quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fernando Pessoa e o euro

O caso é grave, na medida em que prejudica seriamente a ambição de auto-flagelação nacional, mas os portugueses têm o direito de saber a verdade.

E a verdade é que o nosso elevado nível de endividamento externo não pode mais continuar a ser encarado como um problema especificamente português. Primeiro, porque, demagogias à parte, a causa imediata do seu agravamento reside na crise financeira internacional que se propagou a partir dos EUA. Segundo, porque é comum a um grande número de países europeus, entre os quais alguns que integram a zona euro e onde vivem mais de um terço dos seus habitantes. Terceiro, porque - cúmulo do desespero! - a nossa situação está longe de ser a mais grave.

Resulta daqui que, ao contrário do que se passava há cinco anos, não estamos hoje desalinhados dos nossos parceiros europeus. Estamos no mesmo barco que eles enfrentando a mesma tempestade.

Ora, as dificuldades simultâneas e semelhantes da Grécia, da Irlanda, da Espanha, da Itália e de Portugal não podem ser consideradas obra do acaso. São inerentes a um sistema mal concebido e pior governado.

Na época em que o euro foi criado, muitos economistas (principalmente do lado de lá do Atlântico) questionaram a sabedoria de se juntarem num mesmo espaço monetário países com níveis de desenvolvimento tão diferentes, ainda para mais na ausência de mecanismos de apoio àqueles que pudessem vir a experimentar dificuldades devidas a situações particulares ("choques assimétricos", no calão dos economistas).

Face às presentes ameaças, muitos continuam a garantir que o problema é dos devedores, e que, por isso, a preocupação deve ser apenas deles. Mas será possível penalizar a Grécia sem ao mesmo tempo penalizar os investidores alemães, austríacos, franceses ou ingleses que lhes emprestaram dinheiro?

Por muito que se assobie para o ar, ninguém duvida de que, diga o que disser o tratado de Mastricht, a eventualidade de um afundamento grego obrigaria a União Europeia e o Banco Central Europeu a uma intervenção de emergência. Mas, se assim é, o melhor é agirem imediatamente, caso contrário não só a crise grega continuará a agravar-se, como crescerá a percepção de risco dos outros países em dificuldades.

E o que deveremos nós fazer?

Em primeiro lugar, proteger e reforçar a actual percepção internacional de que a nossa situação não é especialmente preocupante. Isso conseguir-se-á comportando-nos um bocadinho melhor do que os outros. Uma redução em dois pontos percentuais do défice público em proporção do produto já em 2010 seria um excelente resultado, embora muito difícil de conseguir. Precisamos de ganhar tempo para respirar.

Em segundo lugar, Portugal tem que continuar o esforço de requalificação do trabalho e das empresas que tem vindo a desenvolver. Na década de 90, o país deixou-se ficar preso a um padrão de especialização produtiva inviável que ao mesmo tempo entravou o crescimento da produtividade, condenou os salários à estagnação, aumentou a taxa de desemprego e agravou o défice externo. Este processo é lento e difícil por natureza, mais ainda agora que as circunstâncias externas se tornaram mais adversas.

Em terceiro lugar, não podemos manter-nos na expectativa em relação à evolução futura do sistema monetário e financeiro europeu. Não somos meros espectadores, estamos dentro, pelo que temos uma palavra a dizer na matéria.

Não fazem sentido nem a total independência do Banco Central Europeu nem a sua preocupação exclusiva com a inflação. Não faz sentido o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Não faz sentido a ausência de disposições que autorizem medidas excepcionais em situações excepcionais. Finalmente, não faz sentido que haja tanta preocupação com défices externos excessivos e nenhuma com superávites excessivos, quando uns se ligam necessariamente aos outros.

Fernando Pessoa definiu o provincianismo português como esta inclinação para "pertencermos a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz."

A ideia de que o endividamento externo é um problema especificamente nosso - seja nas causas seja nas manifestações - não passa de mais uma manifestação do provincianismo das elites portuguesas que Pessoa tão justamente abominava.

(Publicado no Jornal de Negócios de 13.1.10)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Estado de catástrofe semiótica e mistérios da produtividade

Diz-se que, em 1968, quando os russos invadiram a Checoslováquia, os checos retiraram a sinalização das estradas para impedir que os tanques inimigos conseguissem encontrar o seu caminho.

