quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pés no chão, cabeça no ar



Uma fotografia nocturna da Europa tirada do espaço revela-nos, através das manchas luminosas das grandes aglomerações humanas, a distribuição espacial dos seus habitantes, por sua vez indicativa da localização dos principais centros de produção industrial e de serviços.

O núcleo central da Europa, englobando a Alemanha Ocidental, a Holanda, a Bélgica e a região de Paris, prolonga-se a Norte até à Dinamarca, a Sul até ao Norte da Itália e, a Leste, até à Áustria. Ao largo da Europa, a iluminação nocturna sinaliza um conjunto de arquipélagos geo-demográficos mais ou menos próximos do centro. No sentido dos ponteiros do relógio, são eles a Grécia, o Sul da Itália, a Ibéria, a Grã-Bretanha, o Sul da Escandinávia e a Finlândia.

Portugal é, do ponto de vista geo-estratégico, uma ilha do arquipélago ibérico, de peso demográfico similar ao de Madrid e da Catalunha, embora mais excêntrica. Somos o país mais periférico da Europa, um sério handicap que, ao longo dos séculos, remetendo-nos para a margem das rotas de mais intensa circulação de pessoas, bens e ideias, prejudicou o desenvolvimento do país.

Deveria, pois, ser óbvia a relevância de tudo o que minimize o ónus da nossa distância física em relação ao núcleo da Europa, quer se trate de estradas, comboios, aviões, telefones ou internet. Tudo isso é preciso, mas não resolve o problema de fundo, porque, apesar das melhorias absolutas que o investimento em comunicações traz consigo, a nossa situação relativa pouco se altera se os outros fizerem esforços semelhantes.

Em vez de nos resignarmos a estar no fim de linha, temos que esforçar-nos constantemente por sermos um ponto de passagem obrigatório para outra coisa. Foi isso que fizémos de vários modos ao longo da nossa história: na Idade Média, ligando o Mediterrâneo ao Atlântico, o que explica as relações privilegiadas com a República de Génova e com a Inglaterra; mais tarde, expandindo-nos no Atlântico Sul rumo à África, à América do Sul e à Ásia.

Um país distante dos centros gravitacionais do poder económico europeu só pode contrariar a sua excentricidade transformando-se numa plataforma (ou hub, como agora se diz) capaz de potenciar a sua articulação com outros centros externos ao Continente. O modo como isso se faz muda continuamente, e, em certas circunstâncias, de forma súbita: situados em corredores de transição de um para outro centro de atracção, os hubs são pontos sensíveis e frágeis das redes mundiais de trocas, sujeitos a perturbações bruscas que, por vezes, os forçam a modificar rapidamente a sua vocação, atravessando com regularidade fases críticas de regressão.

Do que não há dúvida, é que um país com estas características tem de ser capaz de pensar a sua inserção estratégica nas redes mundiais de circulação de pessoas, mercadorias, informação e conhecimento. Ora, os instrumentos cruciais para o cumprimento desse propósito são, nos dias que correm, de três tipos: em primeiro lugar, aeroportos, portos e serviços conexos; em segundo lugar, universidades e centros de investigação; em terceiro lugar, infra-estruturas capazes de suportarem uma oferta turística variada, atraente e crescente.

Quem entende isto não faz perguntas absurdas sobre a relevância do investimento em aeroportos, terminais de contentores, comboios de alta velocidade, internet de banda larga, literacia digital ou estradas para a competitividade nacional, nem insiste em avaliar projectos nessas áreas ignorando as correspondentes externalidades com o argumento de que é impossível quantificá-las com rigor.

A análise custo-benefício tão cara a alguns economistas obriga à quantificação de ganhos que, pela sua própria natureza, não têm preço. Logo, só fará sentido se previamente nos pusermos de acordo sobre a relevância de certos propósitos para o nosso viver colectivo. Sucede que isso exige a clarificação de um desígnio nacional, isto é, de uma visão do que é necessário fazer para sermos um país viável e próspero. Sem estratégia nacional, não há análise custo-benefício que nos valha.

A racionalidade procedimental discute a adequação de certos meios a dados fins, mas nada pode dizer-nos sobre quais deverão ser esse fins. A teoria económica encara-nos como seres objectivos e calculadores, mas todos sabemos que não é assim que funcionam as pessoas inteligentes. Sugiro que, em vez de pormos as pessoas inteligentes a raciocinar como economistas, deveriamos tentar pôr os economistas a raciocinar como pessoas inteligentes, ou seja: com os pés no chão e a cabeça no ar.

