixá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, em vez de batermos com a cabeça nas paredes, encarássemos antes a coisa de uma perspectiva igualmente verdadeira, mas incomparavelmente mais útil? E se, em vez de dizermos que gastamos acima das nossas posses, sublinhássemos antes que produzimos abaixo das nossas capacidades? Onde a primeira formulação cria um muro psicológico que fomenta o medo e paraliza a vontade, a segunda oferece uma orientação positiva e mobiliza o esforço colectivo. A forma como se diz as coisas tem consequências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos um problema de produtividade, que não se deve nem a trabalharmos pouco nem a investirmos de menos, antes a tirarmos medíocre partido dos recursos produtivos, em boa parte por os concentrarmos em actividades económicas de reduzido potencial. A boa notícia é que, na presente década, a nossa estrutura produtiva tem vindo a sofrer uma rápida transformação, sem paralelo desde os anos 60.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em poucos anos, a natureza do turismo alterou-se e os têxteis foram substituídos na liderança das exportações por máquinas e aparelhos eléctricos e serviços às empresas. A balança tecnológica tornou-se positiva. Em decorrência, o país conquistou quotas de mercado, apesar de uma evolução pouco favorável dos custos salariais unitários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O défice externo, agora deteriorado por efeito da crise internacional, reduziu-se de forma progressiva, embora insuficiente. Podemos confiar nas empresas e nos mercados para completarem esse ajustamento, que políticas erradas no passado atrasaram. Mas deveríamos questionar se o Estado português estará a fazer tudo o que deve para facilitar as mutações em curso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os desafios superam-se potenciando a capacidade transformadora das nossas forças, não carpindo as fraquezas. É mais produtivo mobilizar as pessoas para fazerem coisas do que para se queixarem. É mais fácil mobilizá-las com uma visão coerente do futuro do que com ameaças de empobrecimento e resignação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre nós, o nível do debate económico é frequentemente rebaixado por insistentes prédicas acerca dos vícios e virtudes dos nossos concidadãos, porque esse tipo de abordagem não exige nem estudos nem conhecimentos especializados, apenas requer capacidade retórica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mudança de perspectiva que recomendo não equivale a privilegiar o optimismo sobre o pessimismo, mas a valorizar o pensamento produtivo em detrimento do pensamento ocioso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-3765847105211011256?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/3765847105211011256/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=3765847105211011256' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3765847105211011256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/3765847105211011256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/08/contra-o-pensamento-ocioso.html' title='Contra o pensamento ocioso'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-94513080409417893</id><published>2008-06-25T09:52:00.000-07:00</published><updated>2009-01-13T04:50:14.486-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='caos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sistema dinâmico'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='teoria económica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='complexidade'/><title type='text'>Quando uma borboleta bate as asas na China, o Ricardo chega atrasado a um cruzamento</title><content type='html'>“Estes tipos não percebem nada de futebol.” – explicou Marlon, futebolista brasileiro exilado nas Ilhas Faroé, ao jornalista Alex Bellos – “Nem sequer se benzem antes de começar o jogo!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nossos comentadores desportivos são gente demasiado moderna para comungar de tais teses. De modo que, em vez de dizerem: “O Deco não se benzeu, mau sinal!”, dizem antes: “O 4-2-3-1 do seleccionador alemão anulou a equipa portuguesa”. Na verdade, são tão supersticiosos como o tal Marlon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que o fascínio do futebol resulta de ninguém perceber ao certo como é que a coisa funciona. Tal como na filosofia, o espanto é o ponto de partida, complementado por um irresistível desejo de encontrar para o resultado uma explicação plausível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tese reducionista ingénua sustenta que a equipa vencedora será por força a que incluir os melhores jogadores, esquecendo-se de que, se isso fosse verdade, a Liga dos Campeões de 2004 teria sido ganha pelo Real Madrid, não pelo FC Porto. Conscientes desta verdade trivial, a maioria dos entendidos deposita antes a sua confiança na táctica escolhida (4-3-3 ou 4-4-2?), mas todos sabemos que os jogadores só se