Se algum exército tentasse invadir Portugal (coisa que, caso único na Europa que a todos nos envergonha, ninguém tenta fazer há 200 anos bem contados) a nossa melhor defesa seria deixar a sinalização tal como está e esperar que ele se perdesse no emaranhado de pitorescas ruas e ruelas que fazem o encanto deste nosso jardim.

Tanto o intrincado urbanismo das nossas cidades como o traçado sinuoso das nossas estradas e, às vezes, dos próprios caminhos de ferro, testemunham a confusão de espírito que se sobrepõe a qualquer tentativa de planeamento racional. Rasgar uma rua a direito, plantar um jardim onde se planeara plantar um jardim, demolir uma ruína abandonada são tarefas hercúleas que, em certos casos, mobilizam e esgotam a opinião pública durante anos. Daí talvez a reverência com que contemplamos essa escassa excepção que é a baixa pombalina de Lisboa.

Muito antes de Einstein, já os portugueses sabiam que o espaço é curvo. Entre nós, o caminho mais curto entre dois pontos é aquele que, entre mil circunvoluções, torneia o quintal de cada um, mesmo que ele seja clandestino (ou, principalmente, se ele for clandestino). A sinalização das nossas cidades revela também esta paixão nacional pela excepção, forma eufemística de designar a reverência dos poderes públicos perante o egoísmo mais mesquinho. Aqui, é proibido estacionar, excepto viaturas oficiais, médicos ou deficientes. Ali, é proibido virar à esquerda, excepto viaturas da GNR ou veículos das obras. Mais adiante, não se pode virar à direita, excepto transportes públicos ou veículos ligeiros (juro que vi este sinal).

Com toda esta trapalhada de ordens e contra-ordens, não admira que, de vez em quando, um automobilista mais confuso e não exemplarmente sóbrio apareça a circular fora da mão na auto-estrada.

Não sigo Confúcio quando ele pretende que um erro de linguagem pode derrubar um império, mas convenhamos que falhas de comunicação deste calibre configuram um estado de catástrofe semiótica que, para usar um eufemismo, não ajudam o país a funcionar com eficiência. O pior é que o drama não se confina à sinalização. Da sinalização à organização urbana, da organização urbana ao sistema de transportes, do sistema de transportes à logística, da logística à organização fabril – por toda a parte encontramos réplicas deste sistema.

Ora bem, sejam quais forem os defeitos e limitações dos métodos usados para medir a produtividade, não restam grandes dúvidas de que Portugal tem um sério problema neste domínio, desgraçadamente pouco discutido e menos entendido.

A produtividade não decorre da aplicação de maior esforço e proficiência na execução de uma dada tarefa, caso contrário a pá jamais teria sido substituída pela escavadora. Bem pelo contrário, resulta da aplicação da lógica ao processo produtivo. Quanto mais racionalmente pensarmos a organização dos recursos, melhor será o resultado final.

Uma peculiaridade desta lógica é a exigência de se pensar os sistemas do fim para o princípio, ou seja, partindo do resultado pretendido para, por um processo inverso, determinar o modo como o trabalho deve ser organizado. A alternativa, note-se, é organizar o trabalho em função de circunstâncias mais ou menos fortuitas ou de poderes particulares que se sobrepõem ao conjunto. É este o erro que vemos em acção nas nossas estradas e caminhos: na ausência de respeito pelo utilizador (que deveria ser o seu propósito orientador), prevalece a redução de custos mal entendida, ou a força do hábito, ou o interesse particular ou, quem sabe, a mera estupidez.

Podemos conjecturar que a mera difusão dos aparelhos GPS permitirá superar o absurdo da sinalização que nos calhou em sorte.

Infelizmente, na economia, o equivalente a essa submissão do país a um sistema de orientação inventado por outros será talvez o enquadramento das empresas portuguesas em cadeias de valor que não dominam nem entendem, uma forma de provincianismo a que nos encontramos muito acomodados.

O resultado será a inelutável desqualificação e desvalorização do trabalho nacional. Ora, eu não sei se será exactamente isso que queremos.

(Publicado no Jornal de Negócios em 16.12.09)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Como fazer o Estado trabalhar mesmo mal

O atribulado processo de escolha da localização do novo aeroporto de Lisboa tornou evidente a enorme fragilidade do Estado português. Talvez valha a pena tentarmos identificar a sua origem profunda.