(Publicado no Jornal de Negócios de 29.7.09)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A ciência lúgubre contra-ataca

Parece-me pouco convincente o argumento (chamemos-lhe assim) contido no Manifesto dos 28. Eis por quê:

1. A discussão da situação é unilateral e enviezada. Conhecemos a gravidade dos desequilíbrios económicos internos e externos do país, mas não pode negar-se a dinâmica subjacente que tem vindo a criar condições para superá-los. Ficando-nos pelo essencial, alterou-se drasticamente em muito pouco tempo o padrão das nossas exportações, predominando agora sectores e produtos com mais valor acrescentado e conteúdo tecnológico. Os efeitos da transformação tardaram a evidenciar-se, porque a emergência do novo fez-se acompanhar do rápido afundamento do velho, mas é indiscutível que em 2006 e 2007 as exportações cresceram de forma sustentada acima das importações, evolução que só foi interrompida quando dispararam os preços do petróleo e demais matérias-primas. Tudo indica que Portugal está no bom caminho para resolver os tais desequilíbrios.

2. Os pressupostos da análise estão mal fundamentados. O Manifesto sustenta que a presente crise vai agravar a situação financeira do país, mas isso parece pouco provável. O problema central da escassez de poupança será pelo menos fortemente atenuado, como resulta da queda do consumo ao mesmo tempo que os salários reais aumentam. A brutal contracção do nosso comércio externo implica que o défice das transacções correntes baixará muito em proporção do produto. Logo, cairão as necessidades de financiamento externo.

3. Em Portugal, como em todo o Mundo, as empresas e as famílias reagiram à incerteza retraindo o investimento e o consumo e, assim, aumentaram muito as suas poupanças. Logo: a) não haverá nos próximos tempos falta de fundos disponíveis para investir; b) só o investimento público poderá travar o agravamento da crise. É absurdo pretender-se que, nestas circunstâncias, o investimento público poderá prejudicar o privado.

4. Uma enumeração de sintomas não é um diagnóstico. Em resumo, eis o meu: O modelo económico que emergiu em Portugal nos anos 50 do século passado entrou em decadência. Os fundos europeus camuflaram o seu esgotamento, de modo que a transformação só se iniciou quando as nossas empresas sofreram em cheio a concorrência dos países do Leste europeu e da China. Como, entretanto, o país se privara de boa parte dos tradicionais instrumentos de política monetária, não houve outro remédio senão aguardar que a reorientação empresarial para novos produtos e novos mercados se concluísse, procurando entretanto minorar os danos políticos e sociais. A crise orçamental foi um mero epifenómeno deste processo.

5. É absurdo basear-se uma estratégia para o país na enumeração de vulnerabilidades. Uma estratégia constrói-se a partir de oportunidades, forças, capacidades, competências e recursos existentes. O que quer que venhamos a fazer resultará decerto da potenciação daquilo que de positivo já existe ou está a emergir. Todavia, os subscritores do Manifesto do 28 parecem só conhecer o país através da Contabilidade Nacional.

6. É falacioso pretender-se que, se no passado se errou nos investimentos públicos, isso prova que eles não são necessários para melhorar a competitividade. Não podemos julgar os projectos presentes pela eventual mediocridade dos passados.

7. A competitividade de um país periférico, ainda por cima de vocação turística, é muito condicionada pela qualidade das suas ligações rodoviárias, ferroviárias, aéreas e portuárias ao resto do Mundo e, antes de mais à Europa. A necessidade do novo aeroporto de Lisboa não depende da evolução recente da procura, porque ele já se encontra congestionado há anos, provocando a degradação da qualidade do serviço percebida pelos passageiros internacionais. O mesmo se passa na linha do Norte, cuja capacidade não permite aumentar a frequência e a velocidade das múltiplas composições inter-regionais, regionais e suburbanas que nela circulam. Precisamos urgentemente duma nova ligação Lisboa-Porto que, já agora, convirá que seja de alta velocidade. A evolução dos preços da energia torna a decisão mais premente. Tudo factos que não se lêem na Contabilidade Nacional.

