quarta-feira, 28 de maio de 2008

Europeus de segunda

Os êxitos europeus do Benfica nos longínquos anos 60 fizeram os portugueses sentir pela primeira vez que não só eram parte da Europa, como até poderiam esperar vir a ter nela um papel de algum relevo.

Durante três décadas da Taça dos Campeões, qualquer equipa com talento podia aspirar ser a melhor da Europa, de modo que não só as mais poderosas nações, mas também os portugueses, os holandeses, os escoceses, os romenos e os jugoslavos puderam nalgum momento vencer, sem falar que também gregos, belgas e suecos atingiram a final da competição. Esqueceu-se hoje a importância que o futebol teve no desenvolvimento de uma consciência europeia.

Mais ou menos na mesma altura em que o Tratado de Maastricht entrou em vigor, as regras do futebol europeu foram alteradas, reduzindo drasticamente as chances dos clubes não originários dos países mais poderosos da União. Desde então, apenas FC Porto e Ajax chegaram à final.

Clubes que nunca foram campeões nos seus países são admitidos na competição, ao mesmo tempo que muitos campeões nacionais são deixados à porta. Uma maioria de europeus assiste de fora, pagando para ver os outros jogar. De ano para ano restringe-se o núcleo dos candidatos à vitória. Franceses e alemães já não conseguem chegar às meias-finais, e, nos últimos dois anos, três dos semi-finalistas foram ingleses. Pior, a crescente concentração do poder económico favorecida pelas competições europeias cava também ao nível nacional um fosso entre os da frente e os restantes. Nalguns países, emergem campeões crónicos; noutros, as ligas são, na prática, disputadas entre apenas dois clubes.

Como existe uma elevada correlação entre as despesas dos clubes com jogadores e o seu sucesso desportivo, é grande a tentação de gastar acima das posses. Chegámos assim ao ponto em que o prejuízo anual do Chelsea é superior às receitas somadas de todos os clubes portugueses de todos os escalões. Todavia, não existe qualquer correlação entre sucesso desportivo e sucesso financeiro, o que explica a insolvência de um número crescente de clubes. Farense, Salgueiros e Boavista não são excepções na Europa do futebol: são, cada vez mais, a regra num sistema que caminha a passos largos para a ruína.

Algumas soluções aventadas para resolver os problemas financeiros dos grandes clubes institucionalizam a distinção entre europeus de primeira e europeus de segunda. A saúde financeira do futebol de topo pode ser assegurada pela criação de uma Super Liga reservada aos principais clubes dos maiores países, em que eventualmente entrará um clube português (mas só um, notem bem!). Quem achar que o futebol é um entretenimento semelhante ao circo, poderá gostar deste modelo em que os párias se orgulham por verem os Nanis, os Robens ou os Ibrahomivics a jogar nos clubes da casta superior europeia.

Mas isso é esquecer que o envolvimento popular com o futebol vai muito para além do mero espectáculo. Participação, pertença, identidade, rituais, experiências partilhadas, memória colectiva – eis o que o futebol significa para os povos europeus. É degradante imaginar-se sequer que um portista se resigne a torcer pelo Chelsea só porque lá jogam ex-futebolistas do seu clube.

Muito poucas pessoas entendem verdadeiramente o que está em causa no Tratado de Lisboa, mas, no fundo, há uma grande similaridade entre os rumos da Europa política e os da Europa do futebol. Num e noutro caso, a ausência ou diluição das instâncias verdadeiramente europeias de poder conduz ao triunfo sem freios dos poderes fácticos, mesmo os menos respeitáveis.

O presente estado do futebol interessa a um reduzido número de futebolistas de topo e aos interesses obscuros que se movimentam em torno da compra e venda dos seus passes. Mas prejudica os adeptos, os investidores, a quase totalidade dos clubes e a esmagadora maioria dos jogadores de todos os escalões.