Na segunda metade dos anos 80, teve início um processo de progressivo esvaziamento dos departamentos de estudos e planeamento de diversos ministérios. Há que reconhecer uma certa dose de racionalidade na decisão. Nem o Estado precisa de imponentes núcleos de técnicos de variadas especialidades cuja utilização oscila muito de ano para ano, nem tem condições para remunerar adequadamente os mais qualificados dentre eles. Compreende-se, por isso, que recorra com regularidade aos serviços de centros de investigação universitários, empresas de consultoria ou gabinetes de projectos.

O problema é que essa racionalização foi demasiado longe, transformada num dogma inquestionável que perdeu de vista o seu propósito inicial. De modo que, hoje em dia, o Estado encontra-se destituído de competências técnicas efectivas em áreas cada vez mais numerosas.

Esta evolução foi propiciada por doutrinas, tão pacóvias como nefastas, segundo as quais o Estado não necessita de definir estratégias próprias de actuação, limitando-se a responder às solicitações da sociedade civil. O resultado desse liberalismo mal assimilado está à vista de todos: muitas e relevantes instituições estatais carecem de um pensamento próprio acerca da área em que actuam, limitando-se, por isso, a prosseguir políticas e a distribuir recursos sem outro critério visível que não seja o de agradar às associações empresariais e aos lóbis mais influentes.

Os últimos anos têm vindo a comprovar, de modo cada vez mais evidente, os prejuízos resultantes da desvalorização das competências técnicas do Estado. Destacarei três razões por que este estado de coisas não pode continuar.

Em primeiro lugar, o Estado necessita de preservar uma memória inteligente. O planeamento de grandes infraestruturas nacionais – sirva mais uma vez de exemplo o novo aeroporto internacional de Lisboa – leva anos (por vezes décadas), ao longo dos quais são estudadas e avaliadas múltiplas alternativas segundo uma variedade de critérios que, naturalmente, vão também evoluindo com o tempo. Na ausência de instituições públicas sólidas encarregadas de preservar a memória do que se fez e por quê, às tantas ninguém – literalmente ninguém – sabe exactamente se será ou não preciso refazer este ou aquele estudo e com que pressupostos.

Em segundo lugar, a aquisição ao exterior de trabalhos complexos de consultoria e projecto exige elevadas competências técnicas, seja para definir as especificações da encomenda, seja para avaliar criteriosamente as propostas recebidas, seja, finalmente, para interpretar as conclusões a que se chegar. Não se imagina porventura quanto pode perder o Estado anualmente quando este trabalho é mal feito.

Em terceiro lugar, sem uma tecno-estrutura capaz e dedicada ao serviço público, não há condições para estruturar com o necessário detalhe as políticas públicas. Sabe-se como os nossos partidos estudam pouco e superficialmente os assuntos. Com demasiada frequência, só depois de tomarem assento nos ministérios é que os seus titulares começam a debruçar-se mais a sério sobre eles. De modo que, ou se rendem aos encantos do primeiro vendedor de banha da cobra que lhes aparece, ou ficam dependentes de gabinetes técnicos montados à pressa com jovens inexperientes que ignoram quase tudo do que até essa data se fez.

Tudo isto se traduz na notória ausência de políticas devidamente articuladas e pensadas nas suas consequências. Veja-se, por exemplo, como, após anos e anos de planos feitos em cima do joelho e debates caóticos em que o número de linhas de TVG projectadas variou entre zero e sete, tivemos a sorte de a União Europeia e a Espanha decidirem por nós o que de facto irá ser feito. Situações similares ocorreram e ocorrem em múltiplas áreas da governação, incluindo os transportes, as comunicações, a indústria, a agricultura, o comércio externo, a investigação, a saúde ou a educação.

Não faz qualquer sentido, numa época em que tanto se fala do papel central do conhecimento nas sociedades contemporâneas, que o Estado se resigne à desvalorização do capital de know-how que lhe é próprio e que não pode alienar sob pena de todos ficarmos mais pobres.

(Publicado no Jornal de Negócios de 18.11.09)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O esplendor de Portugal

A revolução agrícola iniciada na Mesopotâmia terá levado uns 2 mil anos a chegar a este cantinho da Ibéria. Na época do Império Romano, a Lusitânia era uma das províncias de mais difícil acesso por terra ou por mar. O território que habitamos viveu sempre na periferia do mundo árabe e longe dos seus centros culturais na Península.