dispõem desse modo no terreno quando a bola vai ao centro. Assim que o jogo começa, a táctica varia de minuto para minuto ao sabor das acções e reacções das duas equipas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de jogado num rectângulo de reduzida dimensão por apenas 22 jogadores, o futebol é um jogo de enorme complexidade, dadas as infinitas combinações que admite. Uma equipa que estava a jogar maravilhosamente, desune-se subitamente e nunca mais se reencontra. Outra, pela qual já ninguém dava nada, transcende-se e, sobrevivendo a três remates do adversário ao poste, ganha no último minuto com um golo talvez marcado em off-side. Não há dois jogos iguais, nem há dois golos iguais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que, a posteriori, o resultado de um jogo de futebol parece uma coisa tão lógica e natural que quase somos levados a crer estar escrito que as coisas teriam forçosamente que ter sido como foram. A verdade, porém, é que a mínima incidência do desafio pode afectar de modo decisivo todo o seu decurso. Por isso, o resultado final depende de uma variedade de não sei quês, que não só ninguém consegue prever com antecipação, como, mesmo a posteriori, é muito difícil entender plenamente. Perde-se por quase nada, do mesmo modo que, doutras vezes, se ganha sem saber como nem porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como o futebol, também a economia é, por maioria de razões, um sistema dinâmico complexo. Os comportamentos dos agentes individuais propagam-se de forma imprevisível através de uma longa cadeia de interacções, produzindo resultados inesperados e súbitas mudanças ao nível agregado. A instabilidade é a regra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A teoria económica tradicional, porém, presume que os mercados se ajustam continuamente em pontos de equilíbrio determinados pela intersecção da oferta com a procura, e postula que qualquer desvio será anormal e temporário. Armada de modelos microeconómicos simplistas, atreve-se a prever, por exemplo, que a fixação de um salário mínimo aumentará o desemprego, embora, excepto se o seu valor for muito elevado em proporção do salário médio, a tese não seja corroborada experimentalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma boa parte da teoria económica ensinada nas escolas assenta em bases empíricas limitadas e em generalizações abusivas, o que não coíbe certos opinadores de nela se apoiarem para proclamar os seus  preconceitos ideológicos, como de certezas inquestionáveis se tratasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns treinadores impõem às suas equipas esquemas tácticos muito rígidos; outros, gritam continuamente do banco instruções pontuais. Os melhores, ao invés, esforçam-se por preparar os seus futebolistas para saberem reagir psicológica e tacticamente às situações de jogo mais variadas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo empresarial passa-se algo semelhante; mas, disso, os economistas ortodoxos não sabem nem querem saber.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-94513080409417893?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/94513080409417893/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=94513080409417893' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/94513080409417893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/94513080409417893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/08/quando-uma-borboleta-bate-as-asas-na.html' title='Quando uma borboleta bate as asas na China, o Ricardo chega atrasado a um cruzamento'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-1404995888828586365</id><published>2008-05-28T09:51:00.000-07:00</published><updated>2009-01-13T04:52:52.494-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='concentração'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='União Europeia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tratado de Lisboa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poder'/><title type='text'>Europeus de segunda</title><content type='html'>Os êxitos europeus do Benfica nos longínquos anos 60 fizeram os portugueses sentir pela primeira vez que não só eram parte da Europa, como até poderiam esperar vir a ter nela um papel de algum relevo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante três décadas da Taça dos Campeões, qualquer equipa com talento podia aspirar ser a melhor da Europa, de modo que não só as mais poderosas nações, mas também os portugueses, os holandeses, os escoceses, os romenos e os jugoslavos puderam nalgum momento vencer, sem falar que também gregos, belgas e suecos atingiram a final da competição. Esqueceu-se hoje a importância que o futebol teve no desenvolvimento de uma consciência europeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais ou menos na mesma altura em que o Tratado de Maastricht entrou em vigor, as regras do futebol europeu foram alteradas, reduzindo drasticamente as chances dos clubes não originários dos países