8. Pede o Manifesto dos 28 que o programa de investimentos públicos seja submetido ao escrutínio de um painel de técnicos independentes. Ora a avaliação custo-benefício, exigida por pessoas que nunca a ela recorreram quando desempenharam cargos governativos de relevo, implica a atribuição de valores monetários a coisas que não têm um preço, como sejam a vida humana ou a protecção do ambiente. Logo, tem implícitas preferências de todo o género, a que em rigor só se pode chamar prioridades políticas. Por que deveremos nós delegar num grupo de alegadas sumidades uma tal responsabilidade?

O receio de decidir e agir é um traço de personalidade associado à improdutividade. Os autores do Manifesto justificam a inacção com a necessidade de se pensar melhor sobre o assunto, mas, pela amostra, a qualidade da reflexão também não se recomenda.

Artigo publicado no Jornal de Negócios de 25 de Junho de 2009.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Friedman, responsabilidade, caridade e faz de conta

Milton Friedman afirmou repetidas vezes que a única responsabilidade social das empresas é a maximização do lucro. Recordá-lo nos tempos que correm em nada contribui para melhorar a sua já muito abalada reputação. Ou não será bem assim?

A responsabilidade social ameaça tornar-se numa exigência incontornável a que nenhum gestor civilizado pode furtar-se sob pena de proscrição. As empresas contemporâneas, diz-se, não devem refugiar-se na preocupação com a rentabilização dos seus negócios, fechando os olhos aos problemas que ameaçam a humanidade e o planeta, entre eles a degradação ambiental e a persistência de desigualdades gritantes neste mundo que partilhamos.

Como decidir, porém, no meio de tanta desgraça que afecta a humanidade – incluindo as guerras, a carência de água potável ou a poluição atmosférica – em que domínios deverá uma empresa responsável concentrar as suas atenções? Assim que se coloca esta pergunta, logo se revelam as insuficiências do conceito mais corrente e ingénuo de responsabilidade social.

Na prática, constata-se que as empresas tendem a subsumir sob a designação de responsabilidade social coisas muito diferentes. Para algumas, trata-se de procurar fazer o bem apoiando uma qualquer causa digna de admiração; para outras, apenas de construirem uma reputação assente em iniciativas cosméticas divulgadas através de vistosas acções publicitárias. Em ambos os casos, o resultado é por regra muita parra e pouca uva, ou seja, um escassíssimo impacto social daquilo que se faz e uma opinião pública cada vez mais desconfiada da sinceridade de tais propósitos.

Necessitamos, pois, de um pensamento mais sólido, que não só recuse o aproveitamente interesseiro das misérias do mundo como vá para além da mera filantropia.

Toda e qualquer empresa existe porque de alguma forma contribui para o bem-estar de alguns ou de muitos cidadãos. Logo, é no satisfatório desempenho dessa missão de forma economicamente eficiente que acima de tudo consiste a sua responsabilidade social.

Sucede, porém, que a produção de bens frequentemente acarreta a involuntária produção de alguns “males”, de que a poluição é o exemplo mais evidente. Uma empresa responsável não pode alhear-se dos impactos negativos decorrentes da sua actividade, pelo que lhe caberá, na medida do possível, eliminá-los ou minorá-los. Trata-se de uma forma de responsabilidade social mínima, a que também pode chamar-se reactiva ou defensiva.

Mas deverão elas ficar-se por aí? A actividade específica de uma empresa traduz-se muitas vezes em impactos positivos externos altamente relevantes sobre certos aspectos particulares da economia, da sociedade ou do ambiente, os quais, por sua vez, criam, por meio de um feedback positivo, condições mais favoráveis ao desenvolvimento do seu próprio negócio. Entre essas externalidades benéficas contam-se a consolidação de certas qualificações profissionais, o fomento da investigação científica, o upgrading dos fornecedores, o apoio a indústrias nascentes, etc. Logo, em vez de se limitar a corrigir impactos negativos, talvez faça sentido que uma empresa tente alavancar esses impactos positivos tendo em vista multiplicar os seus efeitos futuros.

Ao contrário da perspectiva tradicional, este conceito mais exigente de responsabilidade social articula-se logicamente com a estratégia competitiva da empresa. Não assenta numa vaga e bem-intencionada filantropia, mas numa visão esclarecida dos interesses da empresa a longo prazo, orientada para a melhoria das condições da procura, do recrutamente de colaboradores, do acesso a equipamentos e materiais ou da cooperação com entidades públicas e privadas.