Mais tarde, o incremento da navegação atlântica decorrente do aperfeiçoamento das técnicas de marear contribuíu significativamente para valorizar a nossa posição geo-estratégica. As explorações no Atlântico, intensificadas a partir do século quinze, traduziram um aproveitamento audaz dessas novas circunstâncias.

Sabe-se que, na corte, foram ponderadas três estratégias alternativas de expansão: a) a conquista de Granada; b) a conquista de Marrocos; c) a exploração da costa de África. A primeira foi liminarmente recusada por falta de capacidade financeira. A segunda, ensaiada com a tomada de Ceuta, revelou-se também demasiado ambiciosa. Só a terceira passou na análise custo-benefício.

Portugal era então um reino europeu relativamente atrasado, e assim permaneceu no auge do seu império marítimo. O excedente económico gerado por solos pobres não era suficiente para alimentar grandes cidades e uma classe numerosa de artesãos especializados. Por falta de matérias-primas, conhecimentos técnicos e gente qualificada, as melhores naus eram no período áureo do Império construídas na Índia e o país importava canhões em grandes quantidades. Do estrangeiro vinha também grande parte dos marinheiros e artilheiros.

Segundo as estimativas de Angus Maddison, Portugal tinha em 1500 o mais baixo produto per capita da Europa Ocidental, rondando 80% da média da região. Ao contrário do que usualmente se afirma, não houve nos séculos que se seguiram aos Descobrimentos um fenómeno de decadência económica generalizada, antes períodos alternados de maior ou menor prosperidade. Maddison acredita que em 1820 a nossa distância económica em relação à Europa ter-se-ia degradado muito pouco em relação à de trezentos e vinte anos antes.

O fosso económico entre Portugal e a Europa Ocidental só começou a acentuar-se após a Revolução Industrial, quando um pequeno número de nações europeias se destacou rapidamente do resto do mundo. A primeira metade do século XIX foi um período negro, marcado por uma sucessão de conflitos armados, revoluções e guerras civis que acentuaram dramaticamente o atraso do país.

O caminho-de-ferro, o telégrafo e a imprensa tornaram as nossas classes cultas angustiadamente conscientes do atraso nacional na parte final do século, altura em que o produto per capita português já não chegaria a metade do da Europa Ocidental (situação que viria a agravar-se ainda mais até à I Guerra Mundial). “Uma geração inteira acha intolerável que Lisboa não seja Londres e Paris” (Eduardo Lourenço) e desse choque emerge o diagnóstico proposto por Antero de Quental no seu ensaio Causas da Decadência dos Povos Peninsulares – uma narrativa tão poderosa que ainda hoje marca profundamente o modo como os portugueses dos mais diversos quadrantes ideológicos interpretam o seu país.

Simplificando, Antero propôs no seu livro o regresso ao passado esplendoroso mediante o corte com a cultura jesuítica que enfraquecera a grandeza essencial da pátria. Essa mitologia foi adoptada pelos republicanos e incorporada no hino nacional. O Estado Novo deitou fora a retórica anti-católica, mas reteve e reforçou o saudosismo nacional-imperialista implícito no tema da recuperação da grandeza perdida dos “egrégios avôs”.

Os portugueses permanecem dominados pela ambição de “levantar hoje, de novo, o esplendor de Portugal”. Ora, Portugal nunca foi o país desenvolvido que se imagina, logo o “esplendor” nunca existiu e o propósito carece de sentido. Houve, sem dúvida, uma época em que, mercê de várias circunstâncias, desempenhámos um papel pioneiro no curso da história mundial; e é verdade que o frágil e mutável império marítimo que então construímos nos conferiu, até à perda do Brasil, um peso considerável na política europeia. Mas também a Rússia perseguiu Napoleão até Paris e, muitos anos mais tarde, abriu o caminho à exploração do espaço, sem por isso deixar de ser o país atrasado que era e é.

A obsessão com a mítica grandeza passada de Portugal é responsável, acredito eu, pela frustração colectiva que nos avassala. A evidente aproximação à Europa Ocidental desde 1945 não pode contentar-nos, porque jamais aceitaremos menos que o primeiro lugar no concerto das nações, a que, por colossal ignorância histórica, julgamos ter direito.

A fascinante crónica de Azurara mostra-nos que os portugueses de quatrocentos partiram à aventura pela costa africana abaixo guiados não por mirabolantes sonhos de grandeza, mas pelo impulso de ganharem a vida o melhor que sabiam e podiam, e, talvez, fazer fortuna; alguns, transcendendo-se, lograram feitos dignos de serem recordados.

