sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os empreendedores não criam empregos

Na tentativa de conservar os padrões de bem-estar previamente atingidos, as famílias endividaram-se. Este padrão de distribuição gerou, a prazo, uma redução de oportunidades de investimento produtivo, estimulando o desvio dos capitais disponíveis para actividades especulativas.

Para onde foram os batalhões de dactilógrafas e secretárias que, ainda nos anos 80 do passado século, enxameavam os escritórios? Que é feito dos exércitos de calculadores empregados nos bancos, nas seguradoras e nas repartições públicas? Desapareceram para sempre, substituídos por computadores pessoais equipados com programas como o Word e o Excel.

Os empreendedores que lançaram os computadores pessoais e o "software" que eles utilizam criaram inúmeros postos de trabalho, mas destruíram do mesmo passo muitos mais. Tudo considerado, em termos líquidos, o impacto direto da sua acção reduziu o emprego.

Note-se que isto não sucede apenas em sectores de alta tecnologia, pois cada hipermercado que abre encerra largas dezenas de mercearias, frutuárias, talhos e peixarias. Qualquer inovação genuína, seja porque permite fazer algo com menores custos, seja porque torna obsoletas actividades existentes, aniquila direta ou indiretamente um número considerável de postos de trabalho. Quando hoje uma borboleta empresarial bate as asas na China, milhares de empregos esfumam-se no Vale do Ave.

A revolução industrial trouxe consigo a dúvida sobre se o progresso tecnológico não condenaria à inação e à miséria uma proporção crescente de trabalhadores. Para escândalo geral, Ricardo sustentou que os receios dos luditas que apelavam à destruição das máquinas tinham a lógica económica do seu lado. Sendo certo que os lucros apropriados pelos empreendedores bem sucedidos poderiam estimular a produção de bens de luxo e, assim, ocupar mais gente, Ricardo não via que isso fosse suficiente para contrariar o aumento do desemprego. A única solução, pensava, seria a expansão da criadagem ao serviço dos ricos ou a mobilização de soldados para a guerra.

Tendo a revolução industrial começado vai para um quarto de milénio, como se explica então que ainda haja alguém a trabalhar? E que função social útil desempenham afinal os empresários?

A função distintiva do empresário é tornar o trabalho mais produtivo. Espera-se dele que promova a eficiência, seja fabricando mais pregos por hora, seja tornando os pregos supérfluos e substituindo-os por colas extra-fortes. Mas os ganhos de produtividade que ele gera só beneficiarão a maioria se parte substancial deles reverter para os salários, o que está longe de ser um processo automático.

Historicamente, o excesso de mão-de-obra deu origem a fluxos migratórios de dezenas de milhões de europeus para o Novo Mundo. Quando essa válvula de escape se esgotou, porém, não sobrou outra alternativa senão recorrer às forças compensadoras da organização sindical, da legislação laboral e do emprego público para impedir o alastramento do desemprego de longo prazo e a degradação dos salários. Espantosamente, a conjugação desses fatores acabou por gerar o período de mais rápido, estável e duradouro crescimento da história.

Eis senão quando uma seita de iluminados demonstrou irrefutavelmente com a ajuda de algumas equações matemáticas que andávamos todos enganados e que seria possível obter resultados muito superiores confiando no poder incontrolado dos mercados e, desde logo, retirando poder negocial aos assalariados. Graças a esses sábios conselhos, os salários mais baixos estagnaram duradouramente em muitos países, as desigualdades económicas voltaram a agravar-se e o desemprego passou a situar-se a níveis consistentemente mais elevados.

Na tentativa de conservar os padrões de bem-estar previamente atingidos, as famílias endividaram-se. Este padrão de distribuição gerou a prazo uma redução de oportunidades de investimento produtivo, estimulando o desvio dos capitais disponíveis para actividades especulativas. O resto da história já todos conhecemos.

É natural que o empreendedor individual acredite estar a contribuir para reduzir o desemprego quando contrata trabalhadores. Porém, é no plano macro que se decide se daí resultará um acréscimo líquido de emprego e se ele suportará um crescimento sustentável. E isso só ocorre na vigência de instituições capazes de assegurar que os benefícios da inovação serão distribuídos pela comunidade numa proporção equilibrada.

A criação de emprego resulta sempre, digamos assim, de uma espécie de parceria público-privada.

Publicado no Jornal de Negócios em 30.1.12.

1 comentário:

Expedito Gonçalves Dias disse...

Qu8ando os governantes entenderem que a solução de qualquer economia é a geração de empregos, tudo será resolvido.
Abraços!