Em conclusão, Friedman terá errado ao ignorar a responsabilidade das empresas em relação às externalidades negativas decorrentes da sua actividade. Mas há mérito na sua exigência de pensar a responsabilidade social no quadro dos propósitos de longo prazo de instituições que forçosamente têm que pautar os seus actos pelas exigências da racionalidade económica. Sem isso, ela dificilmente passará de caridade mal entendida ou de cínico faz de conta.

(Artigo publicado no Jornal de Negócios a 27 de Maio de 2009)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Trabalhar para as estatísticas

As gerações actuais devem ter dificuldade em acreditar que houve um tempo em que a discussão política não se centrava nas convoluções do PIB, mas essa é a mais pura das verdades.

Para começar, os sistemas de contabilidade nacional hoje usados foram inventados há apenas 70 anos. Antes disso, ninguém sabia ou cuidava de saber a variação homóloga da produção no último trimestre. Uma vez generalizado o método de medição, demorou ainda algum tempo (e muita lavagem ao cérebro) até que a opinião pública o aceitasse sem reservas como uma razoável aproximação do bem-estar colectivo.

Hoje, porém, poucos contestam a bondade do PIB como critério supremo de avaliação da acção política. Estamos a crescer mais ou menos? Acentuou-se ou reduziu-se a distância em relação aos outros países? A América é mais dinâmica do que a Europa? E o governo estimula ou tolhe o PIB?

Transformar a soma de batatas com cebolas numa operação razoável foi um feito notável dos economistas, cuja relevância depende, todavia, da aceitação da equivalência entre acumulação de bens materiais e felicidade. Como toda a obra humana, também este felicitómetro tem os seus defeitos: o produto nacional aumenta se eu contratar uma mulher a dias, mas reduz-se, contra toda a evidência, se eu me casar com ela. É assim porque a contabilidade valoriza as transacções monetárias e desdenha as que não envolvem dinheiro.

Mais complicado ainda é computar a riqueza gerada quando, ao contrário do que há escassas décadas sucedia, uma grande maioria da população não produz hoje nem batatas nem pregos, mas serviços intangíveis. O engenho dos economistas logrou, porém, superar essas e outras dificuldades de natureza mais técnica. Pelo menos, é assim que pensam os crentes.

Terão razão? A produtividade da UE é, dizem-nos as estatísticas, superior à dos EUA. Porém, como os americanos trabalham em média mais horas, o produto per capita deles é maior que o dos europeus, de onde decorre que eles são mais felizes do que nós. Este raciocínio absurdo explica-se pelo facto de o lazer não ser valorizado por este sistema: trabalhar mais é sempre bom, independentemente das consequências que isso tenha sobre a saúde psicológica e mental dos indivíduos e das famílias.

Mais: para a contabilidade nacional, um euro é um euro, sem interessar quem o recebe. Está aqui implícito que a desigualdade não afecta a felicidade dos cidadãos, embora nós saibamos (e a teoria económica o confirme) que um euro adicional proporciona mais felicidade a um pobre do que a um rico.

Nos tempos longínquos em que o ensino público básico gratuito foi introduzido na Europa, a poucos interessava que isso pudesse eventualmente contribuir para aumentar a produtividade da população. O benefício esperado da educação era, primeiro, a própria educação e, segundo, a promoção da cidadania. Hoje, porém, não só os investimentos na educação, mas também na cultura, na saúde e, mais recentemente, na própria justiça, são olhados com desconfiança se não contribuírem de alguma forma para promover a competitividade das empresas e do país. Tudo o que pareça incomodar o PIB estará ipso facto tramado.

Graças a Deus – há-de haver por força algo de divino nisto - alguma investigação económica parece sugerir que aquilo que é bom para as pessoas acaba mais tarde ou mais cedo por revelar-se bom para a economia. Não sei, todavia, se poderemos ficar tranquilos, dado que, segundo Fogel (Nobel da Economia em 1993), a escravatura era um regime de trabalho eficiente à data da sua abolição nos EUA.

Faz sentido que privilegiemos o objectivo de produzir mais e mais coisas quando a esmagadora maioria dos cidadãos vive na pobreza absoluta, mas as prioridades deveriam ir-se alterando à medida que a carência extrema se reduz e que outros factores se revelam mais decisivos para a promoção da dignidade humana.