Mais ou menos, afinal, como fazem os portugueses de hoje.

(Publicado no Jornal de Negócios de 21.10.09)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O futuro pelo espelho retrovisor

“Portugal sem potencial depois desta recessão.” “Crescimento do produto potencial será quase nulo nos próximos anos.” “Fraco potencial condena Portugal a crescimento medíocre”. Títulos deste género são comuns na imprensa portuguesa. Que verdade há neles?

O crescimento de uma economia acima de um nível de actividade sustentável pode conduzir a um aumento generalizado dos preços. Por isso, as autoridades responsáveis pela política económica (principalmente, as que cuidam da política monetária) tentam determinar esse “nível sustentável”, a que se dá o nome de “produto potencial”. Quando o produto real é idêntico ao produto potencial não há recursos de capital e trabalho desocupados nem pressão excessiva sobre eles.

O produto potencial não é directamente observável, visto que as estatísticas registam apenas a actividade real. Assim, torna-se necessário estimá-lo recorrendo a alguma forma de tratamento de dados. As técnicas mais elementares recorrem a um mero alisamento das tendências através da computação de médias móveis que atribuem um maior peso relativo às observações mais recentes. As mais complexas, estimam uma função de produção para a economia, a partir da qual se obtém o produto potencial com base em estimativas do stock de capital, do emprego potencial e da produtividade de ambos. Curiosamente, não há muitas vezes grandes diferença entre os resultados produzidos pelas duas classes de métodos.

Esta breve exposição torna claro que o produto potencial é um conceito retrospectivo, não prospectivo. Elucida-nos – melhor ou pior – sobre o que se passou, mas é abusivo usá-lo para projectar tendências futuras, porque nada garante que as condições recentes persistirão. A economia irlandesa viveu longos anos de estagnação após a adesão do país à CEE; depois, a partir de meados dos anos 80, começou a crescer muito depressa, fenómeno que a estimativa do produto potencial fora incapaz de prever.

Quando o passado recente é de crescimento lento, o produto potencial tenderá a subestimar a tendência de crescimento futura. Porém, se os agentes económicos tomarem a sério a previsão – que Deus nos defenda! – a retracção do investimento poderá contribuir para gerar uma efectiva estagnação económica. A palavra “potencial” induz naturalmente em erro os leigos, visto poder ser interpretada como uma essência que aguarda ainda a sua plena concretização. Quantas vezes será preciso repetir que não há formas determinísticas de prever o futuro da economia?

A contabilidade nacional não lida com factos, mas com interpretações, plasmadas em conceitos que se espera sejam úteis para entender a realidade económica. Por decorrência, o cálculo do produto potencial não passa de uma interpretação de interpretações. Para além de depender exclusivamente de observações passadas, ainda por cima sujeitas a frequentes e substanciais revisões, a validade das próprias metodologias utilizadas está longe de ser consensual. Segundo investigadores como van Norden e Orphanides, as técnicas utilizadas são tão pouco fiáveis que as correcções a posteriori da diferença entre produto real e produto potencial não se afastam muito do próprio hiato estimado.

A utilidade da estimação do produto potencial é quando muito analítica, visto que nos ajuda a identificar, ao nível macroeconómico, os estrangulamentos que inibiram um melhor desempenho no passado, seja ao nível da quantidade e qualidade do trabalho, da dimensão e orientação do investimento ou da produtividade dos factores – sem esquecer, porém, que essas variáveis usualmente deixam por explicar nada menos que metade da variação observada. No caso português, por exemplo, as principais debilidades identificáveis são a fraca qualidade do investimento público e privado e o bloqueamento da produtividade. Se o Estado e os empresários trabalharem denodadamente para corrigir essas fragilidades, nada impedirá que o país regresse a taxas de crescimento mais satisfatórias.

Entende-se – e, até certo ponto, desculpa-se – que jornalistas pouco versados nas minudências do cálculo do produto potencial cometam a imprudência de anunciar um futuro apocalíptico para a economia portuguesa a partir de dados que não autorizam tais conclusões. Mas deve-se exigir aos economistas profissionais, conscientes das limitações do conceito, que esclareçam as coisas em vez de contribuírem para aumentar ainda mais a confusão dos espíritos.