mais poderosos da União. Desde então, apenas FC Porto e Ajax chegaram à final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clubes que nunca foram campeões nos seus países são admitidos na competição, ao mesmo tempo que muitos campeões nacionais são deixados à porta. Uma maioria de europeus assiste de fora, pagando para ver os outros jogar. De ano para ano restringe-se o núcleo dos candidatos à vitória. Franceses e alemães já não conseguem chegar às meias-finais, e, nos últimos dois anos, três dos semi-finalistas foram ingleses. Pior, a crescente concentração do poder económico favorecida pelas competições europeias cava também ao nível nacional um fosso entre os da frente e os restantes. Nalguns países, emergem campeões crónicos; noutros, as ligas são, na prática, disputadas entre apenas dois clubes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como existe uma elevada correlação entre as despesas dos clubes com jogadores e o seu sucesso desportivo, é grande a tentação de gastar acima das posses. Chegámos assim ao ponto em que o prejuízo anual do Chelsea é superior às receitas somadas de todos os clubes portugueses de todos os escalões. Todavia, não existe qualquer correlação entre sucesso desportivo e sucesso financeiro, o que explica a insolvência de um número crescente de clubes. Farense, Salgueiros e Boavista não são excepções na Europa do futebol: são, cada vez mais, a regra num sistema que caminha a passos largos para a ruína.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas soluções aventadas para resolver os problemas financeiros dos grandes clubes institucionalizam a distinção entre europeus de primeira e europeus de segunda. A saúde financeira do futebol de topo pode ser assegurada pela criação de uma Super Liga reservada aos principais clubes dos maiores países, em que eventualmente entrará um clube português (mas só um, notem bem!). Quem achar que o futebol é um entretenimento semelhante ao circo, poderá gostar deste modelo em que os párias se orgulham por verem os Nanis, os Robens ou os Ibrahomivics a jogar nos clubes da casta superior europeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso é esquecer que o envolvimento popular com o futebol vai muito para além do mero espectáculo. Participação, pertença, identidade, rituais, experiências partilhadas, memória colectiva – eis o que o futebol significa para os povos europeus. É degradante imaginar-se sequer que um portista se resigne a torcer pelo Chelsea só porque lá jogam ex-futebolistas do seu clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito poucas pessoas entendem verdadeiramente o que está em causa no Tratado de Lisboa, mas, no fundo, há uma grande similaridade entre os rumos da Europa política e os da Europa do futebol. Num e noutro caso, a ausência ou diluição das instâncias verdadeiramente europeias de poder conduz ao triunfo sem freios dos poderes fácticos, mesmo os menos respeitáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O presente estado do futebol interessa a um reduzido número de futebolistas de topo e aos interesses obscuros que se movimentam em torno da compra e venda dos seus passes. Mas prejudica os adeptos, os investidores, a quase totalidade dos clubes e a esmagadora maioria dos jogadores de todos os escalões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também no futebol, são necessários novos caminhos para a Europa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-1404995888828586365?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/1404995888828586365/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=1404995888828586365' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1404995888828586365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/1404995888828586365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/08/europeus-de-segunda.html' title='Europeus de segunda'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3330642828437981250.post-899857431106953654</id><published>2008-04-30T09:44:00.000-07:00</published><updated>2009-01-13T04:55:01.728-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pertença'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='espaço público'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='democracia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='modos de vida'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='tribos urbanas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='jovens'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='micro-política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='fragmentação'/><title type='text'>O jovem, esse desconhecido</title><content type='html'>O que é a Sociedade Lomográfica Internacional? Tem uma Embaixada em Portugal? Onde fica localizada? Cada vez que dirijo estas perguntas a uma plateia, descubro sempre duas ou três pessoas, invariavelmente jovens, que conhecem as respostas. Quando às outras, ficam com cara de ponto de interrogação. E o leitor, sabe do que estou a falar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que pensam e o que sabem, afinal, esses seres exóticos a quem damos o nome de jovens? O que lhes vai no espírito? Como ocupam os seus tempos livres?