Nem o PIB nem qualquer outro indicador sintético é capaz de, isoladamente, elucidar-nos sobre o grau de bem-estar de uma sociedade. Para isso, precisamos de uma pluralidade de metas variáveis em função das circunstâncias e dos desafios do momento.

Já que, nesta era obcecada pela quantificação (mesmo que espúria), estamos condenados a trabalhar para as estatísticas, ao menos que seja para aquelas que mais interessam.

(Artigo publicado no Jornal de Negócios de 29.4.09)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Pôr a casa em ordem

Que mundo nos espera nos próximos anos? É mais fácil prever o que já aconteceu, de modo que vamos começar por aí.

Com o sistema financeiro global em estado catatónico, não há crédito nem para as empresas nem para as famílias, as quais reagem adiando as despesas e aumentando as poupanças como precaução contra o que pode vir a caminho. Tal reacção, já se sabe, só torna as coisas piores. Não admira, pois, que as estatísticas que de todo o mundo nos vão chegando mostrem uma quebra abrupta do comércio internacional e do emprego a partir de finais de 2008.

Não teria forçosamente que ser assim, mas a falta de vontade de exercer o poder, nuns casos, ou a própria ausência de centros capazes de exercê-lo, noutros, trouxe-nos até aqui. O pior cenário parece em vias de concretizar-se.

Se somarmos a isto a persistência de colossais desequilíbrios financeiros à escala mundial, não será de espantar que a presente recessão venha a durar anos e não meses. A economia portuguesa pode por isso contar com uma mudança duradoura do contexto internacional, caracterizada pelo recuo da globalização, pela incerteza generalizada e pela quebra da confiança nas empresas e nas instituições. Caso se acentue o reflexo proteccionista já notório aqui e acolá, pequenas economias abertas como a nossa não poderão deixar de ser seriamente afectadas.

O mais natural, nestas circunstâncias, é que as pessoas procurem refúgio junto daquilo que lhes está mais próximo e que, também por isso mesmo, se lhes afigura mais seguro. O mesmo sucederá porventura com as empresas. A confirmar-se a tendência, assistiremos durante algum tempo a uma viragem das economias para dentro.

Do mesmo modo que nos últimos anos nos preocupámos com a competitividade externa, deveremos agora focar-nos na competitividade interna, principalmente nos sectores de bens não-transaccionáveis que tão avessos se têm revelado à renovação.

A protecção de que tais actividades gozam em relação à concorrência internacional é em boa medida responsável pelos lamentáveis níveis de qualidade e eficiência que entre nós exibem. Directamente, essa situação prejudica os cidadãos e os consumidores; indirectamente, degrada as condições de competitividade externa das empresas exportadoras, obrigadas a suportar os custos de contexto que lhe estão associados.

Políticas públicas adequadas, envolvendo entre outras fomento da concorrência, regulamentação exigente, investimento estatal e reorganização dos mercados públicos, podem e devem contribuir para uma transformação positiva do panorama actual.

Os sectores de bens não-transaccionáveis abrangem uma variedade de actividades públicas e privadas, dentre as quais se destacam algumas que poderão vir a desempenhar um papel central na economia renovada pós-recessão. Tal é o caso, por exemplo, dos cuidados de saúde, da educação nos seus diversos graus, da renovação urbana, dos transportes públicos, das energias renováveis e, em geral, da protecção do ambiente.

Não se trata, note-se bem, de desistir dos mercados externos ou de menosprezar a sua importância para o nosso desenvolvimento. Bem pelo contrário, sendo a baixa produtividade dos sectores de bens não-transaccionáveis um dos calcanhares de Aquiles da nossa economia, é claro que a sua renovação se constitui ela própria numa poderosa alavanca da nossa competitividade externa.

Isso é bem evidente, por exemplo, no caso do turismo. Uma actividade que consiste em importar temporariamente gente com dinheiro para vir cá gastá-lo só tem a lucrar com a melhoria da qualidade das cidades e do ambiente, com a qualificação dos transportes públicos e com serviços de saúde de nível internacional.