(Publicado no Jornal de Negócios de 23.9.09.)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Requiem

Mad Men, a esplêndida série americana que a RTP2 estreou no último dia de Julho centrada na vida numa agência de publicidade nova-iorquina no início dos anos 60, fala-nos de um mundo simultaneamente próximo e distante.

Surpreendem-nos o chauvinismo, a homofobia, o anti-semitismo e a desigualdade entre os sexos, assumidos sem culpa nem subterfúgios pelos personagens. Era assim o mundo (ou, pelo menos, a América) antes dos Beatles. Menos de uma década depois, Woodstock assinalaria a profundidade das alterações entretanto ocorridas nas sociedades ocidentais.

Também o mundo do marketing e da publicidade sofreu desde então transformações radicais. Mad Men começa num momento em que a revolução criativa iniciada por Ogilvy e Bernbach, ainda não tomara conta de Madison Avenue. Sterling Cooper, a agência fictícia retratada na série, embora não imune às transformações que a rodeavam, regia-se pelos padrões mais convencionais da época.

Os account executives controlavam o processo, os copywriters concebiam as campanhas, os art-directors estavam às suas ordens e os media planners limitavam-se a pôr cruzinhas nuns mapas. Os publicitários aplicavam técnicas de venda agressivas. Os clientes confiavam cegamente no poder persuasivo da publicidade. Toda a gente ganhava rios de dinheiro.

A agência de publicidade é uma das instituições mais originais e intrigantes do capitalismo moderno. A economia é por norma encarada como um sistema eminentemente racional de alocação eficiente de recursos, mas os publicitários presumem o contrário. O progresso é na verdade impulsionado pela fantasia dos consumidores: as pessoas não compram brocas de 5 mm, compram furos de 5 mm; as fábricas produzem cosméticos, mas, nas lojas, as clientes adquirem esperança; as marcas colocam a felicidade ao alcance de todos. Assim, é melhor possuir a marca Coca-Cola do que os activos materiais da empresa.

Mau-grado toda a retórica sobre a inovação, a vida nas empresas é por regra rotineira. A grande preocupação é fazer as coisas bem feitas e, de preferência, cada vez mais baratas. Privilegia-se a previsibilidade do trabalho organizado. Não assim nas agências, das quais se exige continuamente soluções inovadoras capazes de assegurarem a preferência de consumidores caprichosos.

Gerou-se nos publicitários a partir dos anos 60 a convicção de que as agências vendem acima de tudo ideias criativas e que a única forma de inventá-las em quantidade e qualidade é fomentar um ambiente de trabalho perigosamente caótico (daí a expressão Mad Men). Foi a era de ouro da publicidade. Com o tempo, porém, o culto da criatividade tomou o freio nos dentes e a reputação das agências ressentiu-se disso.

Já não existem hoje agências como a Sterling Cooper. A pouco e pouco, as diversas actividades que integravam a agência de serviço completo foram sendo separadas, designadamente a lucrativa negociação e compra de espaço. Ademais, a crescente fragmentação dos media (logo, também das audiências) tornou cada vez mais difícil atingir eficientemente o público alvo e contribuíu para minar a fé no poder da publicidade.

Nos anos recentes, ameaças ainda mais terríveis vieram pôr em causa a comunicação de marketing tradicional. O valor essencial dos mass media assentava no racionamento da oferta de informação e entretenimento, o que, a um tempo, restringia o acesso dos anunciantes ao espaço público e forçava as audiências a assistirem à publicidade. Este modelo desagregou-se passo a passo com a difusão do cabo, e sofreu a machadada final com o advento da internet.

Blogues, Podcasts, Flickr, YouTube, Twitter e outras ferramentas similares operaram uma colossal transferência de poder no espaço mediático. Não só qualquer um pode agora tornar-se emissor se tiver algo para dizer, como consegue blindar eficazmente o seu espaço privado contra a invasão de mensagens publicitárias. Os cidadãos e os consumidores conquistaram poder e usam-no em função dos seus interesses. Sobra cada vez menos espaço para a publicidade intrusiva.

Felizmente para ele, Dan Draper, o director criativo da Sterling Cooper, já não tem que se preocupar com nada disto. O mesmo não direi de quem hoje procura ganhar a vida trabalhando em marketing e comunicação.

(Publicado no Jornal de Negócios de 26.8.09)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pés no chão, cabeça no ar



Uma fotografia nocturna da Europa tirada do espaço revela-nos, através das manchas luminosas das grandes aglomerações humanas, a distribuição espacial dos seus habitantes, por sua vez indicativa da localização dos principais centros de produção industrial e de serviços.

