quinta-feira, 29 de julho de 2010

Acaso, mérito e superstição

A probabilidade de o famoso polvo Paul ter acertado nos resultados de sete jogos consecutivos do Mundial (admitindo que a sua escolha foi aleatória e que não houve batota) era de apenas 0,8%. Por conseguinte, não parece muito razoável atribuir-se apenas à sorte a sua eficácia preditiva.

Mas a questão está mal posta. Deveríamos antes inquirir qual era a probabilidade de que algum dos centos de esquemas disparatados montados em todo o mundo para prever os resultados - mas de que, por terem falhado, não chegámos sequer a ter conhecimento - acertasse em cheio. Ora, estamos em condições de afirmar que uma oficina de cem polvos trabalhando afincadamente no problema teria uma probabilidade superior a 50% de garantir que um deles adivinhasse a sequência.

O cálculo das probabilidades sugere que não precisamos de recorrer a hipóteses transcendentes para explicar o desempenho do polvo Paul. Ele só parece extraordinário porque, devido ao modo como as notícias são difundidas, não tomámos conhecimento de todas as outras tentativas que falharam.

Trata-se de apenas mais um exemplo da falácia da evidência oculta, muito comum quando se recorre a um milagre para racionalizar qualquer tipo de superstição. Conta Cícero que, quando mostraram a Diágoras ex-votos de navegantes salvos do naufrágio por terem invocado os deuses, ele perguntou: "E onde estão as imagens dos que morreram afogados apesar de implorarem o auxílio dos deuses?"

Visto por outro prisma, o caso do polvo Paul pode insinuar no nosso espírito uma dúvida angustiante: como poderemos saber se o êxito desta ou daquela pessoa neste ou naquele empreendimento se deveu ao mérito, e não ao puro acaso?

O grande físico Enrico Fermi perguntou certa vez ao general Groves como definiria ele um grande general. Groves respondeu-lhe que classificaria como um grande general aquele que conseguisse triunfar em cinco batalhas consecutivas. Fermi perguntou-lhe depois qual seria, em sua opinião, a proporção de grandes generais. Groves respondeu: três em cada cem. Ora, se a vitória numa batalha depender de factores puramente aleatórios, a probabilidade de vencer uma batalha é de 1/2 e a de vencer cinco consecutivas é de 1/32. "Tem razão, general - disse-lhe Fermi -, são três em cada 100. Mas a explicação está na probabilidade matemática, não no génio militar."

Se onde está "generais" pusermos "CEO" e onde está "vitória em cinco batalhas consecutivas" lermos "resultados positivos em cinco anos fiscais seguidos", haverá motivo para temer que por vezes nos precipitemos ao explicar o bom desempenho de uma empresa pela excelência da sua gestão. Talvez o mérito do idolatrado CEO consista apenas em estar no lugar certo no momento certo, beneficiando de uma conjugação prolongada de circunstâncias particularmente favorável.

O sucesso de Paul no Mundial de 2010 não é garantia de presciência futura. A bem da preservação da lenda, os donos tiveram, por isso, a sensatez de resguardá-lo de ulteriores fracassos, reformando-o compulsivamente. Já na vida empresarial parece raro tal bom senso: não só o sucesso ocasional é com demasiada frequência tomado como indisputável sinónimo de mérito, como ainda o polvo do momento, para além de ser premiado com um bónus estratosférico, ainda por cima nos inflige longas e insípidas entrevistas onde nos confidencia os segredos do seu êxito.

Os atenienses da Grécia Antiga tiravam à sorte os membros da sua assembleia, e, porventura iludidos pelas astúcias da aleatoriedade, não se deram mal com o sistema. É possível que, demasiadas vezes, façamos o mesmo com os nossos líderes empresariais, embora não estejamos disso conscientes.

Nada disto prova que a identificação do mérito autêntico é impossível; apenas que, em virtude da perturbação introduzida por factores fortuitos, ela é tremendamente mais difícil do que tendemos a supor. O real valor de algo ou alguém não pode ser avaliado de longe, antes exige um escrutínio rigoroso que envolva a compreensão das circunstâncias particulares e das relações de causa e efeito intervenientes.

Faz algum sentido acreditar-se que a concorrência selecciona automaticamente as melhores ideias, os melhores indivíduos e as melhores práticas; infelizmente, ela pode tardar a produzir esse resultado. De modo que, enquanto aguardamos que as coisas se clarifiquem, sempre teremos que conviver com malformações de todo o tipo: ideias estúpidas, falsos milagres económicos, pseudo-génios, fraudes plausíveis, incompetentes felizardos, escolhas que ameaçam a ecologia do planeta, modos de vida que minam a responsabilidade colectiva, e por aí fora.

Num mundo crescentemente complexo, o ruído confunde-se com a informação genuína e nós somos constantemente enganados pelo acaso mascarado de necessidade. Nunca terá sido tão necessário o exercício da capacidade crítica para nos protegermos das superstições contemporâneas que nos assaltam a cada esquina.

(Artigo publicado no Jornal de Negócios de 28.7.10)

1 comentário:

Luis disse...

Fez-me lembrar uma máxima: Até um relógio parado acerta duas vezes ao dia......