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou ainda: qual a importância de tantos e tantos dos nossos jovens ignorarem quem foi o primeiro Chefe de Estado democraticamente eleito, quantos países integram a União Europeia e se o Partido Socialista dispõe ou não de maioria absoluta no parlamento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aparentemente, os jovens desconhecem factos que os políticos reputam importantíssimos. Sê-lo-ão mesmo? E, ademais, invertendo o sentido do questionamento, não será também verdade que os políticos ignoram coisas que os jovens consideram de enorme relevância? O simples facto de necessitarem de recorrer a inquéritos por amostragem para saberem o que pensam os cidadãos júniores parece sugerir que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tão obcecados que andamos com a globalização, tendemos a esquecer um outro fenómeno de importância ao menos idêntica que corre a par dela. Refiro-me à crescente fragmentação dos modos de vida, dos interesses pessoais e das culturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma escassa trintena de anos, os críticos sociais preveniam-nos contra os perigos da crescente uniformização e massificação dos modos de vida. Em vez disso, porém, a sociedade sofreu um acelerado processo de parcelamento, de modo que, após uma primeira fase de individualismo extremo, assistiu-se ao reagrupamento das pessoas em grupos relativamente pequenos, multiformes e instáveis. Alguns sociólogos chamam-lhes tribos urbanas: tribos, porque o cimento que as une não é primordialmente de natureza convencionalmente sócio-demográfica, mas cultural; urbanas, porque, ao contrário das comunidades primitivas assentes em laços de sangue e na partilha de um território, estas são fruto de escolhas individuais e a filiação nelas é cancelável a qualquer momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lado maravilhoso desta nova realidade é a aliciante combinação de liberdade e pertença que ela proporciona ao cidadão, que já não se sente aprisionado a vínculos familiares, religiosos, ideológicos, profissionais ou geográficos limitativos do desenvolvimento da sua personalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que, do mesmo passo, a sociedade esfarela-se em micro-comunidades que, embora as mais das vezes convivam pacificamente, pouco têm a dizer umas às outras, crescendo entre elas vastos espaços de indiferença. Paradoxalmente - ou talvez não - apenas trivialidades como o futebol, o culto das celebridades ou a cobertura mediática de crimes odiosos parecem hoje capazes de proporcionar aos cidadãos um terreno de interesses comuns. Muitos observadores inferem daqui erradamente que só essas superficialidades mobilizam as pessoas, mas esse equívoco resulta de os seus interesses mais profundos não se exprimirem no espaço público tradicional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vítima do esvaziamento em extensão e profundidade do espaço público é, naturalmente, a política, na exacta medida em que a linha de demarcação entre “nós” e “eles” se torna mais fluida, provisória e até, para alguns, carente de sentido. Daí a preferência contemporânea dos jovens pela micro-política em desfavor das mobilizações de massa movidas por grandes princípios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A preocupação com as consequências deste estado de coisas para a saúde da democracia é, pois, compreensível e legítima. O ponto de partida do debate não deveria, porém, ser aquilo que os jovens não sabem, mas aquilo que eles sabem e os restantes desconhecem, porque é aí que se oculta o potencial de transformação positiva da sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao princípio, o que é então a Sociedade Lomográfica Internacional que mencionei a abrir este texto? Ora, nem queiram saber... Até porque nem toda a gente tem o direito de saber.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3330642828437981250-899857431106953654?l=oprovadordevenenos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/feeds/899857431106953654/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3330642828437981250&amp;postID=899857431106953654' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/899857431106953654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3330642828437981250/posts/default/899857431106953654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oprovadordevenenos.blogspot.com/2008/08/o-jovem-esse-desconhecido.html' title='O jovem, esse desconhecido'/><author><name>João Pinto e Castro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03140629356680919506</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://bp3.blogger.com/_eXIaUcOuVMY/SHJbR78A78I/AAAAAAAAAEk/fvQsouEAByk/S220/Joao%5B1%5D.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