O núcleo central da Europa, englobando a Alemanha Ocidental, a Holanda, a Bélgica e a região de Paris, prolonga-se a Norte até à Dinamarca, a Sul até ao Norte da Itália e, a Leste, até à Áustria. Ao largo da Europa, a iluminação nocturna sinaliza um conjunto de arquipélagos geo-demográficos mais ou menos próximos do centro. No sentido dos ponteiros do relógio, são eles a Grécia, o Sul da Itália, a Ibéria, a Grã-Bretanha, o Sul da Escandinávia e a Finlândia.

Portugal é, do ponto de vista geo-estratégico, uma ilha do arquipélago ibérico, de peso demográfico similar ao de Madrid e da Catalunha, embora mais excêntrica. Somos o país mais periférico da Europa, um sério handicap que, ao longo dos séculos, remetendo-nos para a margem das rotas de mais intensa circulação de pessoas, bens e ideias, prejudicou o desenvolvimento do país.

Deveria, pois, ser óbvia a relevância de tudo o que minimize o ónus da nossa distância física em relação ao núcleo da Europa, quer se trate de estradas, comboios, aviões, telefones ou internet. Tudo isso é preciso, mas não resolve o problema de fundo, porque, apesar das melhorias absolutas que o investimento em comunicações traz consigo, a nossa situação relativa pouco se altera se os outros fizerem esforços semelhantes.

Em vez de nos resignarmos a estar no fim de linha, temos que esforçar-nos constantemente por sermos um ponto de passagem obrigatório para outra coisa. Foi isso que fizémos de vários modos ao longo da nossa história: na Idade Média, ligando o Mediterrâneo ao Atlântico, o que explica as relações privilegiadas com a República de Génova e com a Inglaterra; mais tarde, expandindo-nos no Atlântico Sul rumo à África, à América do Sul e à Ásia.

Um país distante dos centros gravitacionais do poder económico europeu só pode contrariar a sua excentricidade transformando-se numa plataforma (ou hub, como agora se diz) capaz de potenciar a sua articulação com outros centros externos ao Continente. O modo como isso se faz muda continuamente, e, em certas circunstâncias, de forma súbita: situados em corredores de transição de um para outro centro de atracção, os hubs são pontos sensíveis e frágeis das redes mundiais de trocas, sujeitos a perturbações bruscas que, por vezes, os forçam a modificar rapidamente a sua vocação, atravessando com regularidade fases críticas de regressão.

Do que não há dúvida, é que um país com estas características tem de ser capaz de pensar a sua inserção estratégica nas redes mundiais de circulação de pessoas, mercadorias, informação e conhecimento. Ora, os instrumentos cruciais para o cumprimento desse propósito são, nos dias que correm, de três tipos: em primeiro lugar, aeroportos, portos e serviços conexos; em segundo lugar, universidades e centros de investigação; em terceiro lugar, infra-estruturas capazes de suportarem uma oferta turística variada, atraente e crescente.

Quem entende isto não faz perguntas absurdas sobre a relevância do investimento em aeroportos, terminais de contentores, comboios de alta velocidade, internet de banda larga, literacia digital ou estradas para a competitividade nacional, nem insiste em avaliar projectos nessas áreas ignorando as correspondentes externalidades com o argumento de que é impossível quantificá-las com rigor.

A análise custo-benefício tão cara a alguns economistas obriga à quantificação de ganhos que, pela sua própria natureza, não têm preço. Logo, só fará sentido se previamente nos pusermos de acordo sobre a relevância de certos propósitos para o nosso viver colectivo. Sucede que isso exige a clarificação de um desígnio nacional, isto é, de uma visão do que é necessário fazer para sermos um país viável e próspero. Sem estratégia nacional, não há análise custo-benefício que nos valha.

A racionalidade procedimental discute a adequação de certos meios a dados fins, mas nada pode dizer-nos sobre quais deverão ser esse fins. A teoria económica encara-nos como seres objectivos e calculadores, mas todos sabemos que não é assim que funcionam as pessoas inteligentes. Sugiro que, em vez de pormos as pessoas inteligentes a raciocinar como economistas, deveriamos tentar pôr os economistas a raciocinar como pessoas inteligentes, ou seja: com os pés no chão e a cabeça no ar.

(Publicado no Jornal de Negócios de 29.7.09)