Também no futebol, são necessários novos caminhos para a Europa.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O jovem, esse desconhecido

O que é a Sociedade Lomográfica Internacional? Tem uma Embaixada em Portugal? Onde fica localizada? Cada vez que dirijo estas perguntas a uma plateia, descubro sempre duas ou três pessoas, invariavelmente jovens, que conhecem as respostas. Quando às outras, ficam com cara de ponto de interrogação. E o leitor, sabe do que estou a falar?

Em que pensam e o que sabem, afinal, esses seres exóticos a quem damos o nome de jovens? O que lhes vai no espírito? Como ocupam os seus tempos livres?

Ou ainda: qual a importância de tantos e tantos dos nossos jovens ignorarem quem foi o primeiro Chefe de Estado democraticamente eleito, quantos países integram a União Europeia e se o Partido Socialista dispõe ou não de maioria absoluta no parlamento?

Aparentemente, os jovens desconhecem factos que os políticos reputam importantíssimos. Sê-lo-ão mesmo? E, ademais, invertendo o sentido do questionamento, não será também verdade que os políticos ignoram coisas que os jovens consideram de enorme relevância? O simples facto de necessitarem de recorrer a inquéritos por amostragem para saberem o que pensam os cidadãos júniores parece sugerir que sim.

De tão obcecados que andamos com a globalização, tendemos a esquecer um outro fenómeno de importância ao menos idêntica que corre a par dela. Refiro-me à crescente fragmentação dos modos de vida, dos interesses pessoais e das culturas.

Há uma escassa trintena de anos, os críticos sociais preveniam-nos contra os perigos da crescente uniformização e massificação dos modos de vida. Em vez disso, porém, a sociedade sofreu um acelerado processo de parcelamento, de modo que, após uma primeira fase de individualismo extremo, assistiu-se ao reagrupamento das pessoas em grupos relativamente pequenos, multiformes e instáveis. Alguns sociólogos chamam-lhes tribos urbanas: tribos, porque o cimento que as une não é primordialmente de natureza convencionalmente sócio-demográfica, mas cultural; urbanas, porque, ao contrário das comunidades primitivas assentes em laços de sangue e na partilha de um território, estas são fruto de escolhas individuais e a filiação nelas é cancelável a qualquer momento.

O lado maravilhoso desta nova realidade é a aliciante combinação de liberdade e pertença que ela proporciona ao cidadão, que já não se sente aprisionado a vínculos familiares, religiosos, ideológicos, profissionais ou geográficos limitativos do desenvolvimento da sua personalidade.

O problema é que, do mesmo passo, a sociedade esfarela-se em micro-comunidades que, embora as mais das vezes convivam pacificamente, pouco têm a dizer umas às outras, crescendo entre elas vastos espaços de indiferença. Paradoxalmente - ou talvez não - apenas trivialidades como o futebol, o culto das celebridades ou a cobertura mediática de crimes odiosos parecem hoje capazes de proporcionar aos cidadãos um terreno de interesses comuns. Muitos observadores inferem daqui erradamente que só essas superficialidades mobilizam as pessoas, mas esse equívoco resulta de os seus interesses mais profundos não se exprimirem no espaço público tradicional.

A primeira vítima do esvaziamento em extensão e profundidade do espaço público é, naturalmente, a política, na exacta medida em que a linha de demarcação entre “nós” e “eles” se torna mais fluida, provisória e até, para alguns, carente de sentido. Daí a preferência contemporânea dos jovens pela micro-política em desfavor das mobilizações de massa movidas por grandes princípios.

A preocupação com as consequências deste estado de coisas para a saúde da democracia é, pois, compreensível e legítima. O ponto de partida do debate não deveria, porém, ser aquilo que os jovens não sabem, mas aquilo que eles sabem e os restantes desconhecem, porque é aí que se oculta o potencial de transformação positiva da sociedade.

Voltando ao princípio, o que é então a Sociedade Lomográfica Internacional que mencionei a abrir este texto? Ora, nem queiram saber... Até porque nem toda a gente tem o direito de saber.