A crise internacional obriga todos os países a virarem-se por algum tempo para dentro em virtude da quebra abrupta do comércio internacional. Aproveitemos a circunstância para pôr a casa em ordem, impondo novos padrões de exigência a actividades que, apesar de cruciais para a revitalização da nossa economia, se têm dado ao luxo de permanecer à margem das transformações que delas temos o direito de esperar. Mas criemos também incentivos capazes de estimulá-las e acelerá-las.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O fracasso da União Europeia low-cost

Meia dúzia de anos de prosperidade na Europa do Leste bastaram para certos economistas, sempre mais lestos a proclamar milagres do que o Vaticano, apontarem as políticas económicas lá adoptadas como modelos de sensatez a seguir pelo resto do Continente.

Vemos agora que a primeira contrariedade séria ameaça fazer desmoronar as frágeis economias sem rede dos países do Leste, situação tanto mais grave quanto é facto que os Estados mínimos que por lá foram edificados não estão em condições de oferecer o necessário amparo aos cidadãos mais atingidos.

Povos desconhecedores dos perigos da sofisticação financeira orquestrada por trampolineiros sem escrúpulos endividaram-se em euros ou francos suíços, sem suspeitarem do que poderia acontecer no dia em que as suas moedas sofressem as drásticas desvalorizações que agora parecem inevitáveis. Conhecendo-se o elevado grau de exposição de muitos bancos ocidentais (e principalmente dos austríacos) às economias do leste, teme-se que, por efeito dominó, toda a economia da União Europeia seja arrastada para um abismo cuja profundidade desconhecemos. Eis-nos então chegados à parte pior do drama, aquela em que de súbito descobrimos que o navio está no meio da tormenta sem ninguém ao leme.

Ao longo de quase duas décadas, os países da União Europeia alienaram progressivamente os instrumentos de gestão das suas economias. Muitos de nós acreditámos, na nossa santa ingenuidade, que teria ocorrido uma genuína transferência de poderes para o centro, mas nada disso se passou. Como o aprofundamento da união política foi sempre preterido em favor do alargamento a mata-cavalos, as políticas económicas nacionais não foram substituídas por políticas económicas europeias, de forma que o que hoje sobra é o vazio.

O Banco Central Europeu é um original exercício de humor negro, combinando a máxima independência com a mínima preocupação em relação ao crescimento e ao emprego. A política orçamental comunitária pura e simplesmente não existe, excepto para quem acha que o incentivo à concorrência fiscal entre países membros merece esse nome.

É o estado mínimo em todo o seu esplendor, ou seja uma União Europeia de má qualidade mas baratinha.

Acresce que a União é hoje governada por gente que não presta – nem pessoal, nem política, nem tecnicamente -; gente despreocupada com as suas responsabilidades perante os cidadãos; gente destituída de ideais europeus e de instinto de solidariedade; gente que, numa palavra, não sabe o que anda a fazer.

Cada nova cimeira agrava o sentimento de angústia dos europeus. No último domingo, no final do encontro dos chefes de governo da União, soubemos que, por um lado, os problemas do leste serão tratados caso a caso, e que, por outro, a via para a saída da crise é o Mercado Único. Ora, pense-se o que se pensar do Mercado Único, é descabido apresentá-lo como uma política anti-recessão.

Na mesma ocasião, foram liminarmente recusadas as propostas cada vez mais insistentes de elaboração de um plano europeu coordenado de intervenção financiado pela emissão de obrigações europeias. De modo que aqui estamos todos, sentados sobre as mãos, à espera que os especuladores cumpram o seu dever.

Ao longo das duas últimas décadas as economias internacionalizaram-se, mas os poderes políticos permaneceram confinados ao plano nacional. Daí o progressivo esvaziamento dos poderes públicos dos estados-membros da União, permitindo que os poderes fácticos dos mercados e das finanças se emancipassem de qualquer tutela minimamente eficaz. Sendo evidente a crescente impotência dos políticos nacionais, alastram em paralelo no Continente o desinteresse dos cidadãos pela participação democrática e o populismo mediático desbragado.

Apesar da extensão do desastre, persiste uma tenaz resistência à correcção dos flagrantes erros que nos conduziram a este imbróglio. Em ano de eleições para o Parlamento Europeu, devemos prestar a máxima atenção ao que os partidos têm para nos dizer a este respeito.

Trata-se de uma oportunidade única de liquidar a União Europeia low-cost. Há coincidências temporais felizes.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Quanto vale uma empresa?

Quando, nos primeiros anos da sua vida profissional, trabalhava numa sociedade de investimento londrina, Peter Drucker tinha um colega que se ocupava exclusivamente na compra e venda de acções da General Motors. Um dia, Drucker deixou-lhe em cima da secretária um recorte de um artigo sobre o futuro da indústria automóvel. "Por que é que me puseste isto aqui?", perguntou-lhe o outro na manhã seguinte. E foi então que Drucker descobriu que ele ignorava que a General Motors era uma empresa automóvel.

Suponho que esta situação seria hoje impensável, mas constato que, amiúde, muitos traders pouco sabem sobre as empresas cuja compra ou venda recomendam. Esta ignorância revelou-se de forma evidente na actual crise financeira, quando empresas há escasso tempo incensadas como casos de sucesso revelaram, afinal, uma espantosa fragilidade. Quanto vale de facto uma empresa, e o que é preciso saber sobre ela para avaliá-la com rigor?

Há quem acredite que uma empresa vale aquilo que o mercado está disposto a pagar por ela. Logo, se estiver cotada na Bolsa, é muito fácil tirar-se uma conclusão. Sucede, porém, que a capitalização bolsista varia de dia para dia, para não dizer de minuto para minuto. Haverá alguma base sólida que nos permita perscrutar para além dessas constantes flutuações?

Como aos investidores interessa sobretudo o rendimento que poderão extrair do seu capital, é natural que avaliem uma empresa pela perspectiva da sua rentabilidade futura. A estimativa rigorosa do valor de uma empresa depende, pois: a) da correcta determinação da rentabilidade actual; e b) do entendimento dos factores capazes de fazê-la crescer ou diminuir num horizonte longo.

Como pode isso ser feito? Quase toda a gente concorda que, no século XXI, a capacidade de criar valor se encontra estreitamente relacionada com o investimento em activos intangíveis como a propriedade intelectual, as competências dos colaboradores, as estruturas organizacionais ou o relacionamento com os clientes. Segundo algumas estimativas, a contribuição desses activos para o valor das empresas situar-se-á hoje entre os 60 e os 80%.

Torna-se por isso indispensável um conhecimento rigoroso do que elas fazem nessas áreas.
Curiosamente, os relatórios anuais contêm pouquíssima informação a esse respeito. Tem-se argumentado que basear a avaliação de uma empresa no seu investimento em intangíveis equivale a valorizá-la pelos seus custos, quando, afinal, o que interessa não é o que se gasta, mas o proveito que se retira do investimento. Não se pode negar fundamento a essa objecção, de modo que precisamos de metodologias alternativas.

Regressando a Peter Drucker, ele entendia que uma empresa é antes de mais uma coisa que tem clientes. Sem clientes pode haver edifícios, máquinas e trabalhadores, mas não há negócio. Com clientes, porém, sempre haverá alguém disposto a emprestar o dinheiro necessário para se montar uma empresa. A verdade é que dentro de uma empresa só há custos: todas as receitas provêm dos seus clientes.

Logo, faz sentido pensar-se que o valor de uma empresa é o valor da sua base de clientes, e que os indutores desse valor são a sua capacidade para atrair novos clientes e reter os existentes. Ora, uma recente linha de investigação iniciada por académicos como Sunil Gupta e Donald Lehmann aplicou esta intuição à avaliação de empresas e confirmou a sua relevância prática. Esta metodologia tem ainda a vantagem adicional de nos permitir entender como é que os investimentos realizados concorrem ou não para aumentar o valor da base de clientes.

Em vão buscaremos nos relatórios publicados pelas empresas a informação necessária para confirmarmos se a sua actuação é ou não de molde a melhorar a rentabilidade da base de clientes. Que produtos se propõem lançar? A que mercados se dirigem? Como se comparam com os da concorrência? Que níveis de satisfação geram? Quantos clientes foram perdidos e porquê? E, acima de tudo, qual o valor de longo prazo da base de clientes por segmentos e o que está a empresa a fazer para aumentá-lo?

Alguns gestores responderão que essa informação não pode ser publicamente revelada sob pena de pôr em risco a vantagem competitiva das empresas. O certo, porém, é que, quando esta crise acabar, os investidores vão querer saber muito mais do que no passado sobre o que é feito com o seu dinheiro. As sociedades anónimas terão que resignar-se a divulgar informação mais relevante sobre os seus negócios como uma contrapartida indispensável do direito a gerirem os capitais que o público lhes confia.